Popular na Netflix, a série Dirty John é um caso real e devastador

Talvez vocês tenham assistido, ou pelo menos ouvido falar sobre a série Dirty John – O golpe do amor, uma produção do canal Bravo que está disponível na Netflix. Ela é uma das novidades da plataforma e foi comparada a Você, que tem feito bastante sucesso. A atriz Connie Britton interpreta a protagonista Debra Newell, junto com Eric Bana, que – com uma excelente performance – faz o personagem título, John Meehan. O que nem todo mundo sabe é que a série é baseada em uma história real. Quem não usa a Netflix pode assistir a produção online, dublada ou com legendas.

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Eric Bana e Connie Britton em Dirty John – O golpe do amor (Fonte)

É uma ótima pedida para quem curte esse clima de mistério, suspense policial e crimes reais. Não vou entrar em muitos detalhes sobre a história para não dar spoilers, mas eu gostei bastante. Para resumir, Debra conheceu John num site de relacionamentos, e se apaixonou por ele. Em poucas semanas os dois estavam morando juntos, mesmo contra a vontade da família dela. Debra já tinha sido casada algumas vezes, e suas duas filhas – ambas jovens adultas quando ela conheceu John – desconfiaram de Meehan desde o início da relação. Encantada por ele, Debra ignorou todos os “sinais” de perigo. John se apresentava como médico anestesista, também separado, mas inteligente e charmoso, sempre prestativo, carinhoso e dedicado. Ou seja, era tudo o que Debra procurava em um parceiro. Ela atribuiu essa desconfiança das filhas a ciúme, implicância e excesso de preocupação, e se recusou a afastar John da sua vida.

Até a própria Debra começar a perceber alguns comportamentos estranhos no homem com quem ela se casou. John mentia sobre o seu passado, sobre o seu emprego, sobre a sua família e seu dinheiro. Porém, quando confrontado, ele parecia ter uma resposta – uma boa resposta – para tudo. Debra Newell se viu dividida entre os sentimentos que ela nutria por Meehan e as evidências que ela e a família descobriram. Sobre uma coisa, porém, não restava mais dúvidas: John Meehan não era quem ele dizia. Parece mesmo um thriller dos bons, né? Pois é. E sabem de uma coisa? A história real por trás da série é tão espantosa quanto a ficção. Se não mais. Quem não acredita nisso, pode conferir o documentário Dirty John: A verdade nua e crua, também disponível na Netflix.

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Os verdadeiros John Meehan e Debral Newell (Fonte)

É sobre essa parte verídica da produção que eu quero falar hoje. O documentário Dirty John: A verdade nua e crua traz depoimentos de Debra Newell e das suas duas filhas, e da primeira mulher de John, Tonia – além de profissionais envolvidos nas investigações contra ele. A história real é de partir o coração. Meehan não enganou apenas Debra e Tonia, mas várias mulheres com quem ele se envolveu ao longo dos anos. Incluindo a escritora brasileira Marileide Andersen, que mora nos Estados Unidos e se tornou uma das vítimas dele. No documentário, Marileide desabafa sobre as tentativas de extorsão e ameaças de morte que sofreu nas mãos do americano. A escritora passou momentos de terror, e não foi a única. John tinha várias ordens judiciais restritivas contra ele, que foram solicitadas por outras mulheres para impedir que ele se aproximasse delas (e nós temos um mecanismo semelhante na justiça brasileira). Meehan chegou a encomendar a morte de uma investigadora que atuava no seu caso, a detetive Julia Bowman.

A série Dirty John pode ser apenas mais uma peça de entretenimento, mais um seriado para a gente maratonar quando estiver de bobeira – não muito diferente de Você ou até mesmo Elementary – mas a história real por trás da narrativa nos chama a atenção para a existência de pessoas como John Meehan. E, principalmente, para como é fácil você se tornar a “próxima vítima” de alguém assim. Fácil, sim, porque Meehan não era só um vigarista explorador de mulheres. Ele não era só abusivo, ele era um predador.

