Sobre os X-Men e super-heróis com deficiência

Já que eu recomendei Legion (série inspirada em um personagem da Marvel), resolvi falar sobre outros mutantes que ainda não ganharam as telas, mas eu estou torcendo pra eles aparecem logo nos filmes. Olha que depois de Logan, que eu acabei de ver, e Deadpool, minhas expectativas são altas!

Os X-Men sempre me despertaram um certo fascínio. Quando criança, eu achava que eles eram os super-heróis mais incríveis de todos os tempos. Com o passar dos anos, entendi que além disso é a metáfora perfeita para explicar como as minorias políticas são tratadas pela sociedade. A história se baseia no fato dos mutantes serem vistos como uma ameaça apenas por serem diferentes das pessoas ditas normais. Essa diferença é usada por pessoas como Dr. Trask (em Dias de um Futuro Esquecido) para instigar o ódio contra eles. Por causa disso, mutantes têm direitos básicos negados, são perseguidos pelo governo, expulsos de casa, atacados na rua. Claro, os X-Men lutam contra vilões malvados e inimigos mortais – como qualquer bom super-herói – mas também lutam pelo simples direito de existir nessa sociedade opressora. É uma mensagem muito poderosa. No universo dos quadrinhos da Marvel, a “raça mutante” é inclusive equiparada a uma etnia – ou seja, nesse mundo das HQs, o preconceito contra eles também é considerado uma forma de racismo.

Uma analogia que fica ainda mais interessante quando os mesmos personagens fazem parte de outros grupos marginalizados, como o próprio Legião, a Tempestade, que é mulher e negra, o Homem de Gelo, que é gay, ou Daken, que é bissexual, além da sua etnia nipo-americana. A franquia dos X-Men tem abordado essa interseccionalidade de uma maneira muito pertinente, tanto nos quadrinhos quanto nas telas do cinema e da TV. Por isso hoje eu decidi apresentar para vocês outros personagens interessantes, que eu espero ver logo logo nas telas. Representatividade importa!

Karma (Xi’an Coy Manh)

marvel_karmaXi’an Coy Manh (também conhecida como Shan) é uma garota vietnamita que chega aos EUA como refugiada, fugindo dos horrores da guerra junto com a família. Seus pais morrem no caminho e ela vira a responsável por um irmão e uma irmã mais novos. A convite do Professor Xavier, Shan se torna a primeira integrante e líder dos Novos Mutantes, adotando o codinome Karma. Seus poderes são psíquicos, incluindo controle mental, possessão e telepatia. Shan tem uma perna amputada após ser atingida em uma missão, e passa a usar uma prótese mecânica. Ela ainda é lésbica. Desde que Novos Mutantes foi previsto pra 2018, estou só esperando anunciarem quem vai interpretá-la no cinema. Vai ser uma decepção se ela não aparecer! Karma tem uma história fascinante e pode ser um gancho entre Legion e os filmes, já que além dos seus poderes se encaixarem na série, ela e David enfrentam um vilão em comum nas HQs.

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Karma em Astonishing X-Men, por Marjorie Liu (Marvel)

Uma coisa legal é que sua prótese não atira mísseis, não é mágica, nem parece ter saído da ficção científica. Na verdade, ela parece um membro artificial comum, não muito distante dos que a gente tem hoje. As HQs mostram Shan retirando a prótese no dia a dia, seja pra descansar ou realizar pequenos reparos. Karma tem um mini kit de ferramentas para ajudá-la com isso.


