11 filmes FELIZES sobre amor entre mulheres

Um dos maiores problemas com filmes LGBT é que muitos deles – e em geral os que ganham destaque na mídia – são grandes tragédias, dessas que fazem a gente perder a fé na humanidade (*cof cof* Brokeback Mountain). Isso é muito nocivo, principalmente pra quem ainda está descobrindo a sexualidade. Por isso trouxe uma lista de filmes sobre amor entre mulheres que são todos leves, divertidos e com final feliz. Elas ficam juntas! Ninguém morre! É de assistir comendo pipoca doce e marshmallow, gente.

Tentei colocar filmes de gêneros variados e que nem todo mundo conhece. Nenhum deles está na Netflix – infelizmente! – mas inclui onde dá pra baixar cada um ou assistir online. Talvez depois eu faça uma lista com os melhores títulos da Netflix, que tal? Até lá, fique com esses onze filmes adoráveis que vão te deixar sorrindo bobamente no fim (porque, às vezes, isso é tudo o que a gente precisa).

1) Livrando a cara (Saving face)

Nessa comédia romântica leve e gostosa Michelle Krusiec é Wil Pang, médica jovem e brilhante, criada numa comunidade chinesa nos EUA. Tudo se complica quando a mãe vai morar com ela. Sem desconfiar que Wil é lésbica, a mãe insiste para ela encontrar um marido. A médica acaba se apaixonando pela bailarina Vivian (Lynn Chen). Eu me diverti muito vendo o filme, as duas são um amor, é impossível não torcer por elas! Aqui tem pra assistir online, legendado. Tenho certeza que vocês vão curtir demais.

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Lynn Chen e Michelle Krusiec (Fonte)

2) I can’t think straight (sem título em português)

Tala (Lisa Ray), indiana de ascendência palestina, está prestes a se casar – depois de já ter abandonado três noivos. Ela conhece Leyla (Sheetal Sheth), uma muçulmana tímida que deseja ser escritora, e as duas se tornam amigas. Quando elas se apaixonam, que Tala não sabe como contar à família (e ao noivo) que é lésbica. Tem no Youtube ou aqui com qualidade um pouco melhor. Uma história encantadora e com final feliz!

As duas atrizes estrelaram outro romance da mesma diretora, The World Unseen, que aborda as tensões raciais na África do Sul. Apesar de ser uma temática mais pesada e difícil de ver, também vale a pena assistir (download aqui).

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Lisa Ray e Sheetal Sheth em I can’t think straight  (Fonte)

3) Mistério na Torre Eiffel (Mystère à la Tour Eiffel)

O ano é 1889, data de inauguração da Torre Eiffel. Louise é uma jovem divorciada que agora vive com o pai, um dos arquitetos responsáveis pelo projeto da torre. Quando a equipe dele começa a sofrer ameaças e um colega é morto, Louise não vê outra saída a não ser desvendar esse mistério. Ela só não esperava se apaixonar por Henriette. Um suspense levinho e divertido, como a gente raramente vê em histórias de época. Eu já falei sobre ele aqui, onde tem links para download e legenda.

4) Nunca fui santa (But I’m a cheerleader)

Quando os pais da líder de torcida Megan desconfiam que ela é lésbica, despacham a menina pra um acampamento que promete “curar” homossexualidade. Nunca fui santa é quase o típico besteirol americano, caricato e cheio de duplo sentido, só que a piada da vez são os homofóbicos. Ideal pra gente rir sem ter que pensar muito. Com Natasha Lyonne (a Nicky de Orange Is The New Black) no papel principal e RuPaul fazendo o líder “machão” do acampamento. Sério! E dá pra baixar aqui com legenda.

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Natasha Lyonne e Clea DuVall (Fonte)

5) Prazer sem limites (The incredibly true adventure of two girls in love)

Wendy (Maggie Moore) e Randy Dean (Laurel Holloman, de The L World) não podiam ser mais diferentes. Enquanto Wendy é popular e vem de uma família rica, é uma aluna modelo e gosta de música clássica, Randy cochila durante as aulas, odeia matemática, não tem muitos amigos e adora rock. Nada disso impede que elas se apaixonem! Um filme adorável sobre descoberta da sexualidade e amor adolescente. Tem no Youtube, e aqui para ver online. Também é conhecido como 2 Garotas in love.

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Wendy e Randy Dean, fofas demais! (Fonte)

6) Amigas de colégio (Show me love)

Outro filme adolescente, mas esse toca em assuntos mais complicados (como bullying e automutilação). Decidi colocar na lista mesmo assim porque é justamente o contrário do que a gente costuma ver no cinema mainstream. Os temas são tratados de maneira sutil, sem explorar a dor do personagem queer apenas para chocar o público. Show me love começa difícil, mas à medida que a história progride o fica cada vez mais leve, e o final é todo sorrisos. Foi de onde eu tirei a imagem do post, lá em cima. Download junto com um comentário legal sobre o filme, e para ver online, ambos legendados.

7) Melhor que chocolate (Better than chocolate)

A mãe de Meggie (Karyn Dwyer) se divorcia e vai morar com ela, alheia ao fato de que a filha gosta de garotas e está saindo com Kim (Christina Cox). O casal é uma graça, mas a melhor coisa do filme é a Judy Squires! Mulher trans e lésbica, é impossível não se encantar por ela. Judy é doce, mas implacável diante do preconceito, e desenvolve uma bela amizade com a mãe de Meggie enquanto tenta conquistar Frances, a tímida dona da livraria. Numa cena memorável, Judy canta I’m not a fucking drag queen – em bom português, eu não sou uma drag queen, p****. Vale muito a pena! Download com legenda disponível aqui, e para ver online aqui

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Peter Outerbridge como Judy Squires (Fonte)

8) Casamento de verdade (Jenny’s wedding)

Jenny (Katherine Heiglnunca saiu do armário pra família, apesar de namorar Kitty há cinco anos. Agora ela quer se casar de verdade, com tudo o que direito: vestido branco, festa, buquê. Resta saber se os pais vão aceitar o casamento! Para falar a verdade não tem romance nesse filme, o foco é a relação da Jenny com a família. Um drama água-com-açúcar levinho, com final feliz. A trilha sonora é uma delícia. Você pode baixar pelo Torrent (vá em Download Magnet Link, lá embaixo) ou assistir online dublado.

9) D.E.B.S. As super espiãs (D.E.B.S.)

Filme teen sobre garotas adolescentes que trabalham para o serviço secreto, no maior estilão Três Espiãs Demais – e quem não amava esse desenho? Em D.E.B.S. as meninas investigam a repentina conexão entre uma chefe do crime e uma assassina de aluguel russa, quando na realidade as vilãs estão num encontro. Do tipo romântico mesmo, não pra destruir o mundo. As coisas se complicam quando uma das mocinhas se apaixona pela vilãAssista dublado, ou baixe o filme aqui.

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D.E.B.S. em ação! (Fonte)

10) Índia, amor e outras delícias (Nina’s heavenly delights)

Nina (Shelley Conné indiana e vem de uma família bastante tradicional, por isso saiu de casa após encerrar um noivado com Sanji. Quando o pai dela morre, Nina volta pra Escócia, para assistir ao enterro, e descobre que o restaurante da família será vendido. Decidida a impedir que isso aconteça, assume a cozinha com a ajuda de Lisa (Laura Fraser), por quem acaba se apaixonado. O filme é superfofo, eu fiquei com fome só de ver a Nina cozinhando (muito sério). Tem no Youtube legendado!

