Porque você PRECISA assistir o documentário Unrest

Talvez você tenha já ouvido falar de Unrest, um documentário que estreou no Sundance Festival ano passado e agora está disponível na Netflix. O que despertou meu interesse foi ver tantas pessoas com a mesma doença da protagonista (e diretora) Jennifer Brea recomendando o filme, divulgando, pedindo que todo mundo assista.

Brea cursava seu doutorado em Harvard quando apresentou os primeiros sintomas da Encefalomielite Miálgica (ME), também chamada de Síndrome de Fadiga Crônica (CFS) – uma doença que causa fadiga extrema, além de dores agudas e inexplicáveis, fazendo com que 25% das pessoas afetadas não consigam sair de casa ou mesmo da cama. No início, ela foi erroneamente diagnosticada com Transtorno de conversão. Jennifer fala um pouco sobre a experiência no vídeo abaixo:

A Encefalomielite Miálgica ainda é pouquíssimo estudada, o que a torna um mistério para vários médicos. Diagnósticos incorretos, como o que Brea recebeu a princípio, são comuns – a maioria atribuindo causas psicológicas aos sintomas. Na ânsia de entender o que havia de errado com seu corpo, ela começou a gravar os momentos em que não conseguia andar. Assim, deu o pontapé inicial na produção de Unrest, um título que em português significa “inquietação”. E foi essa inquietação que a fez buscar respostas por conta própria.

Pela internet, Jennifer encontrou milhares de pessoas lidando com a mesma condição. Algumas delas aparecem no vídeo da TED, e dividem suas histórias no documentário. O resultado é um material extremamente autêntico e sensível sobre o que é viver com uma doença crônica que limita as atividades mais básicas do dia a dia, como tomar um banho ou sair de casa. Jennifer aborda o desespero de nunca conseguir um diagnóstico preciso, assim como a angústia de se ver, de repente, “presa” à cama, incapaz de fazer as coisas que ela fazia antes. Tanto no documentário quanto na palestra, Brea discute a importância da comunidade, esse grupo de pessoas que compartilham experiências semelhantes e com quem ela pode desabafar, trocar ideias, conselhos, apoio. Tenho certeza que os leitores que tem ME ou vivem uma situação parecida vão se identificar, mas o documentário também é importantíssimo para aqueles que – como eu – não tem nenhuma deficiência ou doença crônica.

É uma oportunidade de ouvir o que Jennifer e outras pessoas com condições similares (incluindo deficiências que reduzem a mobilidade e causam dores crônicas) têm a dizer. Não através de estudos ou profissionais especializados, mas através deles mesmos. E respeitar isso, a autonomia e o lugar de fala dessas pessoas, é fundamental.

JENNIFER BREA; OMAR WASOW; UNREST

Jennifer Brea e o marido, Omar (Fonte)

A diferença entre Unrest e produções como Fragmentado ou Atypical vai além do fato do primeiro ser um documentário, enquanto os outros são obras de ficção. Ficcionais ou não, tanto Atypical quanto Fragmentado exibem uma visão externa e estereotipada das condições que retratam (autismo e TDI), e falham justamente por não envolver pessoas que tenham essas mesmas condições na sua produção.

Unrest, por outro lado, é uma iniciativa que partiu de Jennifer, com a colaboração de outros pacientes com Encefalomielite Miálgica. Além de tudo, o documentário aborda questões pertinentes, incluindo o apoio da família, a descrença de terceiros – Síndrome de fatiga crônica? Ah, eu também estou cansado! – e a misoginia. Já que as mulheres são mais afetadas pela síndrome, muitas vezes os sintomas são ignorados pelos médicos, e descartados como “exagero” ou “coisa da sua cabeça”. Brea explica muito bem esse problema que, infelizmente, é uma constante na medicina, e um grave risco à saúde das mulheres no mundo inteiro.

Para quem quiser saber mais, deixo aqui o site da Jennifer e o do documentário. E, mais uma vez, recomendo: vocês tem que assistir! Corre lá na Netflix, aposto que dá tempo de ver ainda hoje.


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Raio Negro traz um herói negro e uma heroína lésbica

É muito bom ver que os super-heróis negros estão ganhando cada vez mais espaço nas telas. Além da série Luke CagePantera Negra, que estreia em fevereiro, tem o filme do Cyborg em 2020. E agora Jefferson Pierce, o Raio Negro da DC Comics, ganha a sua própria série de TV e se junta às grandes adaptações de quadrinhos.

Mais uma produção da Warner como Arrow, Flash e Supergirl, Raio Negro estreia hoje nos EUA e promete! Pra gente, vai sair na Netflix Brasil a partir do dia 23 de janeiro, com um episódio novo por semana. Assistam o trailer aqui.