Meehan selecionava essas mulheres. Quando escolhia uma nova vítima, ele procurava sempre vulnerabilidades que ele pudesse explorar. Isso é algo que precisa ser dito, e repetido: o fato de Debra e Tonia terem sido enganadas por Meehan não as torna fracas nem pouco capazes. Pelo contrário. Assim como Marileide Andersen, e todas as outras pessoas que foram vitimadas por ele. Em Dirty John: A verdade nua e crua, Meehan é descrito como um camaleão, alguém que se moldava exatamente naquilo que a pessoa queria ou precisava no momento. Dennis Luken, um dos detetives que investigaram os crimes de Meehan, disse que John é a pessoa mais traiçoeira que ele conheceu. “Após um total de quarenta anos, eu posso dizer que ele é a pessoa mais traiçoeira, perigosa e desonesta, e provavelmente existem muitas coisas que John fez e nós nunca, jamais ficaremos sabendo”. Não é por acaso que, para Debra, Meehan era “tudo aquilo que ela procurava em um homem”. Ou que, para Tonia, os dois tinham um casamento realizado, uma vida feliz. Todo mundo tem vulnerabilidades, o Dirty John apenas sabia muito bem como explorar cada mínima insegurança, e tirar vantagem disso.

E é nesse ponto que eu queria chegar: John Meehan também não é único. Existem, sim, mais pessoas como ele. Pessoas que talvez não cometam atos com a mesma gravidade, ou que não sejam capazes de matar como John provou – em mais de uma ocasião – que era, mas que constantemente manipulam, exploram e abusam de outras pessoas para tirar vantagem. John Meehan é um caso extremo, é claro, só que esse comportamento manipulador também acontece em doses menores, “menos” graves. E Meehan, além de ter uma necessidade de controle, ainda precisava alimentar seu vício em drogas, o que o tornava muito mais perigoso e propenso a ataques violentos. Isso não significa que as tentativas de manipulação e abuso sempre vão acabar em tragédia, em violência física ou em crimes graves, como acontece em Dirty John. É importante a gente estar atento para esse tipo de comportamento também no dia a dia.

Não estou dizendo que seja algo tão comum, nem que a gente deva banalizar as ações de alguém como John Meehan. Tem muita gente que é babaca e é só babaca, tem muito relacionamento que acaba mal sem que nenhum dos dois seja um abusador. Claro que tem, mas também tem gente que adota, sim, um comportamento predatório nas suas relações pessoais. Gente que procura as pessoas com vulnerabilidades que possam ser exploradas – como baixa auto-estima ou alguma insegurança – e se aproveita disso pra tirar vantagem. Gente que explora a inexperiência, a bondade e a fragilidade emocional das pessoas contra elas, que usa essas pessoas e depois parte direto pra próxima vítima. Eu acho que Dirty John: A verdade nua e crua, o documentário, ajuda a entender isso. Enquanto a série foca mais no suspense, no desenrolar da história, o documentário (e o podcast que desencadeou a produção) dissecam mais o comportamento de John, suas atitudes predatórias que seguiram um padrão, uma estratégia para dominar o seu alvo. Pode ser uma boa ferramenta para ajudar a identificar esse tipo de pessoa, que utiliza a manipulação emocional e psicológica para conseguir o que quer. Se for possível, até pra mostrar a pessoas que estão vivendo algo parecido agora que isso não é normal, e que certamente não é amor. E que ninguém merece – ou precisa – passar por isso.

Nem sempre o objetivo final é dinheiro, por exemplo. Às vezes, pode ser a estabilidade, a segurança que a outra pessoa pode oferecer – como Debra oferecia a John. Pode ser o acesso à moradia, a um carro ou itens de conforto físico. Ou ainda, coisas que não têm nada a ver com bens materiais. Tem gente que manipula os outros simplesmente para suprir uma vaidade, uma certa necessidade emocional. É o caso daquelas pessoas que mantém alguém por perto só pra alimentar o próprio ego – alguém que faz a namorada se sentir sempre “mais feia”, sempre a pessoa “menos desejável” da relação; ou que faz questão de dizer ao parceiro que é “o melhor que você pode arranjar”. Eu dei exemplos de relacionamentos amorosos porque é onde esse tipo de manipulação mais acontece, mas não podemos esquecer isso também existe em amizades.

Então, se eu puder dar um conselho para vocês hoje, que seja esse: por favor, assistam o documentário. Prestem atenção na forma como as pessoas entrevistadas descrevem John Meehan, e acima de tudo, o comportamento dele. As estratégias dele. A primeira tática que John Meehan usou foi isolar as “presas” do seu círculo social, dos amigos e de familiares, das pessoas que poderiam oferecer apoio. Isso fica muito claro na relação dele com as filhas da Debra. John usou os pequenos atritos entre ele e as garotas pra afastá-las da mãe. Situações que (caso ele fosse bem-intencionado) poderiam ter sido resolvidas com conversa, paciência e maturidade da parte dele. Ao invés disso, Meehan exagerava as discussões, distorcia a situação para jogar a culpa nas garotas, e com isso ganhava o “direito” de exigir que Debra se afastasse delas. Depois, ele usou o amor que a Debra sentia por ele para garantir que ela mantivesse suas filhas sempre à margem, excluídas do contato diário, mais próximo com os dois. Pessoas que estão tentando te manipular e te controlar vão fazer isso, vão usar pequenas diferenças com seus amigos e discussões bobas pra colocar uma distância entre vocês. O objetivo é isolar a vítima, o que a torna mais suscetível à manipulação e aumenta o controle do abusador.