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Nina e Lisa na competição de culinária (Fonte)

11) Cloudburst – Tempestade na estrada (Cloudburst)

Eu prometi que ninguém morria nessa lista, então preciso avisar logo: no finalzinho de Cloudburst uma das personagens morre, sim. Até hesitei em colocar aqui, mas onde a gente vê um filme sobre duas lésbicas de oitenta anos, vivendo juntas e felizes, tão apaixonadas que elas fogem pra casar? Isso é lindo, precisamos de mais histórias assim no cinema! E entra na lista porque a morte, aqui, não é um evento traumático, como acontece em tantos filmes LGBT, mas a conclusão de uma vida que ela passou ao lado da mulher que ela amava, feliz até os últimos momentos – especialmente durante seus últimos momentos. Baixe com legenda.

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Brenda Fricker e Olympia Dukakis em Cloudburst (Fonte)


Muitos desses títulos estão longe de ser obras de arte, mas eu queria filmes levinhos, gostosos de assistir. É o tipo de história que a gente precisa mostrar pra garotas que se interessam por garotas, porque elas têm que se enxergar em romances também, em comédias românticas, em filmes de ação, aventura e finais felizes (além dos dramas que Hollywood insiste em produzir). Espero que tenha conseguido deixar o dia de alguém um pouquinho mais colorido hoje!

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Porque filmes como Fragmentado são um problema

Em Fragmentado James McAvoy interpreta Kevin, um homem com 23 personalidades que sequestra três garotas. Mais uma vez o cinema usa um distúrbio psicológico para instigar o medo, de forma totalmente irresponsável e equivocada.

Kevin Wendell, personagem a que se refere o título, apresenta Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), caracterizado pela manifestação de diferentes alters. No popular, o que a gente chama de “múltipla personalidade”. Não é lá um tema muito original. Pelo contrário, em filmes de terror esse transtorno é usado à exaustão para criar uma reviravolta no enredo. E, como na maioria dos filmes em que o personagem tem TDI, Kevin acaba se tornando um assassino. Um monstro.

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McAvoy em cena de Fragmentado

Transtorno Dissociativo de Identidade na mídia

Na ficção, o transtorno é sempre associado à existência de uma personalidade maligna. Como em Identidade, não raro o personagem se revela um assassino serial. Em Janela Secreta (baseado no conto de Stephen King), o escritor Mort Rainey é perseguido por um homem estranho e violento. Até a gente descobrir que o homem é o próprio Mort, e ele matar a ex-esposa. A Nona Sessão e Identidade Paranormal apelam ao sobrenatural para explicar o distúrbio. O primeiro acontece num antigo hospital psiquiátrico, onde residiu Mary, uma paciente com o mesmo transtorno. Só que entre seus alters existe uma entidade maligna que – adivinha? – sai matando todo mundo. No outro, o rapaz com TDI é na verdade um reverendo que mata e absorve a alma das vítimas. Isso para não falar sobre Alternate, episódio de Law & Order: SVU em que uma mulher finge ter várias personalidades e usa a doença como “álibi” para assassinar os pais.

Dá para entender o quanto essas obras são prejudiciais, não é? Elas propagam ideias distorcidas sobre pessoas com TDI, encorajando o estigma contra distúrbios mentais já tão enraizado no público. Isso é cruel. Ainda mais quando a gente sabe que pacientes psiquiátricos são um dos grupos mais vulneráveis na sociedade, sujeitos a maus tratos, negligência e todo tipo de abuso. Filmes que retratam tais pacientes como perigosos e assassinos em potencial criam uma imagem errada sobe doenças mentais, alimentando a cultura de maus tratos contra essas pessoas. Ser diagnosticado com transtorno de identidade não faz de ninguém um monstro, por mais que o cinema teime em usar isso como pretexto para criar histórias grotescas.

As filmagens de A Nona Sessão foram, inclusive, feitas em um lugar real: o na época já abandonado Danvers State Hospital – “hospital para lunáticos de Danvers” – famoso por submeter internos a tratamentos cruéis e condições sub-humanas. Apesar disso, o filme faz apenas breves referências ao passado do lugar, e desperdiça a oportunidade de abordar o tema pela ótica dos residentes (como American Horror Story em Asylum, que nem por isso perdeu o clima de suspense). Justificar o Transtorno Dissociativo de Identidade através de um ser sobrenatural é como dizer que distúrbios mentais são fruto de manifestações do mal, possessão, maldições. Além de disseminar preconceito e má informação, esse tipo de mentalidade previne que pessoas reais afetadas por transtornos psiquiátricos tenham acesso ao tratamento adequado.

Fragmentado é especialmente problemático

De todos os títulos que eu citei aqui, Fragmentado é, de longe, o mais problemático. Em primeiro lugar porque é bem feito. Não só do ponto de vista técnico – a direção de arte é incrível – mas a gente vê que também houve muita pesquisa. A terminologia usada é atual, as descrições sobre TDI são feitas com propriedade (como a metáfora da luz pra explicar quando um alter está no controle) e, claro, James McAvoy em uma atuação impecável. Parece uma interpretação correta da doença, ao contrário de Identidade Paranormal Janela Secreta, que a gente entende logo de cara como fantasia.

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Kevin em consulta com a Dra. Fletcher (Universal)

Como se não bastasse, o personagem central de Fragmentado está em tratamento, com resultados positivos. Kevin tem acompanhamento regular com a psiquiatra, Dra. Karen Fletcher. Em uma das consultas, descobrimos que ele conseguiu um emprego onde é o funcionário ideal, e leva uma vida independente. Sua decisão de raptar as três garotas – trama principal do filme – em nada combina com a pessoa que o público conhece até então: alguém que aprendeu a conviver de forma saudável com o seu transtorno. Kevin Wendell poderia ser um personagem fascinante, mas Fragmentado peca ao fazer dele uma aberração, promovendo a ideia de que pessoas com TDI são perigosas e incapazes de existir em sociedade mesmo com tratamento adequado.

Na história, três entre as personalidades de Kevin organizam o sequestro instigadas por um alter que ainda vai se revelar, “a Besta”. Descrita como uma figura grotesca e temida pelos demais alteregos, essa vigésima quarta personalidade possui atributos físicos surreais (superforça, habilidade de escalar as paredes) e um apetite por carne humana. As garotas serão oferecidas como sacrifício. Com a chegada da Besta, Kevin se transforma em algo monstruoso, anormal, não-humano. É aí que o filme erra, e erra feio. Pessoas com distúrbios psicológicos já desumanizadas com tanta frequência em nossa sociedade. Nós não precisamos, nem deveríamos, reproduzir esse estereótipo no cinema. Fragmentado perpetua o conceito equivocado de “personalidade maligna”, sempre associada a instintos sanguinários e incontroláveis. Na vida real, o Transtorno Dissociativo de Identidade não é bem o bicho de sete (ou, nesse caso, vinte e quatro) cabeças que a mídia faz parecer.

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Patricia, uma das personalidades de Kevin

James McAvoy faz um bom trabalho ao interpretar os diferentes alters, em especial as personalidades femininas, Patricia e Jade. Porém, de forma alguma isso é o bastante para redimir o filme. Eu gostaria de ver o talento dele, junto com a pesquisa sem dúvida envolvida na produção, em uma história que não tratasse doenças mentais de forma tão preconceituosa e tão irresponsável. Gostaria de ver Kevin Wendell ser retratado no cinema como um ser humano, não um monstro.


Janela Secreta e A Nona Sessão estiveram entre meus filmes preferidos por anos. Adoro terror psicológico, e durante muito tempo não percebia como esse tipo de história é nocivo, como demoniza transtornos psiquiátricos. Por isso mesmo acho tão importante falar a respeito. A título de curiosidade, recomendo alguns filmes sobre TDI baseados em histórias reais: Sybil, inspirado no livro de mesmo nome e refilmado em 2007, e Frankie & Alice com Halle Berry. Fica a dica!