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Cress Williams como Raio Negro (Warner)

Jefferson é um herói aposentado que trabalha como diretor de escola. Seus poderes incluem manipulação de eletricidade e geração de campos eletromagnéticos, além das habilidades de luta. Pelo que vimos no trailer, a narrativa não foca só nos problemas encarados por ele, mas nos desafios da família: todos protagonistas negros. E o mais legal é que a diversidade não para por aí, não. Anissa, filha mais velha do Raio Negro, é lésbica e conhecida por lutar lado a lado com a sua namorada.

anissa_raio_negroInterpretada por Nafessa Williams, Anissa Pierce adota o codinome Tormenta – em inglês, Thunder. Enquanto a sua irmã caçula Jennifer (China Anne McClaintem poderes semelhantes aos do pai, a habilidade de Anissa é alterar a densidade do seu corpo sem mudar o volume. Isso deixa sua pele tão dura quanto o aço e praticamente invulnerável, até contra armas de fofo. É isso aí, gente: nós temos uma heroína lésbica que não pode morrer! Yay! As séries parecem ter “mania” de exterminar suas personagens lésbicas, então é um alívio saber que o nome da Anissa não vai aparecer em uma dessas listas. Além de tudo, Tormenta é uma personagem muito interessante nas HQs e tem um enorme potencial a ser explorado na história. Quando as habilidades dela se revelam, seus pais fazem com que Anissa prometa que vai estudar e se formar antes de virar uma super-heroína. Mais tarde, ela participa de uma equipe conhecida como Renegados.

A namorada dela, Grace Choi, será vivida por Chantal Thuy. Grace, que também fez parte dos Renegados, é descendente de uma linhagem de amazonas. Seus poderes são força e resistência sobre-humanas, e um elevado poder de cura. Ou seja, nós vamos ter um casal de mulheres lutando juntas na TV e nenhuma das duas pode morrer. Não sei vocês, mas pra mim Raio Negro já está começando bem. E não podemos esquecer que Chantal é uma atriz canadense de descendência vietnamita, o que acrescenta ainda mais representatividade à história.

Porque super-heróis negros são importantes

Não importa se é DC ou Marvel, dá pra contar nos dedos os heróis negros que a gente vê nas telas. Quando aparacem, eles ocupam lugar de coadjuvante. Por isso Pantera Negra é tão extraordinário: tem mais atores negros do que todos os últimos filmes da Marvel E da DC Comics juntos. Estamos falando sobre uma parte gigante do público que não consegue se ver representada nas histórias de super-heróis, como se essas narrativas não fossem feitas para eles. Isso é cruel. Ainda mais quando a gente pensa no apelo que esse tipo de programa tem para crianças, adolescentes e jovens adultos, que ainda estão formando a própria identidade. É algo que precisa mudar.

Em Raio Negro, os personagens principais são Jefferson e suas duas filhas. As garotas também tem superpoderes, então as personagens femininas vão ganhar destaque – o que é ótimo, já que as mulheres (principalmente mulheres negras) também costumam ficar para escanteio em adaptações de HQs. Isso é crucial pra que todos os fãs se vejam nos seus heróis, e não apenas os fãs homens e brancos (e heterossexuais, né).

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Jefferson cumprimenta um dos seus alunos (Warner)

No trailer, Anissa diz que o pai acreditava ser capaz de que salvar mais crianças como diretor da escola do que como herói. Mais do que um vigilante de uniforme, Jefferson é um bom pai, e um bom homem. Ele acredita no valor da educação e está genuinamente tentando melhorar a sua comunidade. Mesmo assim, quando a situação nas ruas fica insustentável, o Raio Negro larga a “aposentaria”. Ele acredita na educação, mas sabe que é preciso ir à luta quando a resistência se faz necessária. Jefferson Pierce é um ótimo exemplo de representatividade: ao invés de ser coadjuvante ou um estereótipo, é um personagem bem desenvolvido, complexo, autêntico. Assim como Anissa, que decide lutar por justiça mesmo diante da relutância dos pais.

E embora questão raciais não sejam o ponto central, o simples fato de trazer para a tela heróis como o Raio Negro e Tormenta é revolucionário. Vale notar que a série foi criada por Salim Akil e Mara Brock Akil, também negros. Nas palavras do próprio Salim, isso faz diferença: “É incrível ver Mulher-Maravilha ser dirigido por uma mulher. Isso teve efeito na personagem, na narrativa e nas nuances do filme. É a mesma coisa que minha esposa Mara e eu estamos fazendo com Raio Negro“. Quando Luke Cage foi lançada,  eu vi uma entrevista que ficou na minha cabeça. Pensando no racismo da nossa sociedade, e nas reações cada vez mais fortes ao preconceito, um dos produtores da série disse que “o mundo está pronto para um homem negro à prova de balas“. Achei fantástico, e tão, tão pertinente! Heróis como Luke Cage, Pantera Negra, Raio Negro e Tormenta são mais necessários do que nunca.

Que tal a gente curtir a série juntos e demonstrar o nosso apoio? Dia 23 eu vou estar com a Netflix ligada assistindo a estreia de Raio Negro, e espero que vocês também! E me contem o que vocês acharam, viu?


