Atypical tem boas intenções, mas decepciona

Quando a Netflix anunciou Atypical, despertou na hora meu interesse. É raro ver uma série onde o protagonista é neurodivergente, mais raro ainda o tema ser abordado com propriedade na mídia. Porém, embora tenha boas intenções, Atypical me decepcionou. Robia Rashid, criadora da série, conversou com familiares de pessoas com autismo e especialistas, mas não incluiu na produção ninguém que de fato seja autista.

Sam é quase um objeto de cena…

Segundo o catálogo da Netflix quando Sam Gardner, “um adolescente com traços de autismo, resolve arrumar uma namorada, sua busca por independência coloca a família inteira em uma aventura de autodescoberta”. Outra versão da sinopse diz que a busca dele coloca sua própria mãe em um caminho que vai mudar a vida dela. Uma terceira deixa claro que “Sam estar crescendo significa que os problemas da família toda estão aumentando”. Vocês já perceberam aonde eu quero chegar, não é?

Embora seja o personagem que dá título à série, Sam Gardner é tratado mais como um dispositivo do enredo do que um protagonista. Atypical foca mais nos outros membros da família (em especial a mãe) e Sam se torna um problema. Não estamos falando sobre uma narrativa que explora a relação do personagem com os familiares, mas de uma história que usa um garoto como a causa dos obstáculos que sua família enfrenta. Ao longo da temporada, descobrimos que Doug saiu de casa na época em que o filho foi diagnosticado com autismo. A esposa nunca o perdoou por abandonar o lar, e isso afeta a relação deles até hoje. Casey, a caçula, sente-se deixada de lado pela mãe. Quando ela se vê cotada para receber uma bolsa de estudos, a maior preocupação da família é Sam não ser capaz de ir pro colégio sem a irmã – a despeito dele lidar bem com as tarefas diárias, ser independente e trabalhar numa loja durante meio período.

Atypical_Poster

A família Gardner em poster da série (Netflix)

Dá pra perceber que a caracterização dos personagens gira em torno da forma como Sam, por ser autista, torna a vida de cada um deles mais difícil. A mais problemática é a mãe, Elsa, que vive em função do filho e passa por cima dele mesmo quando o rapaz expressa suas vontades. Quando ele quer sair pra comprar roupas, ela tenta convencê-lo a ficar em casa. Elsa causa uma cena na loja, enquanto Sam estava aproveitando a visita sem qualquer empecilho. O comportamento dela é recorrente. Elsa existe apenas como “mãe de autista” – até o dia que inicia um romance com um cara mais jovem. O amante chega a dizer que ela talvez esteja cansada de ser a mãe da casa e fica óbvio que isso se refere a Sam, já que Elsa neglicencia a relação com o marido o tempo todo e é distante da filha. De novo, o problema não é que ela seja uma dona de casa exausta com esse papel (um questionamento muito válido na nossa sociedade), mas o fato da série colocar o filho autista como um fardo para a mãe e pro resto da família.

É claro que o problema existe na vida real: muitas pessoas neurodivergentes reclamam da família agir assim. Só que Atypical não aborda o tema do ponto de vista de Sam. O lugar de fala aqui é, na maior parte das cenas, ocupado por outros personagens. A mãe, a irmã e a namorada “compram” as brigas dele, mas a gente quase não vê o próprio Sam fazer isso. Sem dúvida, é um reflexo da ausência de pessoas autistas envolvidas na produção. Como eu disse, a criadora da série fez questão de entrar em contato com familiares e especialistas, mas não com pessoas autistas. Não é de se espantar que a história foque no ponto de vistas dos familiares, enquanto o personagem central vira só um pretexto pra desenvolver o enredo. A gente fala tanto de protagonismo na luta contra o racismo, no feminismo e na comunidade LGBT, por que não quando se trata de pessoas neurodivergentes? Sam devia ser o protagonista da própria história!

