11 filmes FELIZES sobre amor entre mulheres

Um dos maiores problemas com filmes LGBT é que muitos deles – e em geral os que ganham destaque na mídia – são grandes tragédias, dessas que fazem a gente perder a fé na humanidade (*cof cof* Brokeback Mountain). Isso é muito nocivo, principalmente pra quem ainda está descobrindo a sexualidade. Por isso trouxe uma lista de filmes sobre amor entre mulheres que são todos leves, divertidos e com final feliz. Elas ficam juntas! Ninguém morre! É de assistir comendo pipoca doce e marshmallow, gente.

Tentei colocar filmes de gêneros variados e que nem todo mundo conhece. Nenhum deles está na Netflix – infelizmente! – mas inclui onde dá pra baixar cada um ou assistir online. Talvez depois eu faça uma lista com os melhores títulos da Netflix, que tal? Até lá, fique com esses onze filmes adoráveis que vão te deixar sorrindo bobamente no fim (porque, às vezes, isso é tudo o que a gente precisa).

1) Livrando a cara (Saving face)

Nessa comédia romântica leve e gostosa Michelle Krusiec é Wil Pang, médica jovem e brilhante, criada numa comunidade chinesa nos EUA. Tudo se complica quando a mãe vai morar com ela. Sem desconfiar que Wil é lésbica, a mãe insiste para ela encontrar um marido. A médica acaba se apaixonando pela bailarina Vivian (Lynn Chen). Eu me diverti muito vendo o filme, as duas são um amor, é impossível não torcer por elas! Aqui tem pra assistir online, legendado. Tenho certeza que vocês vão curtir demais.

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Lynn Chen e Michelle Krusiec (Fonte)

2) I can’t think straight (sem título em português)

Tala (Lisa Ray), indiana de ascendência palestina, está prestes a se casar – depois de já ter abandonado três noivos. Ela conhece Leyla (Sheetal Sheth), uma muçulmana tímida que deseja ser escritora, e as duas se tornam amigas. Quando elas se apaixonam, que Tala não sabe como contar à família (e ao noivo) que é lésbica. Tem no Youtube ou aqui com qualidade um pouco melhor. Uma história encantadora e com final feliz!

As duas atrizes estrelaram outro romance da mesma diretora, The World Unseen, que aborda as tensões raciais na África do Sul. Apesar de ser uma temática mais pesada e difícil de ver, também vale a pena assistir (download aqui).

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Lisa Ray e Sheetal Sheth em I can’t think straight  (Fonte)

3) Mistério na Torre Eiffel (Mystère à la Tour Eiffel)

O ano é 1889, data de inauguração da Torre Eiffel. Louise é uma jovem divorciada que agora vive com o pai, um dos arquitetos responsáveis pelo projeto da torre. Quando a equipe dele começa a sofrer ameaças e um colega é morto, Louise não vê outra saída a não ser desvendar esse mistério. Ela só não esperava se apaixonar por Henriette. Um suspense levinho e divertido, como a gente raramente vê em histórias de época. Eu já falei sobre ele aqui, onde tem links para download e legenda.

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Louise e Henriette em cena do filme

4) Nunca fui santa (But I’m a cheerleader)

Quando os pais da líder de torcida Megan desconfiam que ela é lésbica, despacham a menina pra um acampamento que promete “curar” homossexualidade. Nunca fui santa é quase o típico besteirol americano, caricato e cheio de duplo sentido, só que a piada da vez são os homofóbicos. Ideal pra gente rir sem ter que pensar muito. Com Natasha Lyonne (a Nicky de Orange Is The New Black) no papel principal e RuPaul fazendo o líder “machão” do acampamento. Sério! E dá pra baixar aqui com legenda.