Sim, Mulher Maravilha é incrível, MAS…

Eu adorei o filme. Parecia uma criança no cinema, com a atenção fixa na tela, os olhos brilhando e a tiara da Diana – brinde do Cinemark – na cabeça. No que diz respeito à qualidade do entretenimento, Mulher Maravilha esmaga outros filmes de herói. Além de genuinamente divertido, é uma ode ao poder feminino e inclui comentários sobre diversidade. Por isso mesmo, o tratamento dado aos personagens com deficiência me decepcionou muito. Vamos analisar parte por parte, então?

As Amazonas, girl power e diversidade

Ann-Wolfe-as-Artemis-in-Wonder-Woman (1)Sem dúvida o ponto alto de Mulher Maravilha. Quem não se apaixonou pelas Amazonas? Mérito da diretora Patty Jenkins, que escolheu lutadoras mesmo, atletas olímpicas e até fazendeiras para compor o exército de Temiscira. A boxeadora americana Ann Wolfe (na foto), considerada a melhor lutadora do mundo, está incrível no papel de Artemis. Curti demais as cenas de luta das mulheres e achei o máximo terem sido feitas à luz do dia. A gente sabe que batalhas cheias de efeitos especiais e lasers coloridos ficam mais legais à noite, mas para mim as cenas da praia, no início do filme, são muito mais épicas. Inclusive aquelas em que as guerreiras estão “apenas” treinando. Espero que o próximo traga as Amazonas de novo, e com maior destaque.

Gostei da inversão daquele clichê onde a personagem feminina, em geral interesse romântico do mocinho, morre só pra alavancar o crescimento do herói. É um artifício machista e já batido (pense na Gwen Stacy de Homem-Aranha, Mary de Supernatural, entre tantas outras). Em Mulher Maravilha, é Steve Trevor (Chris Pine) quem faz esse sacrifício para que Diana (Gal Gadot) consiga despertar seu poder verdadeiro. Além disso, sempre que ele manda a heroína ficar pra trás por ser “perigoso” ela ignora e vai pra ação, pronta para salvar o dia. Sozinha, se for necessário. Ah! Não vamos esquecer que o papel de se aproveitar do próprio charme e aparência para seduzir uma vilã cabe de novo a Steve, em mais uma subversão de um clichê machista.

O filme também não perde a oportunidade de inserir comentários sociais, usando os companheiros de Diana e Steve para isso. Charlie (Ewen Bremner), ex-soldado, sofre de Transtorno do estresse pós-traumático por causa da sua participação na guerra. Em um desabafo, o indiano Sameer (Saïd Taghmaoui) fala quDCNqNaGXoAEbS4ze queria ser ator, mas não tem a cor de pele certa. Já o índio kainai apelidado de Chefe, conta a ela que os ingleses dizimaram seu povo e os expulsaram de suas terras. Chefe é interpretado por Eugene Brave Rock (com Gal Gadot na foto ao lado) que também faz parte dos kainai, e em sua primeira cena ele se apresenta à Diana no dialeto do seu povo. O ator Brave Rock pode escolher as roupas e acessórios que o personagem usaria, garantindo a representação fiel e respeitosa da Nação Kainai. Sem que Mulher Maravilha perca o ar descontraído, a própria Diana Prince critica abertamente o sexismo, a indústria da guerra e outros problemas sociais cada vez que esses assunto vêm à tona. 

Doutora Veneno e o estereótipo “vilão deficiente”

Embora Mulher Maravilha acerte em vários momentos, o filme erra feio ao retratar personagens deficientes como vilões. É outro estereótipo nocivo e, infelizmente, muito comum tanto no cinema quanto nos quadrinhos. O maior exemplo (mas não único) aqui é a Doutora Maru, ou Doutora Veneno (Doctor Poison em inglês).

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Elena Anaya como Doutora Maru (Fonte)

O problema é que a deficiência vira um dos aspectos que fazem aquele personagem cruel e degenerado. Muitas vezes ele se torna o vilão em busca da cura (como o Dr. Connors, o Lagarto de Homem-Aranha) ou é rancoroso, movido pela vingança e quer punir as pessoas “normais”, feito o Capitão Gancho de Peter Pan. Além disso, vilões como Maru reforçam ideias preconceituosas que a sociedade tem – por exemplo, encarar a deficiência como uma punição para pessoas ruins. Algo que deveria ser uma simples característica física se torna sinônimo de problemas morais: falta de empatia, sadismo, inclinação pro mal. Esse artifício é usado à exaustão para caracterizar um personagem como repulsivo e o vilão como assustador, a ponto de dar origem a todo um sub-gênero do terror. Pense em Freddy Krueger, Jason e Leatherface, além de Erik no clássico O Fantasma da Ópera.

A raiz desse clichê, o “vilão deficiente”, é a crença eugenista de que as pessoas com deficiência têm predisposição para loucura, criminalidade e violência, entre outros comportamentos perigosos. Basicamente, representa todos os preconceitos que a sociedade tem contra essas pessoas, ao mesmo tempo que os alimenta. Isso não só promove a exclusão, como coloca essas pessoas em risco e serve como pretexto para justificar maus tratos. O que é mais prejudicial porque a gente não vê muitos heróis com deficiência na ficção – e, quando vê, eles costumam ser apagados.

Em Mulher Maravilha, a Dra. Veneno com sua face desfigurada representa o que há de pior na humanidade. Suas cicatrizes são resultado das experiências que a cientista realiza, deixando a mensagem subjetiva de que “ela mereceu”. De certa forma, a deficiência que a torna feia e digna de pena é culpa dela mesma. Mais uma variação do estereótipo “vilão deficiente” (nos quadrinhos, levada ao extremo com Herr Starr de Preacher) e, de novo, promove um conceito nocivo sobre um grupo de pessoas já marginalizado. Eu até consigo ver que o filme tentou subverter o clichê: a cena que Maru tira a máscara e revela o rosto desfigurado é justamente o momento em que Diana a reconhece como ser humano e resolve não matá-la. Legion faz algo semelhante com um vilão gay, mas não acho que Mulher Maravilha teve o mesmo sucesso. Principalmente porque no filme todos os vilões tem alguma deficiência (Ares em sua forma humana manca e usa bengala, Ludendorff tem um problema que afeta a capacidade física), ao passo que nenhum dos heróis é deficiente.

Em tempo: deformações faciais e cicatrizes como as da Dra. Veneno são consideradas deficiências quando prejudicam a vida pessoal e atrapalham a forma como alguém se relaciona em sociedade. Um exemplo é o Deadpool que, constantemente hostilizado pela aparência, desenvolve problemas graves de auto-imagem e fobia social.

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Por um lado, considero Maru uma vilã bem interessante. Ela foi retirada dos quadrinhos, com sua primeira aparição no começo da década de 40, e é uma ótima escolha para antagonista. Gostei muito da decisão em manter o ar “cartunesco” tanto no visual quanto na interpretação, o que combina com o clima divertido do filme e é uma bela homenagem aos clássicos. Em determinado momento a Dra. Veneno até usa um par de luvas igual na HQ. Só gostaria que eles não tivessem usado um clichê tão negativo para construir a personagem, promovendo uma representação tão mal informada e prejudicial sobre pessoas com deficiência.


Para escrever esse post, eu consultei o TV Tropes e o excelente artigo Doctor Poison and Disability in Wonder Woman. Recomendo a leitura!