…e é constantemente alvo de piadas

atypical-netflix-premiere-date-video-keir-gilchristAlém do protagonismo apagado, o comportamento “atípico” de Sam é usado como piada em todos os episódios, apesar da atmosfera de aceitação da série. Várias cenas recorrem à sua falta de traquejo social pra fazer a audiência rir de Sam, não com ele. A maior fonte de comédia da série é quando Sam faz algo inapropriado: quando ele grita um palavrão para o namorado da irmã, fala sobre o sutiã da psicóloga e comenta, sem rodeios, a vida sexual de uma colega. A produção erra ao transformar o personagem autista no alívio cômico, estimulando preconceito contra o mesmo grupo de pessoas que ela tenta representar. Além de fazer com que essas pessoas sintam-se inadequadas, uma mensagem que já é disseminada o tempo todo na mídia. Por exemplo, no primeiro episódio, aprendemos que Sam usa fones de ouvido para abafar o barulho, já que ele tem Transtorno do Processamento Sensorial. É um transtorno comum para vários autistas, e mostrar isso na tela pode ser positivo. Só que no mesmo capítulo ele vai a um encontro usando os fones, o que é mostrado como um comportamento estranho, ridículo. A garota o recusa por ser esquisito, e Sam nunca tem a oportunidade de falar com ela a respeito do autismo e dos problemas sensoriais. Algo similar acontece com a segunda garota que ele convida para sair.

Nenhuma dessas cenas deveria ser encarada como algo engraçado, porque carregam a capacidade de fazer pessoas neurodivergentes se sentirem ainda mais inadequadas em uma sociedade que já é hostil. Fica com a impressão que Sam devia ter deixado seus headfones em casa (um instrumento de acessibilidade, que torna possível interagir com o mundo de forma segura e confortável), ao menos para o encontro. E se alguém que usa fones por sofrer desse transtorno resolve não usar por causa dessa cena?

Atypical reforça estereótipos perigosos

Sam é uma aglutinação de clichês sobre autismo: homem, branco, heterossexual. Isso é danoso porque perpetua estereótipos e pessoas que não se enquadram no padrão têm dificuldade em obter diagnósticos, além de tratamento adequado. Pesquisas apontam que o autismo é constantemente ignorado ou mal-diagnosticado em meninas. Apesar da ideia popular de que seja mais frequente em homens, o mais provável é que meninas autistas estejam apenas escapando do radar dos médicos. Da mesma forma, pessoas negras não conseguem um diagnóstico porque autismo é considerado “coisa de gente branca”, tanto por pais e professores quanto profissionais de saúde. Não por acaso, Sam lembra outros personagens da ficção que se encaixam no espectro autista, como Sheldon Cooper e Newt Scamander¹.

Problema que seria facilmente resolvido incluindo mais personagens autistas! Quando o programa infantil Vila Sésamo decidiu acrescentar uma criança com autismo, eles criaram a Julia. Em Atypical, uma das mães que frequenta o mesmo grupo de apoio que Elsa comenta sobre a filha. Por que ela não podia ser incluída na história? Por que Sam não pode ter um colega negro (ou indiano) também autista? Tais perguntas se tornam mais urgentes quando a gente vê que Sam não tem um amigo, uma pessoa próxima, que esteja “no espectro” como ele.

Se tem uma coisa que as minorias políticas concordam é a importância a comunidade, de espaços seguros onde a gente possa trocar experiências e apoio com pessoas que enfrentam as mesmas questões. Elsa tem o grupo para mães de crianças com autismo, por que Sam não pode ter algo parecido? Seria uma tema interessante e encorajaria outros garotos e garotas a buscar esse tipo de apoio. O único personagem autista além dele é Christopher, interpretado por Anthony Jacques, que aparece pouquíssimo, só em dois episódios. Anthony é um ator autista e inicialmente fez o teste para Sam, mas o papel foi para Keir Gilchrist (que não está no espectro). Só que Christopher não tem uma trama própria e faz pouca diferença na história. Ele e Sam não têm uma relação de apoio ou amizade. Sem contar que é mais um rapaz branco – cadê a diversidade? Vou continuar batendo nessa tecla: duvido que as minhas críticas seriam iguais se pessoas neurodivergentes estivessem envolvidas na produção desde no início, no roteiro, na criação do enredo.