Silhouette Chord

Silhouette-New-Warriors-Marvel-ComicsEmbora Silhouette faça parte dos Novos Guerreiros, não dos X-Men, ela também é mutante. Não vou negar que me desapontou saber que a Marvel está produzindo uma nova série sobre o grupo e não pretende incluir a personagem mesmo que ela tenha integrado a equipe, além da sua relação com Dwayne Taylor. Silhouette combatia o crime junto com ele quando foi atingida por um policial. O tiro a deixou paraplégica e é por isso que ela as usa muletas para se movimentar. O interessante é que Silhouette tem o poder de se fundir às sombras, e pode se teletransportar através delas! Nas histórias de super-heróis muitas vezes os poderes são usados para apagar completamente a deficiência do personagem. Enquanto isso…

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Silhoutte usando seus poderes nos quadrinhos

Não é o que acontece no caso dela. Silhouette não encontra uma cura mágica (aham, estou falando de Barbara Gordon, da DC Comics). Ela continua usando as muletas e isso não a impede de ser uma heroína. Mesmo que tenha Silhouette desenvolvido e adaptado suas habilidades de luta, a Marvel não optou pelo caminho preguiçoso de ignorar sua deficiência. Vale ressaltar que ela é uma mulher negra, o que só deixa a história mais significativa.

Vocês não acham que ela seria incrível nas telas? Esse efeito do teletransporte pode ser executado de forma tão legal. Sério, imagina as possibilidades!


Forge

Forge é um personagem que já foi reimaginado várias vezes nas histórias da Marvel, inclusive nos desenhos animados. O que permanece consistente é sua descendência nativo-americana (índios cheyenne) e sua habilidade de construir tudo que ele imaginar. Tudo mesmo. Seu poder mutante é a engenharia intuitiva – ele entende naturalmente como qualquer tecnologia funciona, sendo capaz de inventar e recriar qualquer máquina ou aparelho eletrônico. Por que o Tony Stark nunca contratou esse homem eu até hoje não entendi. Além disso, Forge é extremamente inteligente, foi treinado pra ser o xamã (guia espiritual) da sua tribo e possui um vasto conhecimento sobre magia nativo-americana. Forge acaba perdendo a mão e parte da perna durante um combate, quando passa a usar próteses mecânicas que ele mesmo constrói.

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Forge em diferentes momentos nos quadrinhos, sempre com a perna mecânica

Apesar de ser um ex-soldado e fazer parte dos X-Men, ele é mais um inventor do que um guerreiro. Como o próprio Forge já disse, o seu poder é a sua mente, não a força física. Por isso mesmo, em várias versões seus membros artificiais lembram próteses regulares, ao invés de fazerem dele um ciborgue (híbrido de homem e máquina) como a gente costuma ver em HQs ou filmes de ficção científica.


Vocês perceberam o que os três tem em comum, né? Escolhi personagens com alguma deficiência porque esse tema é recorrente nos quadrinhos, mas na maior parte do tempo é usado como pretexto para justificar as habilidades do herói ou um aspecto que desaparece por completo quando ele usa seus poderes. Ou ainda pra transformar o personagem em um vilão, como fez Mulher Maravilha.

Matt Murdock, o Demolidor, que apesar de ser cego praticamente “enxerga” através de outros sentidos, é um caso emblemático de um herói que tem sua deficiência apagada com frequência. Bárbara Gordon, a Batgirl, durante muito tempo usou uma cadeira de rodas após ficar paraplégica. Até a DC decidir recomeçar a história dela, ignorando um ponto tão importante na sua caracterização, e excluindo paralisia da sua trajetória. O professor Xavier é outro que mesmo sendo conhecido pela sua cadeira de rodas, volta e meia recebe uma “cura mágica” e volta a andar, tanto no cinema quanto na HQ. A deficiência dele às vezes é tratada como um acessório, quase “descartável” quando convém ao enredo, e não um traço fundamental do personagem. Por outro lado, temos a Karma, uma heroína com poderes superlegais, uma história excelente e um enorme potencial – quero ela na telona, sim! Quero que mais heróis como ela sejam feitos direito. Karma, Forge e Silhoutte são exemplos de personagens cuja deficiência não é apagada pelos seus poderes, como acontece com o Demolidor. Ao invés disso, é uma característica que torna cada herói mais interessante, mais humano. É esse o tipo de representação que faz a diferença.