Sobre os X-Men e super-heróis com deficiência

Já que eu recomendei Legion (série inspirada em um personagem da Marvel), resolvi falar sobre outros mutantes que ainda não ganharam as telas, mas eu estou torcendo pra eles aparecem logo nos filmes. Olha que depois de Logan, que eu acabei de ver, e Deadpool, minhas expectativas são altas!

Os X-Men sempre me despertaram um certo fascínio. Quando criança, eu achava que eles eram os super-heróis mais incríveis de todos os tempos. Com o passar dos anos, entendi que além disso é a metáfora perfeita para explicar como as minorias políticas são tratadas pela sociedade. A história se baseia no fato dos mutantes serem vistos como uma ameaça apenas por serem diferentes das pessoas ditas normais. Essa diferença é usada por pessoas como Dr. Trask (em Dias de um Futuro Esquecido) para instigar o ódio contra eles. Por causa disso, mutantes têm direitos básicos negados, são perseguidos pelo governo, expulsos de casa, atacados na rua. Claro, os X-Men lutam contra vilões malvados e inimigos mortais – como qualquer bom super-herói – mas também lutam pelo simples direito de existir nessa sociedade opressora. É uma mensagem muito poderosa.

Uma analogia que fica ainda mais interessante quando os mesmos personagens fazem parte de outros grupos marginalizados, como os heróis que eu quero apresentar para vocês hoje. Representatividade importa, sim!

Karma (Xi’an Coy Manh)

marvel_karmaXi’an Coy Manh (também conhecida como Shan) é uma garota vietnamita que chega aos EUA como refugiada, fugindo dos horrores da guerra junto com a família. Seus pais morrem no caminho e ela vira a responsável por um irmão e uma irmã mais novos. A convite do Professor Xavier, Shan se torna a primeira integrante e líder dos Novos Mutantes, adotando o codinome Karma. Seus poderes são psíquicos, incluindo controle mental, possessão e telepatia. Shan tem uma perna amputada após ser atingida em uma missão, e passa a usar uma prótese mecânica. Ela ainda é lésbica. Desde que Novos Mutantes foi previsto pra 2018, estou só esperando anunciarem quem vai interpretá-la no cinema. Vai ser uma decepção se ela não aparecer! Karma tem uma história fascinante e pode ser um gancho entre Legion e os filmes, já que além dos seus poderes se encaixarem na série, ela e David enfrentam um vilão em comum nas HQs.

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Karma em Astonishing X-Men, por Marjorie Liu (Marvel)

Uma coisa legal é que sua prótese não atira mísseis, não é mágica, nem parece ter saído da ficção científica. Na verdade, ela parece um membro artificial comum. Shan retira a prótese no dia a dia e tem um mini kit de ferramentas para ajudá-la com isso.


Silhouette Chord

Silhouette-New-Warriors-Marvel-ComicsEmbora Silhouette faça parte dos Novos Guerreiros, não dos X-Men, ela também é mutante. Não vou negar que me desapontou saber que a Marvel está produzindo uma nova série sobre o grupo e não pretende incluir a personagem mesmo que ela tenha integrado a equipe, além da sua relação com Dwayne Taylor. Silhouette combatia o crime junto com ele quando foi atingida por um policial. O tiro a deixou paraplégica e é por isso que ela as usa muletas para se movimentar. O interessante é que Silhouette tem o poder de se fundir às sombras, e pode se teletransportar através delas! Nas histórias de super-heróis muitas vezes os poderes são usados para apagar completamente a deficiência do personagem. Enquanto isso…

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Silhoutte usando seus poderes nos quadrinhos

Não é o que acontece no caso dela. Silhouette não encontra uma cura mágica (aham, estou falando de Barbara Gordon). Ela usa muletas e não a impede de ser uma heroína. Mesmo que tenha desenvolvido e adaptado suas habilidades de luta, a Marvel não optou pelo caminho preguiçoso de ignorar sua deficiência. Vale ressaltar que ela é uma mulher negra, o que só deixa a história mais significativa.

Vocês não acham que ela seria incrível nas telas? Esse efeito do teletransporte pode ser executado de forma tão legal. Sério, imagina as possibilidades!


Forge

Forge é um personagem que foi reimaginado várias vezes nas histórias da Marvel, inclusive nos desenhos animados. O que permanece consistente é sua descendência nativo-americana (índios cheyenne) e sua habilidade de construir tudo que ele imaginar. Tudo mesmo. Seu poder mutante é a engenharia intuitiva – ele entende naturalmente como qualquer tecnologia funciona, sendo capaz de inventar e recriar qualquer máquina ou aparelho eletrônico. Por que o Tony Stark nunca contratou esse homem eu até hoje não entendi, gente. Além de tudo isso, Forge é extremamente inteligente, foi treinado para ser o xamã (guia espiritual) da sua tribo e possui um vasto conhecimento sobre a magia nativo-americana. Forge perde uma mão e parte da perna durante um combate, quando passa a usar próteses mecânicas que ele mesmo constrói.

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Forge em diferentes momentos nos quadrinhos, sempre com a perna mecânica

Apesar de ser um ex-soldado e fazer parte dos X-Men, ele é mais um inventor do que um guerreiro. Como o próprio Forge já disse, o seu poder é a sua mente, não a força física. Por isso mesmo, em várias versões seus membros artificiais lembram próteses regulares, ao invés de fazerem dele um ciborgue (híbrido de homem e máquina) como a gente costuma ver em HQs ou filmes de ficção científica.


Vocês perceberam o que os três tem em comum, né? Escolhi personagens com alguma deficiência porque esse tema é recorrente nos quadrinhos, mas na maior parte do tempo é usado apenas como um pretexto para justificar os poderes do herói. Ou pior: um motivo para que o vilão seja malvado. Enquanto isso nós temos personagens feito a Karma, com poderes superlegais, história excelente e um enorme potencial  eu quero eles nos filmes! E quero que sejam feitos direito.

clint_hearingaidsAté hoje eu não perdoo o que os filmes da Marvel fizeram com um dos meus heróis preferidos: Clint Barton, o Gavião Arqueiro. A franquia ignora que ele é surdo, apesar desse ser um aspecto fundamental do personagem. Na HQ Clint usa aparelhos auditivos, faz leitura labial e usa linguagem de sinais pra se comunicar com outros personagens. Representatividade importa! Existem super-heróis com deficiência sim, e eles não podem ser apagados desse jeito.

 


Em tempo: a ideia do post surgiu por causa do The Discourse, um tumblr que debate muito deficiência e acessibilidade. Também usei a Marvel Database e esse post sobre a Karma como fontes.

Laerte-se: um convite pra gente conhecer Laerte Coutinho

Como o nome já sugere, o documentário Laerte-se é um trabalho intimista

O documentário estreou na Netflix essa semana e tem o clima de uma conversa entre amigos. A cartunista Laerte Coutinho recebe Eliane Brum em sua casa, onde as duas se sentam à vontade no sofá. Um contraste com a primeira cena do filme, que mostra Laerte receosa, querendo adiar a gravação. Dá para a gente entender – desnudar-se assim exige uma boa dose de coragem. A sensibilidade de Eliane, que assina a direção junto com Lygia Barbosa da Silva, faz toda a diferença.

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A cartunista em cena de Laerte-se (Netflix)

Não digo isso apenas por Laerte falar tão abertamente da sua transexualidade, ou por ela ter decidido tornar sua transição pública. Não, eu falo mesmo é da sinceridade com que a cartunista se apresenta no documentário. Como a Laerte abaixa a guarda e fala sem reservas sobre suas inseguranças, sobre assuntos que a incomodam, sobre a perda do filho Diogo e, claro, a construção da própria identidade. Minha admiração por ela só cresceu depois de assistir Laerte-se! É muito interessante a gente ver a pessoa por trás das tirinhas, como a trajetória influenciou suas obras e como a arte, por vezes, torna-se um objeto de auto-conhecimento.