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Fica a dica: Uma das novas adaptações da Marvel, Fugitivos (em inglês Runaways), também tem uma heroína lésbica! Karolina Dean (na imagem ao lado) tem superpoderes e gosta de mulheres tanto na HQ quanto na série de televisão, além de brilhar como um arco-íris – literalmente! Nos quadrinhos ela se interessa pela colega de equipe Nico Minoru e não é correspondida, só que pelo jeito na TV isso vai ser diferente. Eu ainda não vi, mas para quem adora esse clima divertido de aventura e curtiu outras séries como Supergirl e Gifted com certeza é uma excelente pedida. No Brasil, Fugitivos é exibido pela Sony. mas vocês também podem assistir online aqui.


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Tanto legenda quanto dublagem é questão de acessibilidade!

Se tem um assunto que divide os fãs de séries e filmes é aquele eterno dilema, dublado ou legendado? Pois eu digo que ambos são igualmente importantes, e a gente deveria ter sempre as duas opções. Sempre. E já que o foco do Estanteante é a diversidade, ao invés de fazer uma recomendação ou crítica, o post de hoje vai explicar porque tanto a legenda quanto a dublagem são ferramentas de acessibilidade.

É claro que pode ser só questão de preferência, e não tem nada de errado com isso. Eu tenho amigos que assistem filmes dublados para não perder nenhum detalhe enquanto leem as legendas, outros curtem escutar o áudio original. Até aí, tudo certo. O erro é quando a pessoa insiste que um dos dois jeitos é superior ao outro. Aposto que vocês conhecem alguém que enche a boca para falar “só assisto filme legendado”, como se isso o fizesse melhor, mais inteligente, mais fã do que quem vê dublado. Se você faz isso, vou dizer logo: você é um babaca. Tudo bem preferir os filmes legendados, eu também prefiro. Mas quando você fala sem parar que dublagem estraga a produção, ou quando você dá a entender que pessoas que assistem dublado são menos inteligentes, você é um grande babaca. E um babaca desinformado, que não sabe que a dublagem brasileira é de alta qualidade, e o mercado de dubladores continua crescendo no país inteiro.

Não estou dizendo isso para ofender ninguém, mas para fazer a gente repensar essa postura, que é elitista e preconceituosa. Além de não levar em conta as necessidades particulares de cada espectador. Tanto as legendas quanto o áudio na nossa língua são fundamentais para garantir que o conteúdo seja acessível a todo mundo, não apenas parte do público.

Filmes, séries e até programas de TV dublados beneficiam quem não entende a legenda com tanta facilidade. Isso inclui vários casos diferentes, desde alguém que não sabe ler até pessoas que leem, mas tem dificuldade em compreender as frases por causa de alguma condição (como dislexia), ou mesmo porque as legendas passam rápido demais na tela. Espectadores cegos podem assistir com o áudio dublado, e outros ainda têm algum problema que não impede de ver as cenas, mas torna difícil enxergar a legenda (como quem tem perda parcial de visão ou campo visual reduzido). Por outro lado, uma produção legendada é acessível a pessoas surdas ou com perda de audição, ou que por algum motivo precisam manter o áudio mais baixo – seja alguém que quer assistir sem incomodar outras pessoas, ou alguém que tem hipersensibilidade auditiva. Até pessoas idosas que já não escutam como antes podem se beneficiar das legendas.

E embora a dublagem e a legendagem sejam os processos mais conhecidos, o ideal é que a gente tivesse mais opções de acessibilidade para todos os programas, como a tradução simultânea em Libras (imagem abaixo) e audiodescrição para cegos. A própria legenda feita para surdos é diferente da que a gente está acostumado a ver, porque além de transcrever as falas dos personagens, ela fornece descrição de sons ambiente (como  o barulho de uma porta batendo, assobios, explosões). Elas devem, inclusive, ser disponibilizadas para filmes e outros programas nacionais.

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TV Câmara Campinas, que já ampliou a programação com janela em Libras (Fonte)

Como sociedade, a gente precisa se esforçar para produzir os conteúdos cada vez mais acessíveis. Inclusive no cinema e na televisão, mas principalmente na internet, onde é mais fácil divulgar conteúdo em diferentes formatos. O Youtube, por exemplo, permite adicionar legenda a vídeos, e essas mesmas legendas podem ser ocultadas pelo próprio usuário que preferir assistir sem elas.

Da minha parte, eu tenho feito o possível para procurar versões legendadas e dubladas dos filmes e séries que eu recomendo. É uma pena que nem sempre encontro. Costuma ser mais fácil achar filmes estrangeiros legendados porque as legendas são feitas por fãs, enquanto a dublagem depende de um estúdio profissional. Mesmo assim, sempre que eu encontrar eu vou disponibilizar as duas opções. Assim como estou preparando recomendações de filmes nacionais, de preferência com a opção de legendas. Afinal, a o direito à acessibilidade também faz parte da diversidade. Não adianta nada eu trazer para vocês um montão de filmes incríveis se eu não prezar por fazer todo esse conteúdo o mais acessível possível, não é?

E aos leitores, fica o pedido: nunca tenha vergonha de solicitar o filme dublado, nem de me mandar a versão dublada se eu não tiver colocado aqui! O mesmo vale para versões legendadas. Às vezes eu coloco só uma ou outra porque não tem as duas mesmo, mas também pode ser apenas porque eu não encontrei.


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