Vocês sabiam que o Lovecraft era extremamente racista?

Eu imagino que vocês conheçam o H. P. Lovecraft, ou pelo menos já ouviram falar dele. Lovecraft é considerado um dos maiores nomes do terror moderno – se não o maior – e revolucionou esse gênero literário lá no início do século passado. Quem curte terror ou suspense com certeza “esbarrou” nas criações dele por aí, seja diretamente ou através de filmes, séries e livros inspirados no chamado “horror lovecraftiano”. Ele ainda é uma fonte de inspiração para vários autores de renome, como Stephen King e Alan Moore. Só que ele era extremamente racista, antissemita e xenofóbico; algo que talvez vocês já saibam, também.

Isso nos traz um dilema. Por um lado, a obra literária do Lovecraft é fantástica, e criou a base para muita coisa legal que a gente vê no thriller contemporâneo, tanto no cinema quanto na literatura. Até o Guillermo Del Toro, que eu amo, bebe na fonte do Lovecraft. Por outro lado, o Lovecraft fazia apologia aos ideais nazistas, à “supremacia branca” e à segregação das “raças” que ele considerava inferiores, em particular as pessoas negras e os imigrantes. Fica aí um questionamento: é possível gostar das histórias e dos livros dele, mesmo que o autor seja um racista desprezível, um ser humano da pior espécie? Será que eu consigo ler, e curtir as suas histórias, sabendo de tudo isso?

lovecraft

H. P. Lovecraft, um dos principais nomes do terror moderno

O texto de hoje procura responder essas questões, além de discutir o racismo na vida e na obra do americano H. P. Lovecraft.

É possível gostar de Lovecraft, apesar do racismo?

Sem dúvida, é uma pergunta muito pessoal. Quando eu descobri o racismo do escritor, anos atrás – não é algo tão comentado entre os fãs quanto deveria – me questionei se poderia continuar gostando dos livros, apesar das suas convicções racistas. A resposta imediata foi um sonoro não. Simples assim.

O seu racismo não era algo que o Lovecraft escondia, ou mesmo uma posição que ele mantinha restrita à sua vida privada. Pelo contrário. Muitas das suas histórias contém cenas de preconceito velado, enquanto outras são abertamente racistas e xenofóbicas. A sombra de Innsmouth, por exemplo, é um conto publicado em 1936 e notório pelas suas referências racistas. Em O horror em Red Hook, o preconceituoso detetive Thomas Malone faz observações depreciativas sobre cidadãos negros e os imigrantes asiáticos. Isso é discurso de ódio disfarçado de literatura! No seu hediondo poema Sobre a criação dos negros, Lovecraft diz que as pessoas negras “foram criadas para tarefas menores, e estavam muito distantes da raça humana”. Ele ainda compara pessoas negras a bestas, animais inferiores ao homem branco. Não dá para gostar de alguém que seja capaz de escrever uma atrocidade dessas. Não dá nem pra conviver com alguém que pense desse jeito, não é mesmo?

Sonia Greenedesigner de sucesso que foi casada com o autor (e o sustentou durante o relacionamento), abriu o jogo sobre o racismo e a xenofobia do ex-marido. “Sempre que andávamos em meio à multidão e nos deparávamos com pessoas das mais diferentes etnias, uma característica comum de Nova York, ele [Lovecraft] ficava lívido de raiva e quase perdia a cabeça”, disse Sonia que, ironicamente, era uma mulher judia. Em cartas pessoais, o escritor declarava a sua simpatia por Hitler, pregava a supremacia da “raça ariana”, fazia apologia ao linchamento de pessoas negras e manifestava ávida repulsa à miscigenação. Tudo isso está documentado. No conto Medusa’s coil, Lovecraft lamenta o fim da escravidão, além de incluir estereótipos racistas na narrativa.

Eu faço questão de citar todos esses exemplos aqui para vocês entenderem como são graves as demonstrações de racismo do Lovecraft, tanto no cotidiano quanto ao longo da sua obra. Esses são apenas algumas ocorrências (vai por mim, tem bem mais). Quem conhece a fundo a literatura dele sabe do que eu estou falando. Alguns dos seus fãs até argumentam que ele apenas refletia a mentalidade da época, mas isso não é verdade – e, acima de tudo, isso não é desculpa.

Racista “demais” mesmo para a sua época

Eu preciso que vocês entendam de qual época nós estamos falando. Lovecraft nasceu em 1890 e faleceu em 1937 e, portanto, viveu realmente a sua vida inteira durante o período mais racista da história dos EUA (o que, convenhamos, é muita coisa).