Isso acontece porque o filme desvenda Laerte como artista e como mulher, mas acima de tudo como pessoa. É uma boa oportunidade pra gente conhecer melhor uma das cartunistas de maior importância no cenário nacional. Acho que aqui não cabe tanto uma crítica, justamente por ser tão íntimo, mas uma recomendação: assistam. Sério. ‘Tá na Netflix. Já que falei dela, vale lembrar que Laerte-se é o primeiro documentário brasileiro da empresa, que nos últimos anos investiu bastante no gênero.

E pra quem não conhece o trabalho dela (você conhece, só não tem o hábito de ler o nome dos artistas ali no canto), encerro o posto de hoje com algumas tiras da Laerte.

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E, por último, minha favorita…

Legion, um thriller psicológico da melhor qualidade

Legion é baseado em um personagem da Marvel, mas traz uma proposta original

Eu adoro os X-Men desde a primeira vez que vi aquele desenho na década de 90, mas já faz algum tempo que eu não acompanho os filmes com a mesma empolgação (uhum, desde que eles costuraram a boca do Deadpool em 2009). Nem assisti Logan ainda. Aí veio Legion e pronto: me ganhou de novo.

A série nos apresenta David Haller, que nas HQs adota o codinome Legião. David é considerado um dos mutantes mais poderosos do planeta e suas habilidades incluem telepatia e telecinese. No jargão Marvel, ele é um mutante nível ômega. Embora a essência tenha sido preservada, a série optou por não seguir completamente a história dos quadrinhos e tirando David (Dan Stevens), a maior parte dos personagens foi criada pra TV. O que funciona muito bem nessa produção da Fox.

Dan Stevens como David Haller em Legion

Dan Stevens, de A Bela e a Fera, interpreta Legião (Fonte)

Legion vem com a proposta de ser um thriller psicológico, ao contrário dos filmes de ação onde estamos acostumados a ver os X-Men. O interessante é que os poderes dos mutantes que a gente conhece na série são menos “eu posso atirar bolas de fogo dos meus olhos” e mais “eu consigo navegar pelas memórias das outras pessoas”. Não se preocupe: ainda tem cenas de luta, tem gente explodindo, só não é esse o foco da história. Não sei vocês, mas eu adoro um bom suspense psicológico. E estou curtindo demais o que Legion têm acrescentado ao gênero.

A narrativa segue o ponto de vista de David e por isso mesmo é fragmentada, confusa. Cada episódio deixa mais perguntas que respostas e embora a gente vá entendendo aos poucos, algumas dúvidas permanecem. A maioria das produções que adotam a mesma linha tem uma estética sombria, cenas com pouca iluminação (amo Hannibal da NBC, mas chega na última temporada você precisa de uma lanterna) enquanto Legion é… Colorido. Vibrante. Às vezes, os personagens dançam. E tudo isso só acrescenta ao clima intrigante da história.

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Katie Aselton e Dan Stevens (Fox)

Tem ainda os anacronismos propositais. A ambientação da série, assim como algumas escolhas de cabelo e vestuário, apontam para um período durante as décadas de 60 e 70. Os monitores de TV definitivamente são ultrapassados. Por outro lado, as armas e os veículos parecem contemporâneos! E aí? Será que isso acontece porque nós vemos as cenas da forma como David as vê, ou Legion se passa em um universo paralelo, similar ao nosso, onde a tecnologia evoluiu de maneira diferente? Ah, eu tenho tantas perguntas. Queria que a segunda temporada começasse hoje. Sério.

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Aubrey Plazza

Outro ponto forte é a atuação de Aubrey Plaza, que interpreta Lenny Busker, mais uma das pacientes no hospital psiquiátrico onde David foi internado. Sem spoilers, vou dizer apenas que eu acho maravilhoso a série permitir que uma atriz faça esse tipo de trabalho – o tipo de papel que em geral é reservado a atores, homens. Não vou entrar em detalhes aqui, mas juro que vocês vão entender quando assistirem. Aubrey surpreende o público com uma performance intensa, por vezes perturbadora. Ela está incrível no papel e eu sinceramente não consigo imaginar alguém melhor para dar vida à personagem!

Por último, um detalhe importante: a série tem um vilão que é gay e, aleluia!, não cai naquele veeeelho estereótipo. Se você não sabe por que isso seria um problema, que tal começar por esse artigo legal do Lado Bi? O fato é que a homossexualidade (ou bissexualidade) é usada com frequência em filmes, séries e desenhos animados para identificar um personagem como ameaçador, perverso ou anormal – ou seja, é mais uma das características que fazem dele o vilão. Já em Legion acontece justamente o contrário. A gente fica sabendo que o personagem é gay no primeiro episódio em que ele demonstra traços de humanidade (empatia, bondade, carinho, até medo). É bem interessante a forma como a série constrói isso e estabelece uma relação oposta entre as atitudes controversas do personagem e a sua forma de amar, sua sexualidade.

Ainda nessa linha, vale lembrar que boa parte da história – ao menos durante essa primeira temporada – se passa em uma instituição psiquiátrica, onde David já está internado há alguns anos. A série consegue abordar o tema com sutileza, sem recorrer ao clichê (tão comum no suspense e no terror) de demonizar a doença mental ou mesmo os pacientes psiquiátricos. É mais um entre os “detalhes” que não apenas tornam o enredo mais inteligente, como conferem originalidade à produção.

Legion tem uma proposta original e realmente traz algo novo pros shows de super-heróis. E para quem ficou curioso sobre a relação de David Haller com os X-Men, tudo indica que eles vão explorar isso na segunda temporada. Vale a pena acompanhar!

Por que você ainda não viu Dear White People?

Todo mundo devia assistir Cara gente branca

Principalmente se você é – como eu sou – a “gente branca” do título.

A produção da Netflix aborda o racismo numa universidade americana e tem uma mensagem fortíssima, além de ser genuinamente divertida. Eu gostei de cara, quando o narrador (na amigável voz de Giancarlo Esposito) diz no primeiro episódio “Blackface: parece que isso é algo que os brancos curtem. Procura no Google.” Mostra logo que a série não está aí pra te ensinar as coisas mais básicas (o Google é seu amigo, não custa nada pesquisar) mas pra levar discussão sobre racismo a fundo. Sem medo de abordar temas como colorismo, homofobia na comunidade negra e feminismo branco.

Sem spoilers porque vocês ainda vão assistir, mas…

Por exemplo, Cara Gente Branca tem um personagem que é negro e gay, e se sente deslocado tanto em um grupo quanto no outro. A gente acompanha a maneira como ele lida com suas dúvidas e inseguranças ao longo da temporada, enquanto tenta conciliar esses dois aspectos que fazem parte da sua identidade. De uma forma orgânica e bem humorada, a série aproveita o personagem como um gancho para levantar discussões sobre o estereótipo de masculinidade tão cobrado dos homens (em especial dos homens negros), a homofobia internalizada, as exigência de padrões de beleza e comportamento entre homens gays. Ele também desenvolve uma amizade genuína com um personagem heterossexual sem ficar batendo naquela tecla “uau, ele é tão incrível porque ele me ACEITA” (como se alguém merecesse uma salva de palmas só por, você sabe, agir como um ser humano decente).

