Liga da Justiça, quadrinhos de super-heróis e machismo

Pra alguém que adora quadrinhos, eu quase não assisto filmes de super-herói. Algumas adaptações me decepcionaram (olha o que Vingadores faz com o Gavião) e eu perdi o interesse, mas isso está mudando com lançamentos recentes. Amei Mulher Maravilha, Pantera Negra parece incrível, mal posso esperar o segundo Deadpool. E agora Liga da Justiça que, pra mim, foi um filme bacana.

Dessa vez a DC escolheu um vilão simples, que aparece só como pretexto para unir os heróis. Liga da Justiça é mais sobre a equipe do que sobre essa nova ameaça, então o enredo foca nos mocinhos. Isso evita que algum deles fique “sobrando”, o que é um dos problemas dos filmes da Marvel, especialmente Guerra Civil. Sim, eu sei que Guerra Civil tem mais personagens, mas por que colocar uma dúzia de super-heróis na tela se você não consegue retratar direito metade deles? Liga da Justiça apresenta Cyborg, Flash e Aquaman e traz um pouco sobre cada um dos três, incluindo suas motivações pessoais, abrindo caminho para produções solo. O legal é que todos têm relevância, não é tipo “Batman e seus amigos”. Pelo contrário, se alguém fica de lado é o próprio Bruce, que orquestra esse nascimento da Liga mas dá espaço para os outros membros agirem.  O Superman (Henry Cavillfaz um retorno triunfal, enquanto a Mulher Maravilha (Gal Gadot) assume a liderança no campo de batalha e fora dele.

Como fã das HQs eu curti o clima de quadrinhos, as referências aqui e ali. A formação original da Liga – lá da década de 60 – está quase completa, e embora o Lanterna Verde ainda não tenha dado as caras, a gente sabe que ele vai aparecer. Mas isso não significa que Liga da Justiça não tenha problemas… Incluindo a roupa das amazonas.

Machismo no universo dos super-heróis

O universo dos quadrinhos ainda é muito machista, como outros setores considerados redutos geek. O machismo e a misoginia são recorrentes em histórias de super-heróis, persistindo nas adaptações pro cinema. Um dos problemas mais óbvios é a escassez de personagens femininas: o time de poderosos conta sempre com uma única mulher (ou duas, três já é demais). As editoras se defendem alegando que “garotas não curtem quadrinhos”, o que é uma falácia e contribui pra desestimular mulheres que são fãs do gênero. Daí a importância de filmes como Mulher MaravilhaMad Max: Fury Road e o inédito Pantera Negra, que traz um elenco feminino de peso.

Felizmente essa visão ultrapassada está ficando pra trás, e mulheres ganham cada vez mais destaque tanto nas HQs quanto no cinema. Lois Lane (Amy Adams) tem um papel importante aqui e Mera, a futura rainha de Atlântida (Amber Heard), também aparece em Liga da Justiça. Entretanto, ambas continuam sendo personagens secundárias,  que existem pra preencher o lugar de interesse romântico do protagonista. Um ponto legal sobre a Mulher Maravilha é que ela foge desse padrão. Apesar de ser a única mulher da Liga, Diana não se torna alvo dos sentimentos amorosos dos colegas, nem motivo de disputa, como costuma acontecer. Tirando um comentário de Alfred sobre Bruce estar interessado na herdeira de Temiscira, a atmosfera entre ela e a equipe é de respeito e camaradagem. Isso é importante porque as mulheres não existem para ser objeto do desejo masculino, e não devem ser tratadas como tal, mesmo na ficção.

A DC está se esforçando para incluir mais diversidade nas produções – um exemplo é o elenco de Esquadrão Suicida, ou a escolha do Cyborg pra Liga da Justiça. Interpretado por Ray Fisher (ator negro, como na HQ), Victor Stone não fez parte da primeira versão da Liga nas HQs. Além disso, Gal Gadot é israelense e judia, Jason Momoa nativo havaiano (polinésio) e Ezra Miller é abertamente queer (Ezra se identifica como não-binário e não sente necessidade de definir sua sexualidade).

