Depois de Lucia, bullying e misoginia

Nas últimas semanas ouvi falar muito sobre Os 13 Porquês. Eu não assisti, mas pelo que li a respeito a série trata de suicídio, bullying e assédio entre adolescentes. Impossível não pensar em Depois de Lucia, um drama mexicano disponível para baixar aqui.

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Alejandra no dia do seu aniversário (Fonte)

Depois de Lucia aborda temas parecidos e na época me impressionou por ser sutil, apesar de devastador. Eu me propus a assistir de novo antes de escrever esse texto… Ah, cara. É dessas histórias que deixam a gente com um nó na garganta. Parece que fica entalado aqui, não desce.

O interessante é que ele também é silencioso. Eu vi críticas falando sobre o drama ser exagerado e, na minha opinião, isso não tem nada a ver. A história é pesada, mas tem uma sutileza quase poética. Seria fácil escandalizar o público com uma trama grotesca ou cenas brutais, como fizeram Um filme sérvio e Irreversível. Não estou dizendo que sejam filmes ruins, só que as cenas de violência nos dois casos são bem gráficas, ao contrário de Depois de Lucia. O drama mexicano é quase insuportável de ser visto do mesmo jeito, mas não pelo exagero. A narrativa parece ser feita de ausências. Mesmo assim, o filme apresenta uma história perturbadora e muito próxima da nossa realidade de forma crua, sem rodeios.

Tudo começa quando Alejandra (Tessa Ia) perde a mãe num acidente de carro em que o pai, Roberto (Hernán Mendonza), estava dirigindo. Com a intenção de deixar pra trás esse trauma, os dois se mudam para a Cidade do México, onde ele assume a cozinha de um restaurante. Alê começa a frequentar uma escola nova e aos poucos consegue se enturmar, até que ela tem um vídeo íntimo divulgado entre os colegas, pela internet. A partir desse momento a garota se torna o principal alvo de bullying no colégio. O machismo tem um papel decisivo na história. As ofensas, motivadas pelo vídeo, são sempre de cunho sexual. E o que começa com provocações e xingamentos evolui para uma perseguição cruel, com agressões físicas e sexuais. Tudo intensificado pela presença constante dos celulares, que gravam cada humilhação. Não tem outro nome para o que se passa aqui: é tortura. Alejandra aguenta tudo calada, mesmo quando as agressões chegam a um nível absurdo.

O próprio silêncio é um elemento fundamental para a construção do filme. Quando Roberto sente a perda da esposa é com um choro abafado, reprimido. Alejandra chora sozinha no banheiro. Os dois conversam pouco. Ele não conta para ela que não consegue mais dirigir o carro depois do acidente, ela não conta sobre os problemas na escola. Com os funcionários do restaurante Roberto fala apenas o necessário. Quando os colegas perguntam a Alê sobre a mãe, ela diz que Lucia “ficou em Vallarta”. A tia liga para ele, Roberto fala que a filha está bem. A tia liga para ela, Alejandra também diz que o pai está bem. Ambos sofrem em silêncio. Enquanto isso, do lado de cá da tela, a gente assiste a tudo sem poder interferir.

O filme deixa claro que o lugar do espectador é o “lado de fora”. A câmera assume uma posição externa, de maneira que que você se sente um intruso, como se não devesse estar vendo aquilo. Parece que a ideia é incomodar. A gente fica desconfortável mesmo, e como!20497623 O silêncio é perturbador, e vai além da ausência de diálogos. Por que a menina não conta? Por que o pai não insiste pra ela falar quando percebe que tem algo errado? Por que a escola não faz nada? Por que os outros alunos não interferem? Essas perguntas ficam martelando na nossa cabeça o tempo inteiro. Ainda mais quando a gente percebe que a política da escola é acompanhar os alunos de perto. Quando Alê chega no colégio, o diretor a chama pra conversar sobre a mudança. Se ocorre alguma confusão, os pais também são chamados à diretoria. Os estudantes são submetidos a exames antidoping! Então por que nenhum professor percebe o que está acontecendo dentro da própria sala de aula, nos corredores, na viagem da turma?

De certa forma, a gente compreende a ausência de diálogo. Roberto ainda não superou a perda de Lucia. No sofrimento do luto, ele enfia a cara no trabalho. Depois de uma briga no pátio do colégio, o diretor pergunta a Alejandra se existe algum problema. Com medo de ter o seu segredo descoberto, ela nega, sustenta a versão que protege seus agressores. O pai se preocupa, insiste, mas não sabe como lidar com a filha. Alejandra está sempre acuada. Logo após o escândalo do vídeo ela usa um dos vestidos antigos da mãe – como se isso pudesse trazer algum conforto ou segurança – mas não conta a nenhum adulto sobre a filmagem. Fica a sensação de que se Lucia estivesse lá, talvez a história fosse diferente. Quem sabe? O fato é que conforme a narrativa se desenrola parece cada vez mais óbvio que algo está errado, e ninguém faz nada. O que é desesperador. A gente se sente tão impotente quanto a própria Alejandra. Ou como o pai dela, quando Roberto descobre o que aconteceu com a filha.

Depois de Lucia toca em pontos importantíssimo, como a ausência de supervisão dos jovens mesmo no ambiente escolar, e machismo. Mais especificamente, a misoginia. Dá para notar que o bullying sempre ocorreu no colégio, só que a garota de repente se torna o maior alvo da crueldade. E fica claro que Alejandra é perseguida por ser mulher. Afinal, tanto ela quanto o colega José aparecem no vídeo que foi divulgado. Porém Alê é a única que recebe um tratamento hostil e humilhante. Ou seja: Alejandra é, na visão dos seus colegas, a única culpada pelo que aconteceu. Não é muito diferente do que acontece na vida real. Toda vez que “vazam” imagens desse tipo, a mulher se torna o centro de todas as críticas, ataques e provocações. Enquanto a imagem dos homens envolvidos sai intacta, para elas as consequências são desastrosas, e a história não para de se repetir. Às vezes, até a própria justiça coloca a culpa na mulher. Quantas garotas não passaram pela mesma tortura que Alejandra? É algo que a sociedade precisa aprender: a culpa não é da vítima. Não importa se a filmagem foi consensual, se a divulgação do vídeo foi acidental ou se ela tinha traído um namorado, nada justifica ter sua intimidade exposta assim.

Sinceramente, Depois de Lucia é o melhor filme sobre bullying que eu conheço. E traz toda essa reflexão interessante sobre a culpabilidade da vítima e o duplo padrão com que É difícil de assistir, doloroso demais – tem cenas de violência, estupro, morte. Mas vale muito a pena, se você tiver estômago.

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