Sem queerbaiting: Rosa Diaz de Brooklyn 99 é BI!

No episódio dessa semana, Rosa Diaz de Brooklyn 99 se assumiu bissexual. Assim, com todos as letras! E eu queria aproveitar o momento para trazer algumas discussões aqui pro blog, como a questão do queerbaiting e o apagamento da bissexualidade.

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“Eu sou bi.” (Fonte)

Antes de tudo, aviso logo que o texto de hoje tem spoilers. Eu já escrevi sobre Brooklyn 99 e diversidade, então se você não viu a série talvez seja melhor ler primeiro o outro post. Mas se você já conhece B99 ou não liga para spoilers, vamos lá.

O que é queerbaiting?

Queerbaiting é um termo gringo formado pela junção das palavras queer (usado para se referir, de forma abrangente, às pessoas LGBT) e baiting, que pode ser traduzido como “lançar a isca”. É o que acontece quando uma série ou filme dá indícios de que algum personagem seja LGBT só para depois revelar que não é nada disso, em geral fazendo questão de reforçar a heterossexualidade do personagem. Ou seja, é um artifício usado para atrair espectadores LGBT sem acrescentar, de fato, nenhuma diversidade. E o pior é que a gente anda tão desesperado por qualquer representação que isso funciona.

Um exemplo clássico é o Dean de Supernatural, mas a TV está cheia de casos parecidos. O Séries por elas publicou um artigo excelente sobre o tema, que explica porque essa é uma estratégia tão cruel. Como o post já está grandinho, recomendo que vocês leiam o texto delas pra entender melhor o problema com o queerbaiting.

Rosa_DiazO fato é que Brooklyn 99 faz o oposto disso! No primeiro episódio, o capitão Holt (Andre Braugher) conta que é gay, incluindo um personagem queer no elenco central. Apesar de ser uma comédia, a série retrata a sexualidade dele com respeito e não deixa de mostrar os problemas que ele encara por ser um policial negro e gay, ao mesmo tempo que mostra seu relacionamento com o marido, Kevin, com naturalidade. Já a bissexualidade da detetive Diaz, interpretada por Stephanie Beatriz (que é bi também) veio atender um apelo direto do público. Os fãs pediram inúmeras vezes nas redes sociais (em especial o Twitter) que Rosa fosse declarada bissexual, com o apoio da atriz. A ideia ganhou ainda mais força depois que Stephanie se assumiu publicamente bi ano passado, aos 36 anos. E é bom demais ver que ao invés de enganar os espectadores prometendo uma representatividade que nunca chega, B99 ouviu o apelo dos fãs e respondeu da melhor maneira possível!

Como a própria Stephanie disse nessa entrevista: “Eu estava muito empolgada. Ainda não tinha visto essa representação na TV que eu assisto. Sei que existe, mas muitas vezes é escrito de um jeito específico. ‘Vamos introduzir um personagem gay e matar ele rapidinho’. Obviamente não é o que vai acontecer nesse caso, porque a Rosa é um membro fundamental do grupo. [Ela] é parte da família”. Para Stephanie, também era importante que o assunto fosse abordado como algo natural, ou seja, sem fazer um grande drama em torno dessa “saída do armário”. Além de tudo, ao colocar uma atriz bissexual interpretando uma mulher bi, a série permite que ela traga sua bagagem, sua própria experiência pra trama, o que dá toda uma sensibilidade única à personagem da detetive Diaz.

Apagamento da bissexualidade

Todas as “letras” da comunidade LGBT são pouco (e mal) representadas na ficção, mas gays e lésbicas têm mais visibilidade que bissexuais (assim como pessoas trans, só que isso é um assunto para outro post). Não é uma disputa para ver quem sofre mais, porém, a bissexualidade parece quase não existir nas telinhas. Ao invés de ser mostrada como uma identidade válida, muitas vezes ela é considerada “uma fase” (Ramona em Scott Pilgrim), exibida de forma fetichizada ou nem sequer levada em conta, como a Piper em Orange is the new black. Piper é um caso engraçado: embora seja óbvio que ela é bi, essa palavra nunca aparece na série! Nem mesmo quando ela é repetidamente questionada se gosta de homens ou mulheres, como se não pudesse sentir atração pelos dois.