Outra coisa que o Meehan fazia era distorcer qualquer acusação em favor dele. Toda vez que ele era pego em uma mentira, ou em uma situação suspeita, ele conseguia “se safar” ao fazer parecer que ele era a vítima. Quando a Debra abre uma carta que era endereçada a ele – e chega perto de desvendar um dos seus segredos – John a acusa de violar a sua correspondência, algo que é considerado um crime. Ele diz até que a Debra poderia ser presa por isso, invertendo completamente a situação. Nas discussões com as filhas dela, Meehan sempre dá um jeito de colocar a culpa nas garotas. Ele nunca é o culpado, nunca é o responsável por nada de errado. É sempre o outro. No início, ele faz isso para isolar a Debra, mas depois John usa esse mesmo recurso para impedir que ela descubra os crimes dele. Afinal, toda vez que Debra percebe algo errado, Meehan dá um jeito de colocá-la contra a parede, invertendo os papéis e fazendo com que Debra comece a pensar que talvez a errada seja ela, mesmo. Isso é gaslighting.

Se você consegue identificar comportamentos parecidos em alguém próximo, seja um amigo ou namorado, fique de olho. Comece a prestar atenção. Especialmente se você perceber que isso acabou te afastando dos seus outros amigos, da sua família, dessas pessoas com quem você mais convivia. Tente retomar o contato com essas pessoas. E eu falei “amigo”, “namorado”, mas essa não é só uma questão de gênero. Pelo contrário. É possível que a manipulação e o abuso sejam cometidos por uma mulher – assim como isso também pode acontecer entre casais gays e pessoas LGBT em geral. Então se você tem uma amiga ou namorada que faz essas coisas, também fica de olho. Presta atenção nos “sinais” de perigo. Se alguém parece “bom demais pra ser verdade”, se algo te deixa desconfortável, não ignora esses avisos. Escuta a sua intuição. Se você tem a sensação de que essa pessoa está de alguma forma se aproveitando das suas inseguranças, se ele ou ela parece usar suas vulnerabilidades contra você, por favor, cuidado. E eu vou falar de novo, porque isso é fundamental: não deixa essa pessoa te isolar. Desconfie sempre de alguém que te quer “só pra si”, alguém que parece te afastar de todos os seus amigos e familiares. Desconfie de alguém que é sempre a vítima, e que te faz parecer sempre o responsável por todos os problemas da relação.

Quando você tiver um tempo, assista o documentário Dirty John: A verdade nua crua, e pense sobre tudo isso que eu falei hoje, ou a série. Comece por aí.

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Eric Bana como John Maheen na série Dirty John – O golpe do amor (Fonte)

Pra quem for assistir a série ou o documentário, a narrativa às vezes pode parecer meio confusa – porque tem uma porrada de gente envolvida, e um montão de coisa absurda acontecendo simultaneamente. Vou deixar umas dicas para facilitar a vida de vocês! O Cinestra publicou uma descrição das pessoas envolvidas no caso, e o Mix de Séries fez uma linha do tempo com os crimes de John Meehan. Além disso, é legal saber que essa história toda foi divulgada primeiro pelo jornal Los Angeles Times, através do podcast Dirty John. Apresentado por Christopher Goffard, o podcast foi lançado em 2017, com participação de Debra Newell e a sua filha Terra Newell, Tonia Bales, o detetive Dennis Luken, e outras pessoas envolvidas. Embora não aborde tudo o que documentário – e a série – tentam esclarecer, foi graças ao podcast que o caso ganhou notoriedade.