Outra coisa que eu gostei demais foram as tiradas rápidas, feitas com humor mas cheias de verdade. Como quando o estudante estrangeiro Rashid é corrigido ao escorregar em uma expressão idiomática e responde na lata “eu falo cinco línguas, você mal fala uma. Não corrija o meu inglês”. Ou quando os funcionários da universidade, latinos e possivelmente imigrantes, lamentam não poder votar nas eleições. É claro que eles estão falando sobre a eleição de um represente do corpo estudantil, só que a mensagem não poderia ser mais óbvia, né?

Mesmo quando o episódio se concentra em um personagem branco, a narrativa mantém o foco no racismo e nas questões que importam. Destaque para o cartaz de diDear-White-People-Netflixvulgação ao lado, que diz justamente “aposto que você acha que essa série é sobre você”. Não, não é. E quem sente isso na pele é Gabe (John P. Amedori), o namorado branco da Sam – interpretada por Logan Browning, Samantha White é a estudante que apresenta o programa de rádio que dá nome a série, Dear White People, uma peça central na história. Quando a série apresenta o ponto de vista de Gabe, reforça o tempo todo ele precisa ter seus privilégios em mente, não silenciar pessoas negras quando elas falam sobre suas próprias experiências, aprender a ouvir mais do que falar. Do mesmo modo, as amigas da Coco (Antoinette Robertson) aparecem na primeira temporada apenas para ilustrar o que é o chamado feminismo branco. Elas se preocupam demais em ser bem sucedidas e empoderadas, mas volta e meia dizem barbaridades racistas sem nem se dar conta. É um problema bastante recorrente que precisa, e muito, ser discutido.

Para falar a verdade, minha única crítica é que o nome em português devia ter sido diferente, porque Cara gente branca não tem o mesmo tom ácido que o “dear white people da Sam. Poderia ter sido traduzido como “Brancos, meus amores” ou até “Brancos, queridinhos” – assim, bem irônico, mesmo!

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Jeremy TardyNia JervierAshley Blaine FeathersonJemar Michael e Marque Richardson na série Cara Gente Branca (Netflix)

Resumindo, o post de hoje é menos uma crítica e mais um carinhoso VÁ ASSISTIR À SÉRIE. Não tem desculpa, está na Netflix. E se você é uma pessoa branca e ela te deixar desconfortável em alguns (ou vários) momentos, parabéns, você está reconhecendo os seus próprios privilégios. Agora é hora de repensar e desconstruir.

Precisamos falar sobre Rocky Horror e transfobia

Apesar de questionar gênero e sexualidade, Rocky Horror Picture Show é transfóbico

…e me dói admitir isso, já que o musical sempre foi um dos meus favoritos.

Faz anos que eu ganhei do meu pai uma edição de 1001 filmes para ver antes de morrer e simplesmente devorei. Além dos clássicos, descobri vários filmes que se tornariam importantes para mim. Entre eles Felizes juntos Rocky Horror Picture Show. Eu me lembro de ver uma única foto junto com o resumo do livro e pensar que eu tinha que assistir aquilo! Era um musical de terror de rock, o que mais eu podia querer?

Isso foi bem antes de Rocky Horror ser mencionado em Glee e As vantagens de ser invisível. Eu não sabia o que esperar. Talvez uma mistura de Tim Burton com Bob Fosse, mas nada comparado a… bem, a Rocky Horror. Na hora que eu finalmente assisti, o filme me pareceu tão revolucionário, questionador, deslumbrante, sensual, cheio de glitter! Mesmo na tela do computador foi uma experiência e tanto. Eu me apaixonei pelo musical, li tudo o que podia a respeito, coloquei meus amigos pra assistir (por livre e espontânea pressão), aprendi a cantar as músicas. Quando fiquei sabendo que seria feito um remake, lá em 2015, essa empolgação voltou com tudo. Eu mal podia esperar para ler as notícias sobre a nova versão.

Foi aí que eu aprendi que Rocky Horror Picture Show é transfóbico. Admito que nunca tinha pensado a respeito até ver pessoas falando sobre isso na internet. Rocky Horror me surpreendeu tanto por questionar gênero e sexualidade de forma tão descarada, que eu não me dei conta de como ele denigre, satiriza e agride as mulheres transexuais. Vou citar uma moça que postou vários comentários sobre o assunto (em inglês), e resume bem o problema:

Frank é praticamente todos os estereótipos horríveis sobre as mulheres trans enfiados dentro de um único pacote monstruoso. Uma caricatura ambulante e, literalmente, nem mesmo um ser humano.

A icônica música Sweet Transvestite descreve Frank como travesti – uma palavra que quando o filme foi lançado, em 1975, também era usada por mulheres transexuais para descrever sua identidade. Hoje, algumas já consideram o termo ofensivo, pois ele costuma ser entendido como “homem que se veste de mulher”. Na versão original, Frank-N-Furter é interpretado por um homem (Tim Curry) e representado como um ser hipersexualizado, manipulador, pervertido, cruel e desequilibrado, que protagoniza um assassinato bárbaro (Eddie é morto a machadadas depois de ser mantido preso no refrigerador, gente).

É um alívio saber que o remake de 2016 tenta consertar isso, pelo menos em partes. A principal mudança foi escalar uma atriz transexual, Laverne Cox (a Sofia de Orange is the new black), para dar vida à Dra. Frank-N-Furter. O papel tinha sido oferecido primeiro ao cantor Adam Lambert, que recusou por não achar adequado – com razão – uma pessoa cisgênero (não-transgênero) interpretar Frank. No fim, Lambert acabou fazendo o papel de Eddie e Laverne está apenas… sensacional!

Laverne Cox Rocky Horror Picture Show

Laverne Cox como Frank em Rocky Horror (Fox)

Laverne rouba a cena toda vez que aparece. Ela é linda, tem uma bela voz e os figurinos são de tirar o fôlego. Nesse vídeo dos bastidores, o figurinista William Ivey Long chama atenção para o fato de Frank ser uma mulher e as roupas terem sido desenhadas com isso em mente. Já nessa entrevista ele cita Grace Jones, Tina Turner, Joan Crawford e até Beyoncé como referências. É legal ver o carinho que a produção do filme tem pela personagem. Laverne Cox está bem à vontade no papel e sabe dominar o palco como ninguém – mas será que isso basta para redimir o musical da sua transfobia?

Eu não posso responder essa pergunta. Não é meu lugar de fala, porque eu não sou uma mulher trans. O que eu posso, e estou tentando fazer com esse texto, é dar visibilidade ao assunto, apontar os aspectos que tornam Rocky Horror um filme tão problemático e cheio de preconceitos. Mesmo que ele seja um dos meus favoritos. Ou melhor: especialmente porque ele é um dos meus favoritos.

Embora Frank esteja sendo interpretada por uma mulher na versão de 2016, Sweet Transvestite continua lá, comparando mulheres trans a “homens que se vestem de mulher”. A própria gal-horror-show-2-jpgFrank continua sendo uma caricatura. Ela mata Eddie a sangue frio e mantém Rocky preso como um escravo sexual, além de assediar e coagir outros personagens a fazerem sexo com ela. Tanto a cena com Brad quanto a cena com Janet começa com Frank enganando os dois, fazendo se passar por outra pessoa para conseguir ir pra cama com eles. É importante lembrar que isso são esteriótipos negativos que a sociedade mantém até hoje sobre as mulheres trans. Da mesma forma que a cena em que Frank persegue Janet, durante Wise up Janet Weiss, alimenta a ideia equivocada de que mulheres trans são violentas e oferecem risco às mulheres cis. Cada vez que você chama uma mulher de “armadilha” ou faz piada sobre um homem ter sido “enganado” para se relacionar com ela, você está perpetuando esses mesmos estereótipos que Rocky Horror explora à exaustão. Não é uma piada, não é só um filme: é uma agressão. É transfobia. E transfobia mata.