Apesar da escravidão já ter sido abolida, essa época é considerada pelos historiadores como o ponto mais crítico para as relações raciais (e sociais) no país. Com as Leis de Jim Crow instauradas a partir de 1876, a política de segregação racial estava a pleno vapor. Quatro mil pessoas negras foram linchadas entre 1877 e 1950. Esse período constituiu uma verdadeira era de terror nos Estados Unidos, pontuada por ocorrências terríveis como o Massacre de Rosewood – quando uma mulher branca acusou falsamente um homem negro de estupro, levando as pessoas brancas a perseguirem e torturarem os moradores negros da cidade. Para não falar dos episódios diários de violência, abuso e humilhação. Foi uma era de barbárie e crueldade.

o nascimento de uma nação 2016

O nascimento de uma nação foi relançado em 2016. Dessa vez, porém, a trama é contada através da perspetiva dos personagens negros (Fonte)

Além disso, em 1915 aconteceu a estreia de um dos filmes mais repulsivos do cinema, O nascimento de uma nação. Não por acaso, o segundo grupo da Klu Klux Klan surgiu no mesmo ano. O nascimento de uma nação não é apenas um filme polêmico, como alguns críticos gostam de dizer. É racista, e de um racismo que já era considerado desprezível por muitas pessoas naquela época. Da mesma forma que o Lovecraft era extremamente racista mesmo para o seu tempo.

Não vamos esquecer que, além de fazer apologia aos linchamentos, ele lamentava o fim da escravidão. Ele falava na escravidão como “os bons e velhos tempos”. O cara foi podre e reacionário demais na época mais podre e reacionária da história dos EUA! Como disse o escritor Jason Sanford, o racismo do Lovecraft não era apenas algo exagerado mesmo para os padrões da era deplorável em que ele viveu, mas quando os tempos mudaram, o Lovecraft se recusou a mudar com eles.

A gente pode muito bem trazer essa discussão pros dias de hoje, né? Algumas pessoas acreditam que se até o presidente de uma nação faz declarações racistas, por exemplo, talvez isso seja normal. Talvez não seja racismo, apenas a sua “opinião”. Tenho certeza que vocês já ouviram esse argumento por aí, mas a maioria das pessoas – a maioria das pessoas decentes – sabe que é racismo. Não é porque essas opiniões existem hoje, que elas sejam consideradas normais ou inofensivas, e nem que sejam amplamente aceitas pela sociedade. Mesmo que as demonstrações de preconceito racial aconteçam todos os dias, e agora até pareçam normatizadas, a gente sabe que é errado. Da mesma forma que a gente repudia o racismo atual, no tempo do Lovecraft haviam muitas pessoas que desprezam sua mentalidade. Havia até gente que era de um racismo mais moderado e, mesmo essas pessoas, não concordavam com os ideais que ele pregava. E, claro, haviam muitas pessoas negras que se revoltavam contra esse preconceito e lutavam pelos seus direitos, vários anos antes do escritor nascer. O Movimento dos Diretos Civis nos EUA teve início na década de 50 – Lovecraft ainda estaria vivíssimo, se não tivesse sofrido uma morte prematura.

Ele não era apenas um produto do seu tempo, mas alguém que escolheu ficar do lado mais perverso da história. Como hoje em dia algumas pessoas ainda escolhem.

movimento dos direitos civis

Movimento dos Direitos Civis trouxe mudanças aos Estados Unidos (Fonte)

Para encerrar, ele jamais renunciou às suas ideias racistas. Lovecraft nunca rejeitou a filosofia nazista ou a supremacia branca, não expressou remorso por nenhum dos seus trabalhos – nem mesmo os mais ofensivos, como o poema Sobre a criação dos negros – e não voltou atrás em sua apologia à violência. Se muito, apenas diminuiu (ou aprendeu a camuflar) o tom racista e xenofóbico da sua obra, provavelmente graças ao incômodo que isso causava nas outras pessoas e no próprio mercado editorial.

Separar o autor da obra, ou abolir o Lovecraft?

Bem, se você curte horror lovecraftiano como eu, e não conhecia esse lado do autor (ou sabia por alto que ele era racista), eu imagino que você esteja se sentindo terrível. Uma reação muito natural é pensar “eu nunca mais vou ler nada desse cara”. É uma resposta válida. Só que com o Lovecraft isso se torna mais complicado, porque ele deu origem a todo um subgênero do terror, e a sua influência é tão clara em tantos autores, tantos filmes contemporâneos! Como abrir mão disso?

Muito do Stephen King, por exemplo, é largamente inspirado pelo imaginário do H. P. Lovecraft. O livro Aniquilação (que virou filme e está disponível na Netflix) também é, assim como a badalada série Stranger Things, só pra citar alguns títulos. Uma das minhas escritoras favoritas, a Anne Rice, faz referência a ele em suas obras – foi A história do ladrão de corpos que despertou a minha curiosidade, e me fez ir atrás do outro escritor americano. Citado no livro do ladrão de corpos, A coisa na soleira da porta foi o primeiro conto dele que eu li. Vocês sabem que eu escrevo, e também me inspiro em algumas das suas criações. Eu adoro esse tipo de terror, adoro um bom suspense psicológico, e me apaixonei pelo mundo do Lovecraft muito antes de saber que ele era racista.