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Special tem um protagonista gay com paralisia cerebral e um senso de humor irreverente

Acabou de chegar na Netflix uma série maravilhosa e hilária, que eu preciso apresentar pra vocês: Special. Quem gostou de My mad fat diary ou Please like me, com toda certeza vai adorar. O que é engraçado porque Special é uma produção americana, mas também consegue manter aquele senso de humor ácido, que é ao mesmo tempo desconfortável e tão familiar. Eu costumo dizer que eu não sou muito fã de comédia – Brooklyn 99 é uma exceção, como vocês sabem – mas esse aqui é o tipo de humor que eu curto. Special me fez rir alto em vários momentos. Se eu tivesse que definir a série, eu diria que ela é uma espécie de comédia dramática do dia a dia.

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O protagonista Ryan Hayes, com os amigos Kim e Carey em Special (Fonte)

Baseado em uma história real

Em Special a gente conhece Ryan Hayes, um rapaz de vinte e oito anos que mora com a mãe e vai começar um estágio (não-remunerado) em um site que produz artigos virais, desses que a gente adora acessar quando está procrastinando. Logo no primeiro dia ele faz amizade com a colega Kim Laghari (Punam Patel), a escritora mais prestigiada do tal site. Kim incentiva Ryan a buscar independência e o apresenta aos seus amigos, como o também jornalista Carey (Augustus Prew). Ryan ainda tem uma mãe amorosa, mas um pouco controladora. Karen Hayes (Jessica Hecht) é uma enfermeira que trabalha duro e criou o filho sozinha, já que o pai dele abandonou a família faz mais de vinte anos. Ela se desdobra entre a casa onde vive com Ryan, o hospital, e a casa da sua mãe idosa, que embora more sozinha, sempre precisa de assistência e companhia.

Special é uma produção autobiográfica, baseada no livro I’m special: and other lies we tell ourselves escrito por Ryan O’Connell, que também é roteirista e ator principal da série. Assim como O’Connell, o protagonista é escritor, é gay, e tem paralisia cerebral. E essa é a grande sacada da série! Não apenas a diversidade que ela acrescenta às produções de hoje – ainda tão necessária – mas essa autenticidade, essa cara original que a torna mais fascinante a cada episódio. E a Netflix ainda está apresentando um formato novo: os episódios são curtinhos, em torno de quinze minutos. No fim das contas a gente fica é querendo mais, e a primeira temporada passa voando! Eu vi tudo em dois dias e estou sofrendo por ter que esperar até o próximo ano para continuar assistindo.

Vocês se lembram do que eu comentei sobre lugar de fala, não é? Special é sensacional exatamente por ter sido escrita pelo Ryan. Ele fala sobre a própria experiência, e brinca com situações absurdas que ele passou, convidando o público a rir junto com ele. Ryan O’Connell é alguém que tem propriedade pra falar sobre a realidade de um homem gay com paralisia cerebral, porque ele é um homem gay com paralisia cerebral. Ao invés de usar a deficiência desse personagem apenas como mecanismo de enredo, ou como uma motivação para o desenvolvimento de outros personagens, Ryan é sem dúvida tratado como o protagonista da sua própria história. Mesmo quando outras pessoas recebem destaque na trama – por exemplo a mãe dele, que também tem um arco de crescimento pessoal – a narrativa não tira a autonomia do seu personagem. Pelo contrário, a série é toda sobre o Ryan tentando encontrar o lugar dele no mundo, com o apoio das pessoas que ele ama, como sua mãe e seus melhores amigos. É a grande diferença entre Special e produções como Atypical e Fragmentado. Embora esses títulos também se proponham a retratar grupos marginalizados – e claramente fizeram pesquisas a respeito – os dois cometeram um erro grave ao não incluir pessoas desses mesmos grupos na produção. O resultado é que Fragmentado apresenta um retrato grosseiro e equivocado sobre as pessoas com TDI, enquanto Atypical se torna uma crônica não sobre o protagonista que tem autismo, mas sobre como a família sofre com isso.

Um erro que Special não comete, porque garante que o protagonismo seja do Ryan – o que vai muito além de elegê-lo como personagem-título. A autonomia do personagem é evidenciada por um enredo que dá lhe dá espaço e voz ativa, que permite que Ryan fale por si mesmo e tenha sua opinião respeitada, que não transforma os sentimentos e as necessidades dele em um “fardo” para outros personagens.

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Ryan O’Connell como Ryan Hayes, um papel autobiográfico (Fonte)

Sabem do que mais? Ryan não tinha qualquer experiência como ator. Mesmo enquanto escrevia o roteiro inicial, ele não pretendia acumular a função de protagonista. “Eu não tinha o menor desejo de atuar”, Ryan O’Connell confessou à revista Vulture. Como a produção tinha um baixo orçamento, eles não poderiam contratar um ator profissional que se encaixasse no perfil. Foi aí que o escritor decidiu entrar em nessa – eu fico muito feliz, porque a performance dele é uma das melhores coisas em Special! Além, é claro, de permitir que o público conheça um protagonista com paralisia cerebral, não mais um ator sem nenhuma deficiência interpretando um papel.