O escritor do musical, Richard O’Brien (que interpreta Riff Raff na versão original), também não se identifica como cisgênero. Algumas pessoas alegam que por isso ele (e consequentemente um filme que ele escreveu) não pode ser transfóbico, mas isso não é verdade. O’Brien se considera tanto homem quanto mulher, como disse à BBC. Apesar de respeitar sua identidade, preciso dizer que transfobia internalizada existe, e o fato de ser transgênero não isenta Richard do preconceito contra mulheres trans, nem o torna um porta-voz desse grupo. Ainda mais quando ele disse, em um momento lamentável, que não as considera mulheres “de verdade”.

Claro que Rocky Horror foi escrito há mais de 40 anos, em um contexto social diferente, por alguém que questionava a própria identidade de gênero. Estou levando isso em conta. Acontece que o musical foi relançado agora, e nós precisamos analisá-lo sob a ótica das informações que temos hoje. Por isso eu questiono, o filme de 2016 tenta desfazer a imagem de Frank como predador sexual?

Na minha opinião, sim. Além da escolha de Laverne Cox, a gente percebe outras mudanças sutis no tom da narrativa. Brad e Janet também são retratados de forma caricata, até mais que a Dra. Frank. São escolhas de interpretação. O jeito que Brad (Ryan McCartan) olha para Frank desde que ela aparece em sua primeira música dá a entender que ele já estava interessado nela. Quando tenta escapar das investidas da doutora, no quarto, suas expressões são tão exageradas que beiram o ridículo. Parece que ele e Janet (Victoria Justice) apenas não querem, ou tem vergonha, de admitir que se sentem atraídos por Frank. Tudo isso está presente na versão de 1975, mas aqui é exagerado mesmo, e pra mim vai além de uma mera tentativa de deixar o musical mais kitsch. É para fazer que o público não veja as cenas como agressão sexual. Só que isso é arriscado. O consentimento de Brad e Janet (sem falar no de Rocky, ou mesmo Eddie) é no mínimo dúbio. As atitudes de Frank não deixam de ser abuso, e algumas pessoas continuarão se sentido ofendidas pela personagem.

Será que eu posso dizer que essas pessoas estão erradas? De forma alguma. Não dá para ignorar quando mulheres trans apontam transfobia e dizem o quanto o filme faz mal a elas. Como eu falei no início, cheguei a acompanhar várias discussões a respeito. Lembro de ver uma moça dizendo que quando ela assistiu o filme, anos atrás, tudo o que ela pensou foi “eu não posso tentar ser uma mulher, vão achar que eu sou assim”. Eu imagino como ela deve ter se sentido assustada e agredida pela personagem, por mais que na mesma época eu tenha visto Frank apenas como uma pessoa segura, fabulosa. Quem sou pra dizer que a dor e a indignação dela não são válidas, quando é ela, não eu, quem sofre com esse preconceito?

É claro que Rocky Horror Picture Show (2016) tem seus méritos, feito a diversidade do elenco. Temos uma mulher negra no papel da Dra. Frank, a atriz cubano-americana Christina Milian interpretando Magenta e Ben Vereen como o Dr. Scott.  Isso se estende aos músicos e dançarinos (embora eu tenha que dizer: por que é todo mundo magro-dentro-do-padrão?? O filme original apresentava uma diversidade de corpos que falta aí). E a releitura do figurino é maravilhosa. Reconheço que o musical foi, e ainda é, um grande “foda-se” para os padrões de gênero. Só não posso negar que ele também é, apesar de tudo, transfóbico.

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Elenco principal de Rocky Horror Picture Show 2016 (Fox)

Não estou dizendo que você esteja errado por gostar (como eu ainda gosto) de Rocky Horror Picture Show. O que eu estou dizendo é: a gente precisa se colocar no colocar do outro e entender que um filme que representa liberdade para você, pode ser nocivo para outras pessoas. É necessário reconhecer isso, reconhecer a transfobia enraizada em produções que celebram a diversidade, como Rocky Horror. Criticar, problematizar, é fundamental. E, daqui para a frente, produzir e apoiar obras que questionem sim conceitos de gênero e sexualidade, mas sem precisar atacar as mulheres transexuais para fazer isso.

Depois de Lucia e a tortura do bullying

Nas últimas semanas ouvi falar muito sobre Os 13 Porquês. Eu ainda não assisti (por falta de tempo) mas pelo que li a respeito, a série trata de suicídio, bullying e assédio entre adolescentes. Impossível não pensar em Depois de Lucia, um drama mexicano que eu vi há algum tempo e também está disponível na Netflix. Fica a dica!

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Alejandra no dia do seu aniversário (Fonte)

Depois de Lucia aborda temas parecidos e na época me impressionou por ser sutil, apesar de devastador. Eu me propus a assistir de novo antes de escrever esse texto… Ah, cara. É dessas histórias que deixam a gente com um nó na garganta. Parece que fica entalado aqui, não desce.

O mais interessante é que ele também é muito silencioso. Eu vi algumas críticas falando sobre o filme ser exagerado e, na minha opinião, isso não tem nada a ver. O filme é pesado, sim, mas tem uma sutileza quase poética. É fácil escandalizar o público com uma trama grotesca ou cenas brutais explícitas, como fizeram Um filme sérvioIrreversível, entre tantos outros. Não estou dizendo que sejam filmes ruins, só que as cenas de violência em ambos os casos são extremamente gráficas. Verdade seja dita, Depois de Lucia é quase insuportável de ser visto do mesmo jeito. Só que não pelo exagero – ao contrário, é uma narrativa feita de ausências – mas porque apresenta uma história perturbadora e muito próxima da nossa realidade de forma crua, sem rodeios.

Tudo começa quando Alejandra (Tessa Ia) perde a mãe num acidente de carro em que o pai, Roberto (Hernán Mendonza), estava dirigindo. Com a intenção de deixar pra trás esse trauma, os dois se mudam para a Cidade do México, onde ele assume a cozinha de um restaurante. Alê começa a frequentar uma escola nova e aos poucos consegue se enturmar, até que ela tem um vídeo íntimo divulgado na internet. A partir desse momento a garota se torna o principal alvo de bullying no colégio. O que começa com provocações e xingamentos evolui para uma perseguição cruel, com agressões físicas e sexuais. Tudo intensificado pela presença constante dos celulares, que gravam cada humilhação. Não tem outro nome para o que se passa aqui: é tortura. Alejandra aguenta tudo calada, mesmo quando as agressões chegam a um nível absurdo.

O próprio silêncio é um elemento fundamental para a construção do filme. Quando Roberto sente a perda da esposa é com um choro abafado, reprimido. Alejandra chora sozinha no banheiro. Os dois conversam pouco. Ele não conta para ela que não consegue mais dirigir o carro depois do acidente, ela não conta sobre os problemas na escola. Com os funcionários do restaurante Roberto fala apenas o necessário. Quando os colegas perguntam a Alê sobre a mãe, ela diz que Lucia “ficou em Vallarta”. A tia liga para ele, Roberto fala que a filha está bem. A tia liga para ela, Alejandra também diz que o pai está bem. Ambos sofrem em silêncio. Enquanto isso, do lado de cá da tela, a gente assiste a tudo sem poder interferir.