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Natasha Lyonne e Clea DuVall (Fonte)

5) Prazer sem limites (The incredibly true adventure of two girls in love)

Wendy (Maggie Moore) e Randy Dean (Laurel Holloman, de The L World) não podiam ser mais diferentes. Enquanto Wendy é popular e vem de uma família rica, é uma aluna modelo e gosta de música clássica, Randy cochila durante as aulas, odeia matemática, não tem muitos amigos e adora rock. Nada disso impede que elas se apaixonem! Um filme adorável sobre descoberta da sexualidade e amor adolescente. Tem no Youtube, e aqui para ver online. Também é conhecido como 2 Garotas in love.

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Wendy e Randy Dean, fofas demais! (Fonte)

6) Amigas de colégio (Show me love)

Outro filme adolescente, mas esse toca em assuntos mais complicados (como bullying e automutilação). Decidi colocar na lista mesmo assim porque é justamente o contrário do que a gente costuma ver no cinema mainstream. Os temas são tratados de maneira sutil, sem explorar a dor do personagem queer apenas para chocar o público. Show me love começa difícil, mas à medida que a história progride o fica cada vez mais leve, e o final é todo sorrisos. Foi de onde eu tirei a imagem do post, lá em cima. Download junto com um comentário legal sobre o filme, e para ver online, ambos legendados.

7) Melhor que chocolate (Better than chocolate)

A mãe de Meggie (Karyn Dwyer) se divorcia e vai morar com ela, alheia ao fato de que a filha gosta de garotas e está saindo com Kim (Christina Cox). O casal é uma graça, mas a melhor coisa do filme é a Judy Squires! Mulher trans e lésbica, é impossível não se encantar por ela. Judy é doce, mas implacável diante do preconceito, e desenvolve uma bela amizade com a mãe de Meggie enquanto tenta conquistar Frances, a tímida dona da livraria. Numa cena memorável, Judy canta I’m not a fucking drag queen – em bom português, eu não sou uma drag queen, p****. Vale muito a pena! Download com legenda disponível aqui, e para ver online aqui

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Peter Outerbridge como Judy Squires (Fonte)

8) Casamento de verdade (Jenny’s wedding)

Jenny (Katherine Heiglnunca saiu do armário pra família, apesar de namorar Kitty há cinco anos. Agora ela quer se casar de verdade, com tudo o que direito: vestido branco, festa, buquê. Resta saber se os pais vão aceitar o casamento! Para falar a verdade não tem romance nesse filme, o foco é a relação da Jenny com a família. Um drama água-com-açúcar levinho, com final feliz. A trilha sonora é uma delícia. Você pode baixar pelo Torrent (vá em Download Magnet Link, lá embaixo) ou assistir online dublado.

9) D.E.B.S. As super espiãs (D.E.B.S.)

Filme teen sobre garotas adolescentes que trabalham para o serviço secreto, no maior estilão Três Espiãs Demais – e quem não amava esse desenho? Em D.E.B.S. as meninas investigam a repentina conexão entre uma chefe do crime e uma assassina de aluguel russa, quando na realidade as vilãs estão num encontro. Do tipo romântico mesmo, não pra destruir o mundo. As coisas se complicam quando uma das mocinhas se apaixona pela vilãAssista dublado, ou baixe o filme aqui.

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D.E.B.S. em ação! (Fonte)

10) Índia, amor e outras delícias (Nina’s heavenly delights)

Nina (Shelley Conné indiana e vem de uma família bastante tradicional, por isso saiu de casa após encerrar um noivado com Sanji. Quando o pai dela morre, Nina volta pra Escócia, para assistir ao enterro, e descobre que o restaurante da família será vendido. Decidida a impedir que isso aconteça, assume a cozinha com a ajuda de Lisa (Laura Fraser), por quem acaba se apaixonado. O filme é superfofo, eu fiquei com fome só de ver a Nina cozinhando (muito sério). Tem no Youtube legendado!