Do ponto de vista da representatividade isso é importantíssimo, e muito, muito raro. Já passou da hora de atores e atrizes com deficiência terem oportunidade de representar a sua própria realidade na ficção. Personagens com deficiência são uma exceção, mas é ainda mais difícil ver esses profissionais nas telas.

No “armário” sobre ser gay e deficiente

Um dos aspectos mais interessantes da série – e da história particular do roteirista – é que Ryan esteve no armário não apenas sobre ser gay, mas sobre ter paralisia cerebral. Quando Ryan O’Connell se mudou para Nova York, todas pessoas que ele conheceu ali pensavam que ele mancava por causa de um acidente de carro recente, e não graças às sequelas da doença. “Eu nunca os corrigi porque, a meu ver, eu nunca me identifiquei com o fato de ter paralisia cerebral”, contou o escritor à Vulture“Meu caso era muito leve, e no fundo eu sempre procurava qualquer oportunidade para me distanciar da paralisia cerebral”. Para O’Connell, a deficiência era o aspecto mais problemático da sua identidade. Em uma entrevista para o New York Times Ryan disse que se descobriu gay aos doze anos e, apesar da insegurança natural sobre a sua sexualidade, ele sempre teve mais dificuldade em aceitar sua condição física.

“Eu tive muita sorte por ter uma família e tantos amigos que me apoiaram, então esse nunca foi o meu maior problema, nunca foi ‘a minha cruz’. Ser deficiente é que fazia com que eu tivesse vergonha, desde muito novo. Enquanto estava crescendo eu fiz várias cirurgias, eu estava sempre na fisioterapia, tinha que usar aparelho nas pernas. Claro que, nessa sociedade capacitista em que a gente vive, você só quer ser igual a todo mundo.

É essa que sempre foi a minha luta – aceitar essa parte de mim mesmo, e não tentar fugir disso a todo custo.”

 

Ryan O’Connell
roteirista, ator e escritor

 

A relação complicada do autor com a paralisa cerebral é abordada em Special, que traz esse “mal entendido” em torno do acidente de carro como o dilema central da primeira temporada. A gente não vê o momento em que o protagonista “abre o jogo” a respeito da sua sexualidade porque isso já aconteceu há mais tempo. A mãe dele, seus amigos e até a chefe sabem que ele é gay, e ninguém tem problema com isso. Não é essa faceta da sua identidade que o personagem tenta esconder ou disfarçar. Por outro lado, Ryan ainda está em negação sobre a paralisia cerebral e as suas implicações cotidianas. Ele não parece inseguro a respeito da sexualidade, exceto em um momento: quando ela se sobrepõe à sua deficiência. Isso aparece, principalmente, na sua vida amorosa.

Não é de estranhar. Existe muito preconceito contra pessoas que tem deficiência física, principalmente no meio LGBT. A nossa sociedade cultua um “corpo perfeito”, e isso não diz respeito apenas aos padrões de beleza. Pessoas que fogem do padrão considerado por muitos como “normal” (leia-se: sem nenhuma deficiência aparente) são colocadas à margem em muitos grupos e situações sociais. Apesar dos esforços direcionados para a inclusão e a acessibilidade nos ambientes gays, nem todos os espaços estão abertos pra receber frequentadores com deficiência. Mais que isso, a invisibilidade dessas pessoas dentro da própria comunidade LGBT é um problema real, assim como a discriminação. Special mostra sem nenhum puder que deficiência física não é sinônimo de abstinência sexual, pelo contrário, embora muita gente ainda acredite nisso.

“Sendo deficiente nesse mundo, você encontra muita gente babaca. Pessoas que vão te infantilizar e que não vão saber como tratar você.”