Por isso é tão marcante quando B99 apresenta uma personagem que não só é bi, mas fala sobre a sua identidade de maneira explícita. Dan Goor, um dos criadores da série, chegou a declarar: “nós queríamos que Rosa dissesse a palavra ‘bi’ em voz alta, porque é como ela se identifica e nós sentimos que era importante ser claro sobre isso. Ainda mais que existe tão pouca representação de personagens bi na TV.” Como eu falei essa semana, Crazy ex-girlfriend fez algo parecido ao colocar um protagonista cantando uma música sobre ser bissexual. Literalmente. E foi incrível! Parece simples, mas essas pequenos atitudes contribuem para que pessoas bi sejam respeitadas, além de ajudar quem está questionando a própria sexualidade a se entender e se aceitar.

Enquanto a bissexualidade continuar sendo apagada até dentro da comunidade LGBT eu vou continuar batendo nessa tecla. Representatividade importa, sim! Como se não bastasse a ficção, a sociedade também faz questão de ignorar a bissexualidade na “vida real”. Tem um monte de gente famosa que é bi e a mídia insiste em rotular como gay ou hétero, incluindo Frida Kahlo e David Bowie, Marlon Brando, Megan Fox, Billie Joe do Green Day, Alanis Morissette, Drew Barrymoe, a brasileira Alessandra Maestrini… E, caramba, Channing Tatum não podia ser mais claro sobre gostar de homens e mulheres, e os jornais continuam lançando matérias sensacionalistas perguntando se ele é gay ou hétero. Será que é tão difícil entender que essas não são as únicas opções?

Isso também é coisa para outro post, mas ninguém tem que “escolher” entre ser gay ou hétero. Você pode ser bi, pan, ace… Ok, eu preciso mesmo abordar o assunto em outro texto, então por enquanto vamos voltar para Brooklyn 99.

Diaz, Boyle e o mito da friendzone

Outro ponto legal na história da Rosa é a relação dela com o Charles. No começo, Boyle era apaixonado pela colega de profissão. Nós vimos ele tentar convidá-la para sair mais de uma vez, até Diaz aceitar ir ao cinema com ele. Acontece que a Rosa não consegue ver o Charles da mesma forma, com um interesse amoroso.

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Os detetives Rosa Diaz e Charles Boyle em Brooklyn 99 (Fonte)

Pronto, é aquela situação batida em séries de comédia: uma garota “inatingível” não dá muita bola pro cara, que faz de tudo para ganhar o amor dela. Ele não mede esforços na conquista: planeja encontros românticos, compra presentes e demonstra o seu afeto através de gestos grandiosos. Um dia a moça se dá conta de como ele é um cara legal e, finalmente, retribui os sentimentos dele. Parece familiar, não é? Muitos casais da ficção são construídos em cima dessa premissa, como Rachel e Ross de FRIENDS, Ted e Robin de How I met your mother, Penny e Leonard de Big Bang Theory. Nesses três exemplos, várias atitudes “românticas” na história não passam do cara sendo insistente, forçando a barra, por mais que isso deixe a garota desconfortável.

O problema é que esse tipo de narrativa reforça o mito da “friendzone”, aquela ideia de que só porque um homem é legal com ela, a mulher de alguma forma deve se relacionar com ele. Ser colocado na zona da amizade é uma espécie de punição, enquanto a relação (sexual ou amorosa) seria uma recompensa pelo bom comportamento. Quando a gente analisa a lógica por trás dessa ideia dá para ver que ela não faz o menor sentido! A Vice tem um texto bacana explicando porque friendzone é um conceito absurdo (e machista), eu recomendo a leitura também.