clint_hearingaidsAté hoje eu não perdoo o que os filmes da Marvel fazem com um dos meus heróis preferidos: Clint Barton, o Gavião Arqueiro. A franquia ignora que ele é surdo, apesar desse ser um aspecto fundamental do Gavião. Na HQ Clint usa aparelhos auditivos, faz leitura labial e se comunica com outros personagens através da linguagem de sinais. Além disso, não é o fato dele ter perdido a audição que o torna magicamente um herói (como o Demolidor, de novo), embora a gente possa argumentar que a perda da audição faça com que ele recorra a outros sentidos. Mas aqui isso é trabalhado de forma realista – Clint usa sua visão tanto para atirar quanto para a leitura labial, como muitas pessoas surdas fazem no dia a dia. É o tipo de herói em que as pessoas podem se ver, e é por isso que representatividade importa tanto. Existem vários super-heróis com deficiência e eles não podem ser ignorados desse jeito.

 


Em tempo: a ideia do post surgiu por causa do The Discourse, um tumblr que debate muito deficiência e acessibilidade. Também usei a Marvel Database e esse post sobre a Karma como fontes.

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Laerte-se: um convite pra gente conhecer Laerte Coutinho

Como o nome já sugere, o documentário Laerte-se é um trabalho intimista

O documentário estreou na Netflix essa semana e tem o clima de uma conversa entre amigos. A cartunista Laerte Coutinho recebe Eliane Brum em sua casa, onde as duas se sentam à vontade no sofá. Um contraste com a primeira cena do filme, que mostra Laerte receosa, querendo adiar a gravação. Dá para a gente entender – desnudar-se assim exige uma boa dose de coragem. A sensibilidade de Eliane, que assina a direção junto com Lygia Barbosa da Silva, faz toda a diferença.

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A cartunista em cena de Laerte-se (Netflix)

Não digo isso apenas por Laerte falar tão abertamente da sua transexualidade, ou por ela ter decidido tornar sua transição pública. Não, eu falo mesmo é da sinceridade com que a cartunista se apresenta no documentário. Como a Laerte abaixa a guarda e fala sem reservas sobre suas inseguranças, sobre assuntos que a incomodam, sobre a perda do filho Diogo e, claro, a construção da própria identidade. Minha admiração por ela só cresceu depois de assistir Laerte-se! É muito interessante a gente ver a pessoa por trás das tirinhas, como a trajetória influenciou suas obras e como a arte, por vezes, torna-se um objeto de auto-conhecimento.

Isso acontece porque o filme desvenda Laerte como artista e como mulher, mas acima de tudo como pessoa. É uma boa oportunidade pra gente conhecer melhor uma das cartunistas de maior importância no cenário nacional. Acho que aqui não cabe tanto uma crítica, justamente por ser tão íntimo, mas uma recomendação: assistam. Sério. ‘Tá na Netflix. Já que falei dela, vale lembrar que Laerte-se é o primeiro documentário brasileiro da empresa, que nos últimos anos investiu bastante no gênero.

E pra quem não conhece o trabalho dela (você conhece, só não tem o hábito de ler o nome dos artistas ali no canto), encerro o posto de hoje com algumas tiras da Laerte.

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E, por último, minha favorita…

Legion, um thriller psicológico da melhor qualidade

Legion é baseado em um personagem da Marvel, mas traz uma proposta original

Eu adoro os X-Men desde a primeira vez que vi aquele desenho na década de 90, mas já faz algum tempo que eu não acompanho os filmes com a mesma empolgação (uhum, desde que eles costuraram a boca do Deadpool em 2009). Nem assisti Logan ainda. Aí veio Legion e pronto: me ganhou de novo.

A série nos apresenta David Haller, que nas HQs adota o codinome Legião. David é considerado um dos mutantes mais poderosos do planeta e suas habilidades incluem telepatia e telecinese. No jargão Marvel, ele é um mutante nível ômega. Embora a essência tenha sido preservada, a série optou por não seguir completamente a história dos quadrinhos e tirando David (Dan Stevens), a maior parte dos personagens foi criada pra TV. O que funciona muito bem nessa produção da Fox.