 

Ryan O’Connell
roteirista, ator e escritor

 

A série aborda muito bem a intersecção entre sexualidade e deficiência e, mesmo que o desafio de Ryan seja abraçar a sua condição física, Special não ignora a importância de ter um protagonista gay. O’Connell, junto com os outros produtores, tem a consciência de que representação LGBT na mídia é algo fundamental. O roteirista, inclusive, falou que pretende escalar atores LGBT para os personagens LGBT. “É porque que acho que pessoas hétero não podem interpretar gays? Não” disse Ryan ao site The Wrap, “mas eu sei que muitos atores gays de talento não recebem as mesmas oportunidades que os atores heterossexuais, por serem gays”. Assim como o diretor Jordan Peele, que faz questão de escalar protagonistas negros nos seus filmes, a decisão de O’Connell é uma atitude política que tenta acrescentar mais diversidade ao entretenimento. E como em Crônicas de San Francisco, Special também traz profissionais LGBT atrás das câmeras. O ator Jim Parsons (famoso por interpretar o Sheldon de The Big Bang Theory) que é gay, é um dos produtores executivos junto com Ryan.

Dinâmica entre mãe e filho com deficiência

Nós precisamos falar sobre a Karen, mãe do Ryan. Ela é uma excelente personagem! Eu estou torcendo tanto para ela, gente, a Karen merece ser feliz. Desde o início fica bem claro que ela ama o Ryan, aceita o filho, e só quer o melhor para ele. Além disso, os dois tem uma amizade legal, algo que a gente nem sempre vê em famílias com filhos LGBT. Ela tem, sim, esse lado meio super-protetor, mas em nenhum momento chega a ser algo disfuncional ou abusivo. A Karen se preocupa com o Ryan como qualquer mãe ou pai deveria se preocupar, e está disposta a ouvir e entender o filho. Mais importante, ela respeita as decisões dele. Por exemplo, quando o Ryan diz que quer morar sozinho, no primeiro momento a Karen reage com visível apreensão. Só que ela jamais o impede de fazer mudança. Ao contrário, ela concorda, e se oferece para ajudar Ryan a encontrar o apartamento ideal. E ajuda mesmo, nada de tentar fazer ele mudar de ideia ou sabotar a mudança do filho para a casa nova. 

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Karen junto com o filho Ryan em um momento carinhoso (Fonte)

Isso não significa, porém, que não existam conflitos na relação deles – conflitos muito naturais no ambiente familiar. Ryan e a mãe tem uma relação de dependência, que veio dos dois lados. Graças à paralisia cerebral, cuidar do filho sempre foi uma grande parte da vida da Karen, mas ela também sente necessidade da companhia e da amizade dele. Por outro lado, Ryan quer independência, mas ainda recorre à mãe quando precisa de ajuda com problemas tão corriqueiros como uma privada entupida. É uma relação onde os dois precisam crescer. Ryan precisa aprender a respeitar a individualidade da mãe, e entender que, às vezes, é ele quem deve assumir o papel de ajudá-la. Karen precisa dar o espaço que o filho deseja agora, mas também deve entender que, de vez em quando, Ryan ainda vai recorrer a ela para preencher as lacunas do seu aprendizado. Como na cena em que os dois estão cozinhando e a mãe tenta ensiná-lo a quebrar um ovo.

Esse momento em particular levanta uma questão interessante. Talvez Karen pudesse ter ensinado o Ryan a fazer isso antes, ou talvez ela pudesse ter comprado um utensílio para ajudar ele a quebrar os ovos (que pode ser muito útil para quem não tem uma das mãos, ou tem problemas de coordenação motora). Só que é justo culpar a mãe por isso, por não ter ensinado o Ryan a quebrar um ovo anos atrás? Eu acho que não. Na série, a Karen é uma mãe que procura dar ao filho tudo que ele precisa para lidar com o mundo da melhor forma possível, independente da sua deficiência. A paralisia cerebral trouxe algumas barreiras para o Ryan, e é natural que ele não tenha aprendido a fazer certas atividades que parecem tão comuns. Por isso é importante que ele tenha oportunidade de continuar esse processo de aprendizado. Pelo que a gente já viu em Special, a Karen sabe disso, e tem toda a intenção de ajudar o filho. Ryan tem uma ótima mãe.

Um detalhe que me chamou atenção e eu acho que nem todo mundo vai pegar (porque é mencionado muito rapidamente), é que a Karen queria ser médica. Tem uma hora que ela está ajudando a mãe dela, que pede para ver um médico – e a Karen lembra que ela é uma enfermeira, muito capacitada para lidar com a situação. A sua mãe então retruca “mas você não é médica” e a Karen responde algo como “às vezes os planos mudam”. Dá a entender que ela tentou, ou ao menos planejava, seguir a profissão. A gente ainda não sabe se o plano não deu certo por causa do casamento, ou da separação, ou se teve algo a ver com a paralisia cerebral do Ryan… E, até o momento, eu gostei da forma como a série abordou o assunto.

