Depois de Lucia e a tortura do bullying

Nas últimas semanas ouvi falar muito sobre Os 13 Porquês. Eu ainda não assisti (por falta de tempo) mas pelo que li a respeito, a série trata de suicídio, bullying e assédio entre adolescentes. Impossível não pensar em Depois de Lucia, um drama mexicano que eu vi há algum tempo e também está disponível na Netflix. Fica a dica!

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Alejandra no dia do seu aniversário (Fonte)

Depois de Lucia aborda temas parecidos e na época me impressionou por ser sutil, apesar de devastador. Eu me propus a assistir de novo antes de escrever esse texto… Ah, cara. É dessas histórias que deixam a gente com um nó na garganta. Parece que fica entalado aqui, não desce.

O mais interessante é que ele também é muito silencioso. Eu vi algumas críticas falando sobre o filme ser exagerado e, na minha opinião, isso não tem nada a ver. O filme é pesado, sim, mas tem uma sutileza quase poética. É fácil escandalizar o público com uma trama grotesca ou cenas brutais explícitas, como fizeram Um filme sérvioIrreversível, entre tantos outros. Não estou dizendo que sejam filmes ruins, só que as cenas de violência em ambos os casos são extremamente gráficas. Verdade seja dita, Depois de Lucia é quase insuportável de ser visto do mesmo jeito. Só que não pelo exagero – ao contrário, é uma narrativa feita de ausências – mas porque apresenta uma história perturbadora e muito próxima da nossa realidade de forma crua, sem rodeios.

Tudo começa quando Alejandra (Tessa Ia) perde a mãe num acidente de carro em que o pai, Roberto (Hernán Mendonza), estava dirigindo. Com a intenção de deixar pra trás esse trauma, os dois se mudam para a Cidade do México, onde ele assume a cozinha de um restaurante. Alê começa a frequentar uma escola nova e aos poucos consegue se enturmar, até que ela tem um vídeo íntimo divulgado na internet. A partir desse momento a garota se torna o principal alvo de bullying no colégio. O que começa com provocações e xingamentos evolui para uma perseguição cruel, com agressões físicas e sexuais. Tudo intensificado pela presença constante dos celulares, que gravam cada humilhação. Não tem outro nome para o que se passa aqui: é tortura. Alejandra aguenta tudo calada, mesmo quando as agressões chegam a um nível absurdo.

O próprio silêncio é um elemento fundamental para a construção do filme. Quando Roberto sente a perda da esposa é com um choro abafado, reprimido. Alejandra chora sozinha no banheiro. Os dois conversam pouco. Ele não conta para ela que não consegue mais dirigir o carro depois do acidente, ela não conta sobre os problemas na escola. Com os funcionários do restaurante Roberto fala apenas o necessário. Quando os colegas perguntam a Alê sobre a mãe, ela diz que Lucia “ficou em Vallarta”. A tia liga para ele, Roberto fala que a filha está bem. A tia liga para ela, Alejandra também diz que o pai está bem. Ambos sofrem em silêncio. Enquanto isso, do lado de cá da tela, a gente assiste a tudo sem poder interferir.

O filme deixa claro que o lugar do espectador é o “lado de fora”. A câmera assume uma posição externa, de maneira que que você se sente um intruso, como se não devesse estar vendo aquilo. Parece que a ideia é incomodar. A gente fica desconfortável mesmo, e como!20497623 O silêncio é perturbador, e vai além da ausência de diálogos. Por que Alejandra não conta? Por que o pai não insiste para ela falar, quando ele percebe que tem algo errado? Por que a escola não faz nada? Por que os outros alunos não interferem? Essas perguntas ficam martelando na cabeça o tempo inteiro. Ainda mais quando a gente sabe que a política da escola é acompanhar os alunos de perto. Quando Alê chega no colégio, o diretor a recebe para conversar sobre a mudança. Se acontece alguma confusão, os pais são chamados à diretoria. Os estudantes são até submetidos a um exame antidoping! Então por que nenhum professor percebe o que está acontecendo dentro da própria sala de aula, nos corredores, na viagem da turma?

De certa forma, a gente compreende a ausência de diálogo. Roberto ainda não superou a perda de Lucia e, no sofrimento do seu luto, ele enfia a cara no trabalho. Depois de uma briga motivada pelas provocações no pátio do colégio, o diretor pergunta a Alejandra se existe algum problema. Ela nega, sustenta a versão que protege seus agressores. O pai se preocupa, insiste, mas não sabe como lidar com a filha. Alejandra está sempre acuada. Logo após o escândalo do vídeo ela usa um dos vestidos antigos da mãe – como se isso pudesse trazer algum conforto ou segurança – mas não conta a nenhum adulto sobre a filmagem. Fica a sensação de que se Lucia estivesse lá, talvez a história fosse diferente. Quem sabe? O fato é que conforme a narrativa se desenrola parece cada vez mais óbvio que algo está errado, e ninguém faz nada. E isso é desesperador. A gente se sente tão impotente e desolado quanto a própria Alejandra. Ou quanto o pai dela, quando Roberto descobre o que aconteceu com a filha.

Depois de Lucia ainda toca em pontos importantíssimo, como a ausência de supervisão dos adolescentes, inclusive no ambiente escolar, e o machismo. Tanto Alejandra quanto José aparecem no tal vídeo íntimo que foi divulgado, enquanto ela é a única que recebe um tratamento hostil. Dá para notar que o bullying sempre ocorreu no colégio, só que Alejandra de repente se torna o maior alvo dessa crueldade. É o melhor filme sobre o assunto que eu conheço. Difícil de assistir, doloroso demais – tem cenas de violência, estupro, morte. Mas vale muito a pena, se você tiver estômago.

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