Porque filmes como Fragmentado são um problema

Em Fragmentado James McAvoy interpreta Kevin, um homem com 23 personalidades que sequestra três garotas. Mais uma vez o cinema usa um distúrbio psicológico para instigar o medo, de forma totalmente irresponsável e equivocada.

Kevin Wendell, personagem a que se refere o título, apresenta Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), caracterizado pela manifestação de diferentes alters. No popular, o que a gente chama de “múltipla personalidade”. Não é lá um tema muito original. Pelo contrário, em filmes de terror esse transtorno é usado à exaustão para criar uma reviravolta no enredo. E, como na maioria dos filmes em que o personagem tem TDI, Kevin acaba se tornando um assassino. Um monstro.

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McAvoy em cena de Fragmentado

Transtorno Dissociativo de Identidade na mídia

Na ficção, o transtorno é sempre associado à existência de uma personalidade maligna. Como em Identidade, não raro o personagem se revela um assassino serial. Em Janela Secreta (baseado no conto de Stephen King), o escritor Mort Rainey é perseguido por um homem estranho e violento. Até a gente descobrir que o homem é o próprio Mort, e ele matar a ex-esposa. A Nona Sessão e Identidade Paranormal apelam ao sobrenatural para explicar o distúrbio. O primeiro acontece num antigo hospital psiquiátrico, onde residiu Mary, uma paciente com o mesmo transtorno. Só que entre seus alters existe uma entidade maligna que – adivinha? – sai matando todo mundo. No outro, o rapaz com TDI é na verdade um reverendo que mata e absorve a alma das vítimas. Isso para não falar sobre Alternate, episódio de Law & Order: SVU em que uma mulher finge ter várias personalidades e usa a doença como “álibi” para assassinar os pais.

Dá para entender o quanto essas obras são prejudiciais, não é? Elas propagam ideias distorcidas sobre pessoas com TDI, encorajando o estigma contra distúrbios mentais já tão enraizado no público. Isso é cruel. Ainda mais quando a gente sabe que pacientes psiquiátricos são um dos grupos mais vulneráveis na sociedade, sujeitos a maus tratos, negligência e todo tipo de abuso. Filmes que retratam tais pacientes como perigosos e assassinos em potencial criam uma imagem errada sobe doenças mentais, alimentando a cultura de maus tratos contra essas pessoas. Ser diagnosticado com transtorno de identidade não faz de ninguém um monstro, por mais que o cinema teime em usar isso como pretexto para criar histórias grotescas.

As filmagens de A Nona Sessão foram, inclusive, feitas em um lugar real: o na época já abandonado Danvers State Hospital – “hospital para lunáticos de Danvers” – famoso por submeter internos a tratamentos cruéis e condições sub-humanas. Apesar disso, o filme faz apenas breves referências ao passado do lugar, e desperdiça a oportunidade de abordar o tema pela ótica dos residentes (como American Horror Story em Asylum, que nem por isso perdeu o clima de suspense). Justificar o Transtorno Dissociativo de Identidade através de um ser sobrenatural é como dizer que distúrbios mentais são fruto de manifestações do mal, possessão, maldições. Além de disseminar preconceito e má informação, esse tipo de mentalidade previne que pessoas reais afetadas por transtornos psiquiátricos tenham acesso ao tratamento adequado.

Fragmentado é especialmente problemático

De todos os títulos que eu citei aqui, Fragmentado é, de longe, o mais problemático. Em primeiro lugar porque é bem feito. Não só do ponto de vista técnico – a direção de arte é incrível – mas a gente vê que também houve muita pesquisa. A terminologia usada é atual, as descrições sobre TDI são feitas com propriedade (como a metáfora da luz pra explicar quando um alter está no controle) e, claro, James McAvoy em uma atuação impecável. Parece uma interpretação correta da doença, ao contrário de Identidade Paranormal Janela Secreta, que a gente entende logo de cara como fantasia.

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Kevin em consulta com a Dra. Fletcher (Universal)

Como se não bastasse, o personagem central de Fragmentado está em tratamento, com resultados positivos. Kevin tem acompanhamento regular com a psiquiatra, Dra. Karen Fletcher. Em uma das consultas, descobrimos que ele conseguiu um emprego onde é o funcionário ideal, e leva uma vida independente. Sua decisão de raptar as três garotas – trama principal do filme – em nada combina com a pessoa que o público conhece até então: alguém que aprendeu a conviver de forma saudável com o seu transtorno. Kevin Wendell poderia ser um personagem fascinante, mas Fragmentado peca ao fazer dele uma aberração, promovendo a ideia de que pessoas com TDI são perigosas e incapazes de existir em sociedade mesmo com tratamento adequado.

Na história, três entre as personalidades de Kevin organizam o sequestro instigadas por um alter que ainda vai se revelar, “a Besta”. Descrita como uma figura grotesca e temida pelos demais alteregos, essa vigésima quarta personalidade possui atributos físicos surreais (superforça, habilidade de escalar as paredes) e um apetite por carne humana. As garotas serão oferecidas como sacrifício. Com a chegada da Besta, Kevin se transforma em algo monstruoso, anormal, não-humano. É aí que o filme erra, e erra feio. Pessoas com distúrbios psicológicos já desumanizadas com tanta frequência em nossa sociedade. Nós não precisamos, nem deveríamos, reproduzir esse estereótipo no cinema. Fragmentado perpetua o conceito equivocado de “personalidade maligna”, sempre associada a instintos sanguinários e incontroláveis. Na vida real, o Transtorno Dissociativo de Identidade não é bem o bicho de sete (ou, nesse caso, vinte e quatro) cabeças que a mídia faz parecer.

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Patricia, uma das personalidades de Kevin

James McAvoy faz um bom trabalho ao interpretar os diferentes alters, em especial as personalidades femininas, Patricia e Jade. Porém, de forma alguma isso é o bastante para redimir o filme. Eu gostaria de ver o talento dele, junto com a pesquisa sem dúvida envolvida na produção, em uma história que não tratasse doenças mentais de forma tão preconceituosa e tão irresponsável. Gostaria de ver Kevin Wendell ser retratado no cinema como um ser humano, não um monstro.


Janela Secreta e A Nona Sessão estiveram entre meus filmes preferidos por anos. Adoro terror psicológico, e durante muito tempo não percebia como esse tipo de história é nocivo, como demoniza transtornos psiquiátricos. Por isso mesmo acho tão importante falar a respeito. A título de curiosidade, recomendo alguns filmes sobre TDI baseados em histórias reais: Sybil, inspirado no livro de mesmo nome e refilmado em 2007, e Frankie & Alice com Halle Berry. Fica a dica!

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