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Kim e Ryan trabalham juntos e viram melhores amigos em Special (Netflix)

É aquilo que eu disse lá em cima: Special não deixa de abordar os dramas e dilemas dos outros personagens, como a mãe do Ryan ou a melhor amiga dele, a Kim – mas nem por isso a série tira do Ryan seu lugar de protagonismo. Além de ter um personagem central que é bem construído e com quem o publico pode se relacionar, Special apresenta um excelente elenco de apoio. Sem atropelar a autonomia do protagonista.  E como o texto de hoje já estava enorme (para variar), eu vou encerrando por aqui!

Fica a minha recomendação: se você está procurando uma série de humor divertida, e talvez meio cínica, mas com um romance gay adorável, assista Special! Eu confesso que eu peguei para assistir só por essa questão da representatividade, já que esse é sempre o foco da nossa discussão aqui no Estanteante. Acabei me apaixonando pelo Ryan e me divertindo com o senso de humor dele. Espero que vocês também gostem!


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Quando Jordan Peele diz que não vai escalar atores brancos

Sabe qual é o problema quando o cineasta Jordan Peele diz que não quer protagonistas brancos nos seus filmes? Nenhum. Absolutamente nenhum problema. E é isso que nós vamos discutir hoje no Estanteante (sem spoilers e sem susto, fiquem tranquilos).

Peele sempre teve uma carreira expressiva na televisão, mas foi alçado ao sucesso com seus dois filmes recentes, Corra! (2017) e Nós. Em ambos ele assina o roteiro, além da direção. Inclusive, com quatro indicações ao Oscar no ano passado, Corra! foi premiado com a estatueta de Melhor Roteiro Original, e Nós já desponta como um dos possíveis indicados da mesma categoria no próximo ano, 2020. A mais nova produção do diretor teve excelente recepção tanto entre os críticos quanto o público geral, com um enredo que – assim como Corra! – impressiona pelas suas nuances e pelas várias possibilidades de interpretação. Alguns fãs de terror estão até comparando o cineasta a outros nomes famosos do gênero, mas eu confesso que não gosto muito da ideia, não. Principalmente quando a comparação é com mais um diretor de cinema branco.

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Winston Duke, Lupita Nyong’o e Evan Alex, protagonistas em Nós (Fonte)

Eu não tenho dúvidas que Jordan Peele será lembrado como um dos mestres do horror e do suspense psicológico, mas o cara é original demais para ser chamado apenas de “o novo Fulano de Tal”. Não digo isso para desmerecer outros diretores que vierem antes dele, e que também agregaram muito ao cinema. Só que o Jordan Peele vem trazendo toda uma “cara nova” para o gênero, um novo imaginário para o terror, que preza tanto pela política quanto pela estética, sem abrir mão de um roteiro inteligente. E o fato dele ser um cineasta negro tem muito a ver com a autenticidade do trabalho.

Seu primeiro filme, Corra!, fala amplamente sobre racismo – ainda que de uma maneira quase alegórica. Mesmo que a narrativa funcione bem como uma história de terror, é impossível desvincular a questão racial da sua trama perturbadora e cheia de tensão. O personagem principal, Chris Washington (interpretado pelo ator Daniel Kaluuya), é um homem negro que namora Rose (Allison Williams), uma mulher branca. Quando os dois viajam juntos para visitar os pais dela, Chris percebe que a família da namorada o trata de um jeito estranho, e desconfia do comportamento furtivo dos anfitriões. Embora o protagonista seja negro, Corra! tem vários atores brancos em papéis de destaque. Nós, por outro lado, traz uma família negra como núcleo central da história. Os personagens negros são tanto os heróis quanto os vilões do filme. Se Corra! discute o racismo velado e suas implicações, Nós desafia os padrões racistas do cinema hollywoodiano ao colocar atrizes e atores negros em todos os papéis relevantes da trama.

