Brooklyn 99 prova que a diversidade pode ser hilária

Olha que eu nem sou fã de comédia, mas se tem uma série que eu recomendo para todo mundo é Brooklyn 99. Com episódios curtos, B99 é leve e super divertida, sem precisar usar um humor babaca pra fazer graça. As primeiras temporadas estão disponíveis na Netflix e aqui você pode assistir todos os episódios, dublados ou legendados.

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Andy Samberg como Jake Peralta (Fonte)

Quando a diversidade é apenas um mito

O legal é que Brooklyn 99 tem um elenco diverso pra valer, enquanto boa parte dos produtos de entretenimento usa diversidade como um acessório. Por exemplo, filmes de super-heróis que incluem uma mulher no time (Liga da JustiçaGuardiões da GaláxiaVingadores, Watchmen) e séries que fazem questão de por um (mas só um!) personagem não-branco, como se assim pudessem provar que não são racistas. E, em geral, ele é reduzido aos estereótipos grosseiros de sempre (Raj em The big bang theory, Zahid em Atypical). Um problema parecido acontece quando programas tentam parecer diversos ao colocar minorias em papéis secundários, mas nunca em lugar de destaque. Assim, o lugar do protagonista continua pertencendo a pessoas brancas e quase sempre dentro-do-padrão. Atores e atrizes que não se encaixam nesse padrão às vezes não são nem cogitados para o papel do herói ou da heroína, ou como interesse romântico.

Essa tendência começou na década de 90. Friends, que era tão moderna, hoje parece ultrapassada. Se você olhar direitinho, vai perceber que tem atores negros na série: a garçonete, os clientes no café, talvez até uma pessoa negra na festa! Isso cria a ilusão de um ambiente diversificado – afinal, Friends acontece em Nova York. Porém, em dez temporadas a série nunca abordou questões raciais e teve só uma personagem negra relevante (Charlie, professora e paleontóloga que namora Joey e Ross). Isso fica mais óbvio quando a gente olha os relacionamentos amorosos da turma. Além de Charlie, mais uma garota negra aparece como interesse romântico; Julie, que também namorou Ross, é chinesa; e Julio, latino, saiu com Monica. Todos os outros pretendentes do grupo são brancos. Interessante, não?

Ainda sobre Friends, a série recebeu um prêmio GLAAD por fazer de Carol e Susan um casal comum e, depois, uma família feliz. Na época, o episódio com o casamento delas foi considerado corajoso e proibido em alguns países. Hoje a gente vê que o papel das duas é ínfimo, além de usado como pretexto pro desenvolvimento de Ross e fonte de piadas desagradáveis. O mesmo pode ser dito sobre o “pai” de Chandler (na verdade, uma mulher trans), cuja presença foi tratada com deboche e pouquíssimo respeito. Há uma fachada de diversidade, mas, por trás dela, muito preconceito. Claro, não dá pra esquecer que Friends começou a ser exibida em 1994. Se fosse agora, a recepção do  público com certeza seria diferente.

Que bom que o cenário está mudando! Séries mais antigas que ainda passam na TV já exibem elencos mais diversos, como Law & Order: SVU (Lei & Ordem: Unidade especial). No início, o drama policial tinha sempre um detetive negro (Michelle Hurd, em seguida Ice-T). Já na 18º temporada, entre os cinco personagens centrais dois são latinos e um negro (Ice-T, Danny Pino e Raúl Esparza). Isso é reflexo do quanto a sociedade mudou nessas duas últimas décadas, mas não significa que seja o bastante. A ausência de representatividade nas telas não deixou de ser problema. Vários filmes e séries têm uma diversidade legal em certos aspectos e pecam em outros. A popular Orange is the new black conta com um elenco majoritariamente feminino, atrizes de diferentes etnias e romance entre mulheres, mas ninguém se atreve a usar a palavra bissexual (nem Lorna ou Piper, que sentem atração tanto por homens quanto mulheres). Drop dead diva traz uma protagonista gorda e uma mensagem legal de aceitação do próprio corpo, só que o elenco inteiro é – pra variar – branco demais, hétero demais. Não vou citar nomes, mas existe uma legião de fantasias medievais com espaço pra dragões e não para pessoas negras (mentira, vou citar nomes sim: O Senhor dos Anéis e Game of Thrones).

Brooklyn 99 não transforma minoria em piada

Brooklyn 99 faz o oposto, por isso eu gosto tanto da série. A equipe do Capitão Holt tem dois policiais negros, duas detetives latinas e Jake, embora branco, é judeu. Cada um tem o seu próprio enredo e relevância na história, fica claro que ninguém está ali apenas para “preencher uma cota” de diversidade. Um deles, inclusive, é abertamente gay e a narrativa em nenhum momento o diminui por isso. O que não significa que B99 não faz graça com o assunto: esse é um dos grandes trunfos da série.

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Andre Braugher como Capitão Holt (Fox)

Existe uma grande diferença entre rir de alguém, e rir com alguém. Brooklyn 99 aborda temas como racismo e homofobia de forma cômica, sem transformar ninguém em alvo de deboche por sua sexualidade ou etnia. Longe de mim querer restringir a liberdade de expressão, mas quando o alvo das “brincadeiras” são sempre grupos já marginalizados pela sociedade a gente precisa repensar o conceito de humor, né? Não sei vocês, mas eu não acho a menor graça em piadas enraizadas no preconceito. Já em B99, diversas cenas usam pessoas homofóbicas, racistas e machistas como alívio cômico, ou fazem comentários sérios sobre o “mundo real” de forma bem humorada. Como quando o capitão Holt precisa tirar a equipe de uma situação constrangedora e diz ter recebido a notícia de uma bomba. Depois ele esclarece que tudo não passou de alarme falso: era só um aluno não-branco construindo um relógio.

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O departamento no Dia das Bruxas (Fox)

A série é hilária! Sempre que eu ouço “o pessoal do direitos humanos não tem senso de humor” ou “feminista não sabe rir”, eu me lembro de Brooklyn 99. Ninguém precisa ser escroto para fazer a gente rir.

Eu queria enumerar tudo que eu amo sobre B99, mas vou evitar spoilers porque vocês vão assistir (prometo que todo mundo que obriguei a ver adorou). Mais alguns detalhes: apesar de se passar na delegacia, não é uma série policial. É sobre um grupo de pessoas que trabalham juntas e se tornam uma família (e, entre uma confusão e outra, resolvem crimes). A série é leve e divertida, mas nem por isso deixa de tocar em assuntos difíceis, como a homofobia na polícia ou o racismo, no episódio que Terry (Terry Crews) é preso apenas por ser negro. Além de mostrar relacionamentos saudáveis entre casais gays e hétero, personagens incríveis e um cachorro super fofo (Cheddar!) – o que mais você quer em numa série de comédia?

Vale muito a pena assistir Brooklyn 99, especialmente pra quem não mais tem saco pro humor babaca e cheio de preconceitos que a gente tanto vê por aí. Fica a dica!


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