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Nina e Lisa na competição de culinária (Fonte)

11) Cloudburst – Tempestade na estrada (Cloudburst)

Eu prometi que ninguém morria nessa lista, então preciso avisar logo: no finalzinho de Cloudburst uma das personagens morre, sim. Até hesitei em colocar aqui, mas onde a gente vê um filme sobre duas lésbicas de oitenta anos, vivendo juntas e felizes, tão apaixonadas que elas fogem pra casar? Isso é lindo, precisamos de mais histórias assim no cinema! E entra na lista porque a morte, aqui, não é um evento traumático, como acontece em tantos filmes LGBT, mas a conclusão de uma vida que ela passou ao lado da mulher que ela amava, feliz até os últimos momentos – especialmente durante seus últimos momentos. Baixe com legenda.

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Brenda Fricker e Olympia Dukakis em Cloudburst (Fonte)


Muitos desses títulos estão longe de ser obras de arte, mas eu queria filmes levinhos, gostosos de assistir. É o tipo de história que a gente precisa mostrar pra garotas que se interessam por garotas, porque elas têm que se enxergar em romances também, em comédias românticas, em filmes de ação, aventura e finais felizes (além dos dramas que Hollywood insiste em produzir). Espero que tenha conseguido deixar o dia de alguém um pouquinho mais colorido hoje!

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Porque filmes como Fragmentado são um problema

Em Fragmentado James McAvoy interpreta Kevin, um homem com 23 personalidades que sequestra três garotas. Mais uma vez o cinema usa um distúrbio psicológico para instigar o medo, de forma totalmente irresponsável e equivocada.

Kevin Wendell, personagem a que se refere o título, apresenta Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), caracterizado pela manifestação de diferentes alters. No popular, o que a gente chama de “múltipla personalidade”. Não é lá um tema muito original. Pelo contrário, em filmes de terror esse transtorno é usado à exaustão para criar uma reviravolta no enredo. E, como na maioria dos filmes em que o personagem tem TDI, Kevin acaba se tornando um assassino. Um monstro.

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McAvoy em cena de Fragmentado

Transtorno Dissociativo de Identidade na mídia

Na ficção, o transtorno é sempre associado à existência de uma personalidade maligna. Como em Identidade, não raro o personagem se revela um assassino serial. Em Janela Secreta (baseado no conto de Stephen King), o escritor Mort Rainey é perseguido por um homem estranho e violento. Até a gente descobrir que o homem é o próprio Mort, e ele matar a ex-esposa. A Nona Sessão e Identidade Paranormal apelam ao sobrenatural para explicar o distúrbio. O primeiro acontece num antigo hospital psiquiátrico, onde residiu Mary, uma paciente com o mesmo transtorno. Só que entre seus alters existe uma entidade maligna que – adivinha? – sai matando todo mundo. No outro, o rapaz com TDI é na verdade um reverendo que mata e absorve a alma das vítimas. Isso para não falar sobre Alternate, episódio de Law & Order: SVU em que uma mulher finge ter várias personalidades e usa a doença como “álibi” para assassinar os pais.

Dá para entender o quanto essas obras são prejudiciais, não é? Elas propagam ideias distorcidas sobre pessoas com TDI, encorajando o estigma contra distúrbios mentais já tão enraizado no público. Isso é cruel. Ainda mais quando a gente sabe que pacientes psiquiátricos são um dos grupos mais vulneráveis na sociedade, sujeitos a maus tratos, negligência e todo tipo de abuso. Filmes que retratam tais pacientes como perigosos e assassinos em potencial criam uma imagem errada sobe doenças mentais, alimentando a cultura de maus tratos contra essas pessoas. Ser diagnosticado com transtorno de identidade não faz de ninguém um monstro, por mais que o cinema teime em usar isso como pretexto para criar histórias grotescas.