Mulher Maravilha X Liga da Justiça

Apesar de tudo, Liga da Justiça tem sim cenas machistas. O uniforme de Diana é o mais “pelado” do grupo (herança das HQs) e durante uma luta, o Flash cai em cima dos seios dela – será que era pra ser engraçado? Essa “piada” só não é mais desagradável pela interpretação dos próprios atores: o Flash fica mais desconfortável do que Diana, e não se aproveita nem se diverte com o “acidente”. Ainda bem, né?

Não por acaso, o filme da Mulher Maravilha foi dirigido por Patty Jenkins, enquanto a Liga conta com diretores homens. Esse olhar masculino (conhecido por “male gaze”) faz diferença na forma como personagens femininas são retratas na tela. Basta reparar nas armaduras que as amazonas vestem em ambos os filmes.

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Amazonas em Mulher Maravilha (Fonte) e em Liga da Justiça (Fonte)

A troca de figurino causou revolta entre os fãs, que reclamam das novas vestimentas deixarem partes vitais do corpo das guerreiras desprotegidas. É uma crítica comum em jogos, onde as armaduras das personagens femininas costumam ser muito sexualizadas e nem um pouco úteis. E não para por aí, não. O penteado solto e esvoaçante pode ser mais “sexy”, mas as tranças firmes e os fios presos com certeza funcionam melhor em uma batalha. Afinal, as amazonas são guerreiras!

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Brooke Ence em Liga da Justiça e em Mulher Maravilha (Fonte)

Em Mulher Maravilha as amazonas até são mostradas com trajes mais reveladores, mas como roupa de treino, confortável. Durante a luta, elas usam armaduras adequadas pra guerra. A figurinista Amanda Weaver fez uma excelente análise no Twitter, que depois virou post no We So Nerdy, analisando as inspirações para as guerreiras de Temiscira e comparando com peças históricas, usadas por guerreiros reais. Como esse fragmento de uma armadura romana, feita por grossas tiras de couro sobrepostas:

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Museu de Arqueologia, Universidade de Michigan

E aqui a armadura da General Antíope (Robin Wright), em Mulher Maravilha, que segue o mesmo padrão:

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General Antíope (Warner)

A diferença é que o figurino da batalha em Mulher Maravilha foi baseado em armaduras de verdade, feito pra parecer coerente ao invés de sexy. O post da Amanda é bem legal e eu recomendo dar uma olhada (apesar de estar em inglês, tem várias imagens e dá para entender o que ela mostra). Outro detalhe interessante é essa placa no peitoral, que se estende até as laterais e protege órgãos internos como o coração.

amazonas

Em destaque, Anne Wolfe em Mulher Maravilha

Comparando com as roupas vestimentas pelas amazonas em Liga da Justiça, dá pra ver qual delas apela para sexualização, para satisfazer o olhar masculino. Outra coisa que a gente percebe no filme da Liga é a atitude mais invasiva da câmera. Não acho que eles tenham diminuído a saia da Diana, mas a posição em que algumas cenas são filmadas mostram “por baixo” da roupa dela, o que não acontece em Mulher Maravilha (poxa, tem uma hora que ela desce do jato e a gente vê a bunda da Gal). É o tipo de cena que acontece quando os homens por trás das câmeras (diretores, roteiristas e produtores) não conseguem deixar de enxergar as mulheres como objeto. A título de curiosidade, um exemplo que tem o posicionamento de câmera ainda melhor que Mulher Maravilha é Mad Max: Fury Road (e talvez eu faça um post só sobre isso em breve).

Se tem uma coisa que eu admito é que em Liga da Justiça os heróis masculinos também apelam pra sexualidade. E como! O Superman está sem camisa metade do tempo (povo dizendo que o bigode dele foi removido por tecnologia digital e ficou estranho, quando eu nem reparei porque não estava olhando pra cara dele), para não falar do Aquaman, de novo, sem camisa. Não que isso resolva o problema da sexualização das mulheres nas HQs. Existe um padrão duplo na nossa sociedade, objetificação masculina não é a mesma coisa que objetificação feminina, e a falta de protagonismo das mulheres em filmes de super-herói continua sendo uma falha grave. Mas, pelo menos, essa é uma inversão interessante do clichê machista.

 


Uau, esse foi um textão! Resumindo: a DC está incluindo mais diversidade nos filmes, mas precisa fazer melhor se quiser agradar um público que não se restringe a “caras brancos e héteros”. E eu espero que faça mesmo, porque eu adoro os personagens da editora! Então por hoje é só, pessoal.


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