Atypical também não faz muita coisa para desconstruir outros estereótipos, como o de que todos os autistas tem inteligência acima da média ou são nerds, nem explora suas diferentes manifestações (por exemplo, autismo semi-verbal e não-verbal). Por isso que representatividade atrás das câmeras é fundamental! Vamos fazer um exercício de comparação, pensando em outro produto da Netflix que tem uma veia cômica. Cara gente branca é uma série sobre pessoas negras feita por pessoas negras, o que faz toda diferença. Os personagens são complexos, cheios de nuance e a série não se furta a abordar questões interseccionais, como o colorismo, e a dificuldade de Lionel para se aceitar enquanto negro e gay.

Mas será que Atypical nunca acerta?

Em alguns momentos, sim. Um deles é quando Paige, namorada de Sam, descobre que ele não vai à uma festa da escola por não suportar ambientes barulhentos. Ela decide, então, organizar um “baile silencioso”, onde as pessoas escutam música através de fones de ouvido. Parece estranho, mas existe! Embora a iniciativa parta da Paige, e não do próprio Sam (reforçando a ideia de que autistas sempre precisam de alguém para advogar por eles), a forma como o baile é trabalhado na narrativa é muito legal.

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A “festa silenciosa”, um lindo baile de inverno

Um detalhe importante é que todo o estresse da organização veio de coisas banais que acontecem em qualquer festa de escola – Paige acha que os enfeites da decoração, feitos pelos alunos, não são suficientes – e não tem nada a ver com a acessibilidade. A série poderia ter ido por esse lado, criando problemas com os fones de ouvido e mais uma vez transformando Sam em uma fonte de transtorno. Isso perpetuaria o mito de que acessibilidade é algo difícil e  incômodo. Porém, o baile é um sucesso, com uma bela decoração, e os estudantes parecem estar se divertindo pra valer. Do mesmo jeito, é bonito quando Doug tenta se aproximar do filho e o leva até o aquário. Sam é fascinado por pinguins e tartarugas. Aqui o pai demonstra que se preocupa em conhecer os interesses do garoto, tentando alcançá-lo na sua própria linguagem, ao invés de forçar uma aproximação.

É essa sensibilidade que eu queira ter visto em outros momentos, mas a maneira como Atypical retrata o baile silencioso é uma exceção, não a regra. Antes de escrever o post eu li várias opiniões e, curiosamente, vi pessoas autistas criticando (grande decepção, tudo errado, por favor não assista) e familiares elogiando, o que apenas prova que a série foi feita tendo pensando mais nas famílias do que nas pessoas com autismo. Para encerrar, eu definitivamente não estou pedindo pra vocês não assistirem. Assistam, sim, mas com esses questionamentos em mente!


¹ Newt é representação positiva. Embora nada oficial tenha sido dito, o protagonista de Animais fantásticos e onde habitam tem características atribuídas ao espectro autista e seria ótimo ter um personagem tão querido como exemplo.

Eu sempre tento colocar como referência links em português, mas hoje tive dificuldade em encontrar. Por isso, alguns tiveram que ser textos gringos.


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7 comentários sobre “Atypical tem boas intenções, mas decepciona

  1. Pelo AMOR de Deus, olha a série de novo. Sério. E com o coração aberto. Aproveita e olha a segunda temporada junto, que lançou esse mês. Todos os aspectos citados como negativos fazem parte da trajetória de Sam e, caso não tenhas percebido, a cada episódio ele aumenta um pouco mais suas capacidades, deixando de ser dependente em alguns aspectos. A série é NARRADA pelo próprio Sam, ele é protagonista sim. Sinto muito se tu achas que os outros personagens não devem ter voz na série, mas isso não torna o Sam menos protagonista. Ao dizer que 1- a série conta como o Sam deixa a vida dos outros mais difícil, só estás afirmando que a presença de alguém autista realmente dificulta as coisas, o que não é verdade. Essa é a história de uma família que está aprendendo a lidar com um filho autista todos os dias. 2- quando Atypical demonstra como a família age com Sam justamente por querer protegê-lo das pessoas que, diferente deles, não possuem conhecimento nem empatia com pessoas no espectro. 3- a frase “A mãe, a irmã e a namorada “compram” as brigas dele, mas a gente quase não vê o próprio Sam fazer isso” só demonstra NOVAMENTE que Sam é dependente e que a família atua como se tivesse o dever de protegê-lo. Isso não quer dizer, no entanto, que ele não seja capaz e que tudo isso faça parte de um processo de desenvolvimento e amadurecimento do personagem. Assista a série de novo, porque tu simplesmente distorceu tudo o que acontece. E assiste a segunda temporada também, que mostra Sam convivendo com demais pessoas do espectro e ele se desenvolve muito mais como adulto do que na primeira temporada.