De novo, B99 subverte o clichê. Quando fica claro que Rosa não tem nenhum interesse romântico nele, Charles segue em frente e os dois se tornam grandes amigos. Apesar da insistência no começo, a série não volta atrás (como Big Bang Theory fez com Penny e Leonard, ou How I met your mother no final). Contraindo aquele outro clichê ridículo de que não existe amizade sincera entre homem e mulher, as cenas mais doces que eles têm juntos é como amigos. Charles é a pessoa que melhor conhece Rosa no esquadrão (lembram quando ele armou uma festa surpresa para ela? E acertou em cheio?). Boyle dá conselhos para a detetive se entender com o então namorado Marcus, sem o menor vestígio de ciúme ou nostalgia da época em que ele gostava da colega. Pelo contrário, Charles se mostra genuinamente feliz por ela – como qualquer amigo faria.

A relação de amizade entre os dois é sincera, mútua e saudável. E, no último episódio, quando vimos Rosa se assumir bissexual, é para Charles que ela conta. Tem como não amar essa série?

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Nada melhor para encerrar o post do que essa arte linda que eu vi no Tumblr!

Lembrando que as primeiras temporadas estão na Netflix e aqui dá pra assistir assistir todos os episódios online, dublado ou legendado. Tem no Popcorn também!

Em tempo: Rosa se assume pro Charles no episódio “99”, mas no episódio seguinte ela  decide contar para a equipe e também pros pais. Todo o pessoal do 99 apoia a detetive Diaz incondicionalmente, e o episódio é muito legal. Vale MUITO a pena assistir.


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Crazy Ex-Girlfriend é feminista e aborda saúde mental

Quando eu recomendo Crazy ex-girlfriend, a resposta costuma ser “ah, mas eu detesto essas histórias em que a garota persegue o ex-namorado e faz de tudo para voltar com ele”. Na boa? Eu também. Sorte a nossa que a série definitivamente não é sobre isso. Pelo contrário! Apesar do nome (que em português significa ex-namorada louca) o que ela faz é justamente desconstruir esse estereótipo.

A série está disponível na Netflix dublada ou no áudio original com legendas, mas vocês também podem assistir online legendado aqui ou aqui (esse último tem mais episódios novos). Só não encontrei os episódios dublados! Se achar eu passo o link para vocês.

Crazy ex-girlfriend conta a história de Rebecca Bunch (Rachel Bloom), uma advogada que vive para o trabalho até largar a sua carreira bem sucedida em Nova York e mudar pra West Covina, na Califórnia. A razão da mudança é o ex-namorado de adolescência Josh Chan (Vincent Rodriguez III). Rebecca acredita que Josh é o amor da sua vida e a única chance de ser feliz, mas logo de cara a gente percebe que não é bem assim. Como a própria Rebecca diz, “a situação é muito mais complicada que isso“. Quanto mais ela se esforça para reconquistá-lo, mais parece óbvio que a advogada não está lidando com tudo isso de uma forma saudável. E é aí que a história fica interessante.

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Josh e Rebecca em West Covina

Um ponto importante é que o louca do título não é gratuitoRebecca atravessa crises de ansiedade, episódios depressivos e comportamentos auto-destrutivos. A obsessão por Josh Chan também é um sintoma, um indício de que os problemas vão além da vida amorosa. Embora seja uma comédia, Crazy ex-girlfriend trata saúde mental de forma sincera e respeitosa (ao contrário de Atypical e Fragmentado). Na terceira temporada, Rebecca recebe um diagnóstico. É tão raro a gente encontrar uma série ou filme com um personagem neurodivergente no papel central! Mais raro ainda que fale a respeito abertamente, ao invés de contribuir para estigmatizar doenças e transtornos mentais, reproduzindo preconceitos e noções equivocadas. Personagens que não se encaixam no padrão neurotípico em geral são confinados a clichês feito “vilão psicótico” (Coringa em Batman) ou alvo de piadas (Sheldon em Big Bang Theory).