Dan Stevens como David Haller em Legion

Dan Stevens, de A Bela e a Fera, interpreta Legião (Fonte)

Legion vem com a proposta de ser um thriller psicológico, ao contrário dos filmes de ação onde estamos acostumados a ver os X-Men. O interessante é que os poderes dos mutantes que a gente conhece na série são menos “eu posso atirar bolas de fogo dos meus olhos” e mais “eu consigo navegar pelas memórias das outras pessoas”. Não se preocupe: ainda tem cenas de luta, tem gente explodindo, só não é esse o foco da história. Não sei vocês, mas eu adoro um bom suspense psicológico. E estou curtindo demais o que Legion têm acrescentado ao gênero.

A narrativa segue o ponto de vista de David e por isso mesmo é fragmentada, confusa. Cada episódio deixa mais perguntas que respostas e embora a gente vá entendendo aos poucos, algumas dúvidas permanecem. A maioria das produções que adotam a mesma linha tem uma estética sombria, cenas com pouca iluminação (amo Hannibal da NBC, mas chega na última temporada você precisa de uma lanterna) enquanto Legion é… Colorido. Vibrante. Às vezes, os personagens dançam. E tudo isso só acrescenta ao clima intrigante da história.

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Katie Aselton e Dan Stevens (Fox)

Tem ainda os anacronismos propositais. A ambientação da série, assim como algumas escolhas de cabelo e vestuário, apontam para um período durante as décadas de 60 e 70. Os monitores de TV definitivamente são ultrapassados. Por outro lado, as armas e os veículos parecem contemporâneos! E aí? Será que isso acontece porque nós vemos as cenas da forma como David as vê, ou Legion se passa em um universo paralelo, similar ao nosso, onde a tecnologia evoluiu de maneira diferente? Ah, eu tenho tantas perguntas. Queria que a segunda temporada começasse hoje. Sério.

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Aubrey Plazza

Outro ponto forte é a atuação de Aubrey Plaza, que interpreta Lenny Busker, mais uma das pacientes no hospital psiquiátrico onde David foi internado. Sem spoilers, vou dizer apenas que eu acho maravilhoso a série permitir que uma atriz faça esse tipo de trabalho – o tipo de papel que em geral é reservado a atores, homens. Não vou entrar em detalhes aqui, mas juro que vocês vão entender quando assistirem. Aubrey surpreende o público com uma performance intensa, por vezes perturbadora. Ela está incrível no papel e eu sinceramente não consigo imaginar alguém melhor para dar vida à personagem!

Por último, um detalhe importante: a série tem um vilão que é gay e, aleluia!, não cai naquele veeeelho estereótipo. Se você não sabe por que isso seria um problema, que tal começar por esse artigo legal do Lado Bi? O fato é que a homossexualidade (ou bissexualidade) é usada com frequência em filmes, séries e desenhos animados para identificar um personagem como ameaçador, perverso ou anormal – ou seja, é mais uma das características que fazem dele o vilão. Já em Legion acontece justamente o contrário. A gente fica sabendo que o personagem é gay no primeiro episódio em que ele demonstra traços de humanidade (empatia, bondade, carinho, até medo). É bem interessante a forma como a série constrói isso e estabelece uma relação oposta entre as atitudes controversas do personagem e a sua forma de amar, sua sexualidade.

Ainda nessa linha, vale lembrar que boa parte da história – ao menos durante essa primeira temporada – se passa em uma instituição psiquiátrica, onde David já está internado há alguns anos. A série consegue abordar o tema com sutileza, sem recorrer ao clichê (tão comum no suspense e no terror) de demonizar a doença mental ou mesmo os pacientes psiquiátricos. É mais um entre os “detalhes” que não apenas tornam o enredo mais inteligente, como conferem originalidade à produção.

Legion tem uma proposta original e realmente traz algo novo pros shows de super-heróis. E para quem ficou curioso sobre a relação de David Haller com os X-Men, tudo indica que eles vão explorar isso na segunda temporada. Vale a pena acompanhar!