Essa foi uma decisão consciente do cineasta, que avisou: ele não tem a menor intenção de escalar protagonistas brancos nos seus filmes. Algumas pessoas – brancas, é claro – não gostaram nada de ouvir isso, alegando até racismo reverso. E será que elas não tem pelo menos um tiquinho de razão? Será que por nem considerar atores brancos, Jordan não é tão preconceituoso quanto um diretor branco que não escala atores negros? Será que o talento não deveria ser o mais importante aqui?

filme nós

Shahadi Wright Joseph, a quarta integrante da família Wilson, completa o sensacional time de protagonistas (e vilões!) do filme Nós (Fonte)

Bem, não. Definitivamente não. Primeiro porque racismo reverso” não existe, então se esse é o seu único argumento, está na hora de repensar alguns conceitos. Racismo é um sistema estrutural de opressão, e ao priorizar o trabalho dos profissionais negros, o cineasta está desafiando esse mesmo sistema. Além do mais, nenhuma pessoa branca é prejudicada porque o elenco central de Nós é formado apenas por atores negros – não quando a maioria esmagadora entre os protagonistas dos grandes filmes são brancos. Se você é branco e não se sente representado, basta pegar pra assistir qualquer um dos últimos cinquenta – ou cem – filmes de terror que passaram no cinema. Tirando uma ou outra exceção, como Corra!, todos os protagonistas também são brancos. É por isso que não adianta perguntar, e se alguém fizer um filme só com protagonistas brancos? A maioria das produções que chegam ao cinema já são “um filme só com protagonistas brancos”. Títulos como NósMoonlight Podres de ricos, ou mesmo séries como Dear white people, ainda são uma exceção.

Jordan Peele sabe disso, e também que está em uma posição privilegiada nesse mundo do entretenimento. Como seu nome é sinônimo de sucesso entre o público e a crítica (e até nas cerimônias de premiação), ele pode muito bem dizer às grandes produtoras que vai realizar filmes só com atores negros nos papéis principais, e qualquer estúdio ficaria mais do que satisfeito em atender essa demanda. Ele sabe ainda que a representação é importante para o público, especialmente as crianças e jovens negros que nem sempre têm a oportunidade de se ver nas telas. Ou, quando se vêem, é sempre em papéis mais secundários. A gente até “brinca” que filme de terror costuma ter um cara negro, e que ele sempre morre primeiro. Ainda que isso seja dito em tom de piada, é um clichê bem comum e demonstra um dos problemas graves do cinema e da TV: enquanto os brancos são protagonistas, personagens não-brancos aparecem apenas como elenco de apoio – ou para fazer figuração, especialmente se tem alguma cena na cadeia.

“Eu não me vejo escalando um cara branco para o papel principal. E não é que eu não goste de caras brancos, mas eu sinto que já assisti a este filme antes.

(…)

Estamos vivendo em uma época de renascimento do cinema negro, e conseguimos provar que todos estes mitos sobre representatividade não ser lucrativa são falsos.”

Jordan Peele
entrevista para CBR

Por isso eu já falei lá em cima, a decisão de escalar protagonistas não-brancos (Jordan nunca disse que trabalharia apenas com atores negros) é muito consciente. E política. É um esforço deliberado do cineasta para incluir mais diversidade no cinema, pra trazer mais representatividade ao gênero do terror, e deve a ser celebrada.

Até porque racismo ainda existe, e demais. Vocês se lembram daquela propaganda d’O Boticário que trazia uma família negra, e motivou uma série de comentários racistas e ataques à marca? Não é tão diferente do que está acontecendo agora, com pessoas que acusam o Jordan Peele de ser “racista contra brancos” por não querer fazer mais e mais filmes com atores brancos (como se o cinema hollywoodiano precisasse disso). Eu acho a decisão dele fantástica, do mesmo jeito que seus enredos são fantásticos. E se eu vou continuar assistindo os filmes do Jordan Peele, não é apenas porque eu adoro um bom horror psicológico, embora esse seja sem dúvida o principal motivo. Outra razão é que eu reconheço o quanto essa diversidade que o diretor trás para o cinema é relevante, o quão significativa é a experiência pessoal dele – enquanto um homem negro num país tão racista como os Estados Unidos – para a construção das suas narrativas.

Acima de tudo, porque toda vez que eu vou ao cinema e me deparo com mais um cartaz onde os protagonistas são todos ou quase todos brancos (e heterosseuais, e cisgênero, e sem nenhuma deficiência) eu também sinto que já vi esse filme, Jordan. Pior ainda: eu já cansei de ver esse filme. E aquela velha desculpa de que “diversidade não vende” não cola, como Pantera Negra e tantos outros títulos (incluindo Nós e Corra!) provaram.


Em tempo: Para quem assistiu o filme e ficou meio confuso, ou quer ver uma explicação detalhada sobre o enredo, o Omelete fez uma análise bem legal. Cuidado: tem spoiler!


Falando nisso, você já viu as nossas listas com filmes LGBT de terror e de suspense?