Por que você ainda não viu Dear White People?

Todo mundo devia assistir Cara gente branca

Principalmente se você é – como eu sou – a “gente branca” do título.

A produção da Netflix aborda o racismo numa universidade americana e tem uma mensagem fortíssima, além de ser genuinamente divertida. Eu gostei de cara, quando o narrador (na amigável voz de Giancarlo Esposito) diz no primeiro episódio “Blackface: parece que isso é algo que os brancos curtem. Procura no Google.” Mostra logo que a série não está aí pra te ensinar as coisas mais básicas (o Google é seu amigo, não custa nada pesquisar) mas pra levar discussão sobre racismo a fundo. Sem medo de abordar temas como colorismo, homofobia na comunidade negra e feminismo branco.

Sem spoilers porque vocês ainda vão assistir, mas…

Por exemplo, Cara Gente Branca tem um personagem que é negro e gay, e se sente deslocado tanto em um grupo quanto no outro. A gente acompanha a maneira como ele lida com suas dúvidas e inseguranças ao longo da temporada, enquanto tenta conciliar esses dois aspectos que fazem parte da sua identidade. De uma forma orgânica e bem humorada, a série aproveita o personagem como um gancho para levantar discussões sobre o estereótipo de masculinidade tão cobrado dos homens (em especial dos homens negros), a homofobia internalizada, as exigência de padrões de beleza e comportamento entre homens gays. Ele também desenvolve uma amizade genuína com um personagem heterossexual sem ficar batendo naquela tecla “uau, ele é tão incrível porque ele me ACEITA” (como se alguém merecesse uma salva de palmas só por, você sabe, agir como um ser humano decente).

Outra coisa que eu gostei demais foram as tiradas rápidas, feitas com humor mas cheias de verdade. Como quando o estudante estrangeiro Rashid é corrigido ao escorregar em uma expressão idiomática e responde na lata “eu falo cinco línguas, você mal fala uma. Não corrija o meu inglês”. Ou quando os funcionários da universidade, latinos e possivelmente imigrantes, lamentam não poder votar nas eleições. É claro que eles estão falando sobre a eleição de um represente do corpo estudantil, só que a mensagem não poderia ser mais óbvia, né?

Mesmo quando o episódio se concentra em um personagem branco, a narrativa mantém o foco no racismo e nas questões que importam. Destaque para o cartaz de diDear-White-People-Netflixvulgação ao lado, que diz justamente “aposto que você acha que essa série é sobre você”. Não, não é. E quem sente isso na pele é Gabe (John P. Amedori), o namorado branco da Sam – interpretada por Logan Browning, Samantha White é a estudante que apresenta o programa de rádio que dá nome a série, Dear White People, uma peça central na história. Quando a série apresenta o ponto de vista de Gabe, reforça o tempo todo ele precisa ter seus privilégios em mente, não silenciar pessoas negras quando elas falam sobre suas próprias experiências, aprender a ouvir mais do que falar. Do mesmo modo, as amigas da Coco (Antoinette Robertson) aparecem na primeira temporada apenas para ilustrar o que é o chamado feminismo branco. Elas se preocupam demais em ser bem sucedidas e empoderadas, mas volta e meia dizem barbaridades racistas sem nem se dar conta. É um problema bastante recorrente que precisa, e muito, ser discutido.

Para falar a verdade, minha única crítica é que o nome em português devia ter sido diferente, porque Cara gente branca não tem o mesmo tom ácido que o “dear white people da Sam. Poderia ter sido traduzido como “Brancos, meus amores” ou até “Brancos, queridinhos” – assim, bem irônico, mesmo!

dear-white-people

Jeremy TardyNia JervierAshley Blaine FeathersonJemar Michael e Marque Richardson na série Cara Gente Branca (Netflix)

Resumindo, o post de hoje é menos uma crítica e mais um carinhoso VÁ ASSISTIR À SÉRIE. Não tem desculpa, está na Netflix. E se você é uma pessoa branca e ela te deixar desconfortável em alguns (ou vários) momentos, parabéns, você está reconhecendo os seus próprios privilégios. Agora é hora de repensar e desconstruir.

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