O filme deixa claro que o lugar do espectador é o “lado de fora”. A câmera assume uma posição externa, de maneira que que você se sente um intruso, como se não devesse estar vendo aquilo. Parece que a ideia é incomodar. A gente fica desconfortável mesmo, e como!20497623 O silêncio é perturbador, e vai além da ausência de diálogos. Por que Alejandra não conta? Por que o pai não insiste para ela falar, quando ele percebe que tem algo errado? Por que a escola não faz nada? Por que os outros alunos não interferem? Essas perguntas ficam martelando na cabeça o tempo inteiro. Ainda mais quando a gente sabe que a política da escola é acompanhar os alunos de perto. Quando Alê chega no colégio, o diretor a recebe para conversar sobre a mudança. Se acontece alguma confusão, os pais são chamados à diretoria. Os estudantes são até submetidos a um exame antidoping! Então por que nenhum professor percebe o que está acontecendo dentro da própria sala de aula, nos corredores, na viagem da turma?

De certa forma, a gente compreende a ausência de diálogo. Roberto ainda não superou a perda de Lucia e, no sofrimento do seu luto, ele enfia a cara no trabalho. Depois de uma briga motivada pelas provocações no pátio do colégio, o diretor pergunta a Alejandra se existe algum problema. Ela nega, sustenta a versão que protege seus agressores. O pai se preocupa, insiste, mas não sabe como lidar com a filha. Alejandra está sempre acuada. Logo após o escândalo do vídeo ela usa um dos vestidos antigos da mãe – como se isso pudesse trazer algum conforto ou segurança – mas não conta a nenhum adulto sobre a filmagem. Fica a sensação de que se Lucia estivesse lá, talvez a história fosse diferente. Quem sabe? O fato é que conforme a narrativa se desenrola parece cada vez mais óbvio que algo está errado, e ninguém faz nada. E isso é desesperador. A gente se sente tão impotente e desolado quanto a própria Alejandra. Ou quanto o pai dela, quando Roberto descobre o que aconteceu com a filha.

Depois de Lucia ainda toca em pontos importantíssimo, como a ausência de supervisão dos adolescentes, inclusive no ambiente escolar, e o machismo. Tanto Alejandra quanto José aparecem no tal vídeo íntimo que foi divulgado, enquanto ela é a única que recebe um tratamento hostil. Dá para notar que o bullying sempre ocorreu no colégio, só que Alejandra de repente se torna o maior alvo dessa crueldade. É o melhor filme sobre o assunto que eu conheço. Difícil de assistir, doloroso demais – tem cenas de violência, estupro, morte. Mas vale muito a pena, se você tiver estômago.

A Bela e a Fera: LeFou, vestidos e tudo que há de bom

Minha amiga, na maior altura: NOSSA, EU ACHEI QUE VOCÊ ESTAVA CHORANDO!
Eu, sem um pingo de dignidade: EU ESTOU CHORANDO, CALA A BOCA!
Metade do cinema caiu na gargalhada.

Não me julguem, eu comecei a chorar em Something There. Sou desses que saem de um musical cantando todas as músicas, chega em casa e ainda baixa a trilha sonora. No caso d’A Bela e a Fera, não ouvi outra coisa por duas semanas. Confesso que gostei mais das clássicas que das canções novas, mas a trilha inteira é encantadora.

Como eu disse no post anterior, o que me ganhou foram os detalhes. Como quando o candelabro Lumière (Ewan McGregor, que está adorável no papel) canta Be Our Guest. Ele diz “afinal, aqui é a França” e se apoia em uma faca sobre a mesa, daí a faca corta um pão baguete com um movimento certeiro, numa referência à guilhotina. Isso me fez rir alto no cinema! Adoro esse humor sutil e inteligente.

É algo que a Disney sempre fez, e sempre fez bem. A gente pode ver a mesma sutileza na concepção dos personagens, em especial o LeFou (Josh Gad) – eu disse que ia falar dele, não disse? Antes da estreia saiu a notícia de que ele seria gay, o que gerou protestos, talvez por uma história com tanto apelo entre o público infantil. Meu único receio era que LeFou fosse usado como um estereótipo grosseiro e alvo de chacota.

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LeFou confrontando Gaston antes de invadir o castelo (Disney)

Só que a Disney nos deu um personagem maravilhoso, interessante e bem construído, com uma narrativa própria. Ele é, sem dúvida, apaixonado por Gaston. E sabe que o sentimento não é correspondido da forma que gostaria, já que – para ele – Gaston o vê como um amigo, sem qualquer interesse romântico. Um ponto importantíssimo é que LeFou não se volta contra Gaston porque o amigo está interessado na Bela (caras que reclamam de “friendzone” podiam aprender algo com isso). Sua lealdade só começa a vacilar quando ele percebe que o outro não é exatamente uma boa pessoa, e teria coragem de matar o pai da Bela para obrigar a moça a aceitar o casamento.

Ao contrário da versão animada, no live action fica claro que admiração inspirada pelo vilão não é ingênua nem ilimitada. Na cena da taverna, descobrimos que LeFou tem que pagar os moradores da vila para animar Gaston com um número musical celebrando os “talentos” dele. E nessa mesma cena aparece outro personagem que eu adorei: Stanley (Alexis Loizon), o rapaz que termina o filme dançando com LeFou.

Na boa, Stanley já estava de olho nele desde… sempre! Olha a carinha indignada do moço quando LeFou pergunta quem é o favorito da cidade. Ele fica pessoalmente ofentumblr_inline_onfevoNTFS1tsl3oa_500dido com tanta adulação (sim, eu peguei o gif no Tumblr). Isso é ciúmes, gente. Ciúmes! Pode até ser um detalhe que se você não prestar atenção vai passar batido, mas faz parte da construção de uma narrativa bem elaborada. Por isso eu gostei tanto da forma como o LeFou foi retratado no filme. Gostei do momento em que ele percebe que é bom demais pro Gaston, de como ele não esconde seus sentimentos e da Madame Samovar dando conselhos amorosos no meio da batalha com a maior naturalidade.

LeFou é um personagem cativante, indiscutivelmente gay, e ganhou algo que Gaston jamais terá: um arco de redenção, com direito a final feliz e tudo. Junto com Stanley, que para completar aparece na cena da batalha muito confortável e satisfeito usando vestido e maquiagem. Algo que foge daquele ideia tão batida (e preconceituosa) em humorísticos, onde um cara entra em pânico ao se ver trajando roupas femininas. Foi mais uma agradável surpresa que eu tive com A Bela e a Fera.

5d7f5f9fb1d40f44f6dda8da2feea0f3Já que eu falei de vestidos, preciso dizer que eu adorei todo o figurino do filme (e tem algo que eu não curti?). A caracterização inteira do príncipe, ainda na primeira cena, é maravilhosa. Sobre as roupas da Bela (Emma Watson), com exceção do clássico vestido azul com a blusa branca e o avental que ela usa lá no comecinho – e que parece ter saído direto da animação – foram releituras bem executadas dos modelos originais. O meu preferido é sem dúvida o figurino de inverno que ela veste em Something There, quando brinca na neve com a Fera. E embora o vestido amarelo de baile seja muito diferente do que Bela usa no desenho, eu adorei  cena da sua “confecção” pela Madame Garderobe. Principalmente quando os arabescos dourados descem pelo ar até a barra do vestido, tão delicado!

Admito que entre tantos personagens encantadores, eu não pensei que fosse gostar do Príncipe Adam. Qual é, um bicho de três metros de pura animação computadorizada? Juro, entrei no cinema torcendo pelo Gaston (não julguem). Acabei me surpreendendo com a quantidade de sentimento que a gente consegue ver no rosto da Fera. Inclusive, eu achei que as emoções ficaram mais naturais que a movimentação do personagem, nas cenas de corpo inteiro e durante a luta no telhado. Dan Stevens roubou meu coração. RAWR!

Gostei tanto do filme que dividi a análise em dois posts. Não viu o primeiro? Confere lá!