Rebecca, como todo mundo, tem seus defeitos e às vezes erra feio. Só que a série ganha um viés feminista porque ela é uma protagonista complexa e humanizada, não a mera encarnação do estereótipo sexista de “ex-namorada doida”. A história é contada da sua perspectiva, então o público conhece o ponto de vista dela – o que não significa que ela esteja sempre com razão, mas permite que a gente a entenda e estabeleça uma relação de empatia. E, apesar de mostrar a namorada e a ex disputando o mesmo cara, a trama também desconstrói essa ideia. Por mais que Rebecca insista, o enredo deixa claro que a felicidade dela não está em Josh (ou qualquer homem), e sim no auto-conhecimento. Personagens femininas fortes e a solidariedade entre as mulheres é uma das maiores características da série.

Outros comentários são inseridos aqui e ali, de forma bem humorada. Quando Rebecca marca um encontro pelo Tinder, ela não para de dizer “vamos para a cama, estranho, e por favor não seja um assassino”. Já na música Ping pong girl, Josh canta “nada mais sexy do que uma garota que é boa em esporte! Ping pong mostra que ela tem controle sobre o próprio corpo, mas não ameaça a minha masculinidade como basquete”. É essa ironia que torna Crazy ex-girlfriend uma comédia tão inteligente e gostosa de assistir.

A exemplo da minha queridinha Brooklyn 99, Crazy ex-girlfriend encara diversidade de maneira natural. Josh é filipino, como Vincent Rodriguez, que o interpreta. O elenco principal conta com Gabrielle Ruiz (mexico-americana) no papel de Valencia, e a Vella Lovell, de ascendência negra. Rachel Bloom está longe de ser a protagonista magrinha que a gente sempre vê nas telas (principalmente quando tem um romance envolvido) e, embora o grande trunfo de Rebecca seja a sua inteligência, ela é mostrada como uma mulher bonita, desejada e que pode ser sensual se quiser, sem precisar se submeter a um modelo inatingível de beleza. Inclusive, a série tem uma postura muito positiva em relação à sexualidade.

Enquanto bissexualidade ainda é tabu e parece ser uma palavra “proibida” tanto na TV quanto no cinema, Crazy ex-girlfriend mostra um personagem que se descobre bi e diz isso com to-das as le-tras. E nos deu uma música que é um hino: Getting Bi. Não vou postar a cena para evitar spoilers, mas vocês deveriam assistir pelo menos a montagem que um fã fez da música com o Dean Winchester de Supernatural! O legal é que a letra desfaz uma por uma as concepções erradas que as pessoas tem sobre bissexualidade, e o personagem ainda ganhou a sua própria trama, com um interesse romântico. Aliás, eles são o melhor casal da história toda. De novo, sem spoilers, mas o desenvolvimento da relação dos dois é muito bacana.

To Josh, With Love

Rebecca em um número da terceira temporada

Ohh, sim, eu fico falando em músicas o tempo todo porque Crazy ex-girlfriend é uma comédia musical! Eu sei que nem todo mundo curte, mas eu garanto que as canções são hilárias e geniais, com inspirações que vão de Fred Astaire a Backstreet Boys. Combina perfeitamente com o clima descontraído da narrativa, que é sarcástico mas não chega a ser sombrio. Mesmo quando eles tratam de assuntos complicados, como preconceito, traumas e tentativas de suicídio. Além de tudo, é uma prova de que você não precisa ser ofensivo para fazer humor.

Resumindo: Crazy ex-girlfriend é divertidíssima, tem uma pegada feminista, músicas incríveis, personagens que desafiam os estereótipos e aborda problemas mentais com sensibilidade e sem perder o bom humor.  No meio de tantos programas que são mais do mesmo, essa série é um presente. Recomendo demais!


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