As filmagens de A Nona Sessão foram, inclusive, feitas em um lugar real: o na época já abandonado Danvers State Hospital – “hospital para lunáticos de Danvers” – famoso por submeter internos a tratamentos cruéis e condições sub-humanas. Apesar disso, o filme faz apenas breves referências ao passado do lugar, e desperdiça a oportunidade de abordar o tema pela ótica dos residentes (como American Horror Story em Asylum, que nem por isso perdeu o clima de suspense). Justificar o Transtorno Dissociativo de Identidade através de um ser sobrenatural é como dizer que distúrbios mentais são fruto de manifestações do mal, possessão, maldições. Além de disseminar preconceito e má informação, esse tipo de mentalidade previne que pessoas reais afetadas por transtornos psiquiátricos tenham acesso ao tratamento adequado.

Fragmentado é especialmente problemático

De todos os títulos que eu citei aqui, Fragmentado é, de longe, o mais problemático. Em primeiro lugar porque é bem feito. Não só do ponto de vista técnico – a direção de arte é incrível – mas a gente vê que também houve muita pesquisa. A terminologia usada é atual, as descrições sobre TDI são feitas com propriedade (como a metáfora da luz pra explicar quando um alter está no controle) e, claro, James McAvoy em uma atuação impecável. Parece uma interpretação correta da doença, ao contrário de Identidade Paranormal Janela Secreta, que a gente entende logo de cara como fantasia.

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Kevin em consulta com a Dra. Fletcher (Universal)

Como se não bastasse, o personagem central de Fragmentado está em tratamento, com resultados positivos. Kevin tem acompanhamento regular com a psiquiatra, Dra. Karen Fletcher. Em uma das consultas, descobrimos que ele conseguiu um emprego onde é o funcionário ideal, e leva uma vida independente. Sua decisão de raptar as três garotas – trama principal do filme – em nada combina com a pessoa que o público conhece até então: alguém que aprendeu a conviver de forma saudável com o seu transtorno. Kevin Wendell poderia ser um personagem fascinante, mas Fragmentado peca ao fazer dele uma aberração, promovendo a ideia de que pessoas com TDI são perigosas e incapazes de existir em sociedade mesmo com tratamento adequado.

Na história, três entre as personalidades de Kevin organizam o sequestro instigadas por um alter que ainda vai se revelar, “a Besta”. Descrita como uma figura grotesca e temida pelos demais alteregos, essa vigésima quarta personalidade possui atributos físicos surreais (superforça, habilidade de escalar as paredes) e um apetite por carne humana. As garotas serão oferecidas como sacrifício. Com a chegada da Besta, Kevin se transforma em algo monstruoso, anormal, não-humano. É aí que o filme erra, e erra feio. Pessoas com distúrbios psicológicos já desumanizadas com tanta frequência em nossa sociedade. Nós não precisamos, nem deveríamos, reproduzir esse estereótipo no cinema. Fragmentado perpetua o conceito equivocado de “personalidade maligna”, sempre associada a instintos sanguinários e incontroláveis. Na vida real, o Transtorno Dissociativo de Identidade não é bem o bicho de sete (ou, nesse caso, vinte e quatro) cabeças que a mídia faz parecer.

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Patricia, uma das personalidades de Kevin

James McAvoy faz um bom trabalho ao interpretar os diferentes alters, em especial as personalidades femininas, Patricia e Jade. Porém, de forma alguma isso é o bastante para redimir o filme. Eu gostaria de ver o talento dele, junto com a pesquisa sem dúvida envolvida na produção, em uma história que não tratasse doenças mentais de forma tão preconceituosa e tão irresponsável. Gostaria de ver Kevin Wendell ser retratado no cinema como um ser humano, não um monstro.


Janela Secreta e A Nona Sessão estiveram entre meus filmes preferidos por anos. Adoro terror psicológico, e durante muito tempo não percebia como esse tipo de história é nocivo, como demoniza transtornos psiquiátricos. Por isso mesmo acho tão importante falar a respeito. A título de curiosidade, recomendo alguns filmes sobre TDI baseados em histórias reais: Sybil, inspirado no livro de mesmo nome e refilmado em 2007, e Frankie & Alice com Halle Berry. Fica a dica!