Se por um lado não consigo abrir mão de todo esse meu repertório, toda essa bagagem cultural, eu também não me sinto confortável admirando um nazista como Lovecraft. Tem gente que fala que é preciso separar a obra do criador, mas sinceramente, eu não acredito que isso seja a solução ideal. Ao menos não nesse caso. Não dá pra ignorar o racismo dele.

E eu quebrei a cabeça com esse dilema por muito tempo, até que me deparei com uma frase na internet… Agora eu não consigo mais encontrar, mas ela dizia algo como “fico feliz quando vejo uma adaptação do Lovecraft com protagonistas negros, espero que o fantasma dele esteja espumando de ódio”. Não eram exatamente essas as palavras, mas esse era o sentimento geral da publicação. E sabe de uma coisa? Eu amei. Isso sim é uma solução perfeita pro meu problema com o Lovecraft! Não tem maneira mais apropriada e deliciosa de esfregar a diversidade na (falecida) cara dele, do que encher suas próprias histórias com personagens negros, asiáticos, árabes, judeus e latinos, e imigrantes em geral. Nós temos bons exemplos aí, e são essas as narrativas de horror lovecraftiano que eu decidi apoiar. Como A balada do Black Tom, que reinventa o universo do Lovecraft pelo olhar de um homem negro. Ou o filme Aniquilação, que tem as maravilhosas Tessa Thompson e Gina Rodriguez no elenco.

aniquilação

Tessa Thompson e Gina Rodriguez em Aniquilação (Fonte)

Ou seja: a gente pode curtir o imaginário do Lovecraft, e até os contos dele, desde que tenhamos consciência do seu racismo. Estabelecer uma posição crítica nesse ponto é algo fundamental. Melhor ainda: sempre que possível, inserir diversidade nas tramas dele. Tanto como consumidores, quanto como os criadores de conteúdo. Se você joga um RPG baseado no universo do Lovecraft, coloque personagens negros, latinos, árabes, asiáticos, judeus. Se você escreve histórias inspiradas nele, escreva protagonistas assim. Assista, leia e valorize as adaptações lovecraftianas repletas de diversidade!

Vamos fazer o que restou do cadáver dele se revirar de desgosto na tumba, galera.


E se você gosta de ler, confira as dicas sobre livros ou sobre poesia do Estanteante!

4 comentários sobre “Vocês sabiam que o Lovecraft era extremamente racista?

  1. Olha… eu comecei ha ficar interresado nas obras dele e tava pesquisando sobre suas criaturas e dai acabei caino aqui de paraquedas e ficando chocado, bem eu já estava perdendo o interesse nas historias de lovercraft por conta do seu preconceito mas da mesma que esse texto me mostrou algo terrível tb me mostrou algo bom “diversificar as coisas” possivelmente vou ler os livros dele agora com ha mensagem que ha pessoa incrível desse artigo passou. (Me interessei pelas criaturas e os livros pq ate os 15 anos de idade eu desenhava criaturas muito parecidas)

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  2. É isso e nada mais importa que a tua opinião!!

    Meu Deus, eu entrei numa vibe nos últimos tempos de ler muita coisa de terror e estive pensando em começar a ler as obras de Lovecraft.
    Todavia, como já havia ouvido comentários de que ele era racista, fiquei com um pé atrás e decidi pesquisar sobre o assunto, veja só, teu blog apareceu como segunda opção.
    Como eu te conheço e sei que tu escreve e opina muito bem sobre as coisas, obviamente abri e fiquei enojada com todos esses relatos de racismo na história do autor, ele realmente ultrapassa o limite do que eu chamaria de “culturalmente racista” que muitos outros autores têm e que a gente perdoa porque era uma característica mais ou menos aceitável na época da pessoa.
    Percebe-se que com esse cara não é assim que funciona, e eu fico muito feliz em ter lido o teu texto. Como nunca li nada dele (embora tenha lido autores que se inspiraram nele pra escrever terror), eu sinceramente estou numa posição muito mais cômoda, pois nem vou começar, não vou me dar o gosto de gostar das obras dele, vou me abster de ler seus livros e partir pra outra.
    Muito obrigada por esse texto ❤ de verdade, e parabéns pela construção, amo o fato de que tu deixa as referências bem fáceis pra quem quiser consultar, dá maior confiabilidade ao texto e ajuda a galera a se informar melhor.
    Volta pra Recife, neném, que eu já tô com saudade de ti ❤ kkkkk kissus :**

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