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  2. Ei, tudo bom?

    Vou levar a sua opinião em conta, e me proponho a assistir a segunda temporada para ver como a série está se desenvolvendo, sim! Fico feliz em saber que na segunda ele interage com outras pessoas autistas, é um sinal positivo e mostra que a Netflix ouviu as críticas do público.

    Eu não acho que a história devia dar voz apenas ao Sam, inclusive a irmã dele pode ser uma personagem muito interessante se abordada com carinho. Porém, como a série é sobre o Sam, eu adoraria que os sentimentos dele tivessem o mesmo destaque que os da mãe. A cena em que os dois vão comprar roupas e a Elsa faz um escândalo enquanto o Sam está tendo uma experiência agradável, tranquila e perfeitamente banal na loja resume todos os meus problemas com a personagem da mãe! Nesse momento (como em outros) ela está tão preocupada em “proteger” o Sam que não presta nenhuma atenção no que ele está sentindo. Toda família tem que aprender a conviver, mas o Sam é um rapaz de 18 anos, né? Embora algumas coisas nessa fase com certeza vão ser novidade (como a descoberta da sexualidade, o início da vida sexual), os pais já aprenderam que precisam respeitar os sentimentos dos filhos, a autonomia deles, que precisam escutar e entender o que as crianças realmente precisam ao invés de atropelar os sentimentos dos filhos.

    Como eu disse no post, a série acerta em alguns momentos, mas para mim ela ainda tem muito o que melhorar. E a maior indicação disso são os depoimentos de pessoas autistas reclamando da série, que eu linkei no texto pra vocês, né? Eu já disse mas vou repetir, acho que o fato de várias pessoas autistas reclamarem de Atypical, enquanto vários familiares aplaudem, diz muito sobre quais personagens a história tem retratado melhor. Espero mesmo que a segunda temporada repense isso, mas vou dar uma nova chance a série, sim 😉

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  3. Pingback: "Atypical" constrói uma narrativa de empatia em um seriado que merece ser visto - Prosa Livre

  4. Mãe de autista discordando: O autismo é o protagonista. O autismo afeta uma família toda mas não é o “culpado”, como sugere, dos enfrentamentos do grupo. É restaurador e ressignifica papeis, projetos de vida.

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    • Oi, Fernanda!

      Eu não quis dizer que o autismo (ou a pessoa que é autista) causa esses problemas, pelo contrário! Minha crítica é direcionada apenas à série Atypical 😉

      Do jeito que a série desenvolve o enredo, parece que o fato do Sam ser autista é que gera todos os problemas, todos os dramas que os personagens enfrentam. Para mim, aí é que está o erro da produção.

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  5. A crítica parece vir de um lugar romanceada do que é o autismo e também problematiza o que não faz tanto sentido. Na segunda temporada temos diversos personagens autistas, os mais variados. A série retrata como é um autista de alto funcionamento e é bastante importante mostrar como isso também afeta a família. Aliás, é uma séria questão pensarmos no bem-estar dos familiares. Sam é tratado como protagonista e isso não quer dizer ignorar o restante dos personagens e dar a eles um lugar bem menor. Muitas vezes as mães se sentem como demonstrado na série, muitas vezes os irmãos se sentem afetados, por vezes os pais assumem um papel secundário no tratamento e a dinâmica familiar muda completamente. Achei a série cuidadosa em todos os aspectos e respeitosa, dando espaço a todos da família e seus conflitos. Não vi culpabilização do autismo e sim conflitos diários de uma família que se adaptou a isso, como várias famílias de neurotípicos também tem que se adaptar às suas realidades e têm conflitos diversos dentro do seu ambiente.

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