Deadpool: sexualidade, padrões de gênero e histórico de abuso

O Deadpool é um dos meus heróis favoritos, e eu já estou na contagem regressiva para a estreia do segundo filme! Até lá, decidi fazer um perfil sobre ele. Um Dossiê Deadpool, abordando pontos cruciais da sua caracterização: a sua sexualidade, a forma como ele desafia padrões de gênero e o histórico de abuso que o personagem enfrenta.

É um jeito legal de apresentar o mercenário pra quem não é familiarizado com as HQs, e assim a gente entende melhor porque tanta gente curte o Deadpool!

Origem

Wade Wilson, vulgo Deadpool, foi criado por Rob Liefeld e Fabian Nicieza pra Marvel em 1991. Ele é uma paródia do mercenário Slade Wilson, o Deathstroke da DC Comics, um vilão no universo do Batman e companhia. Conhecido como “mercenário tagarela”, Wade fez sucesso entre os fãs e ganhou uma revista própria, mas suas histórias nunca perderam o tom satírico e debochado tão característico do personagem.

deadpool_comicsNos quadrinhos, é normal que cada personagem tenha a sua história reescritas diversas vezes. Geralmente alguns pontos-chave são mantidos, e se tornam consenso entre os fãs como a sua “origem”. É o caso de Bruce Wayne, que teve os pais mortos durante um roubo e depois se tornou o Batman; e do Peter Parker, o Homem-Aranha, criado pela tia May e pelo tio Ben, que decide virar herói quando Ben é assassinado. Sobre Deadpool, algo que se mantém constante nas suas histórias é que ele cresceu em um lar abusivo, sofrendo maus tratos quando criança.  Na série original, intitulada Deadpool, Wade não conheceu o pai e a mãe era alcoólatra, violenta. Já em Cable & Deadpool, a mãe morreu de câncer e ele foi criado pelo pai, um ex-militar também abusivo. A infância traumática tem uma grande influência no caráter do mercenário tagarela.

Já adulto, Wade (que é canadense, feito o Logan) começou a atuar como mercenário e mais tarde entrou pro exército, onde foi diagnosticado com um câncer no cérebro. Sem nenhuma expectativa de sobrevivência, ele decidiu participar do projeto Arma X – uma iniciativa do governo cujo objetivo é criar a arma perfeita. No primeiro filme, essa parte é bem retratada, e fiel à narrativa dos quadrinhos.

Pra refrescar nossa memória, o programa Arma X induz mutação nos pacientes através de experiências cruéis, similares à tortura. Curiosamente, o X do nome não diz respeito aos mutantes nem aos X-Men, mas ao numeral 10 em algarismos romanos! Isso porque vários projetos semelhantes foram feitos ao longo dos anos, inclusive por instituições diferentes, mas sempre associados ao governo (seja dos EUA ou Canadá) e sempre com fins militares. O primeiro, Arma I, teria sido o Projeto Supersoldado, que deu origem ao Capitão América. Logan (o Wolverine Original) e Laura Kinney, conhecida como X-23, foram submetidos ao Arma X como o Deadpool. E o programa continua ativo.

Durante o experimento, Wade manifestou o fator de cura, uma mutação parecida com a do Wolverine. O problema é que o câncer não foi curado. As células cancerosas do seu corpo se reproduzem em alta velocidade, ao mesmo tempo que o poder de cura combate a doença. É por isso que o Deadpool tem o corpo inteiro cheio de cicatrizes: existe uma batalha constante entre o avanço do câncer e a regeneração de seus órgãos, incluindo a epiderme. Aliás, muita gente acha que por causa dos poderes o Deadpool não sente dor, o que não é verdade. Wade não apenas é capaz de sentir dor, mas sofre com terríveis dores crônicas por causa do câncer. Assim como a deformação da sua aparência, a dor incessante afeta muito a saúde mental do personagem.

wade_scars

Deadpool mostra as suas cicatrizes em Deadpool #1, enquanto diz “sim, a vida é bela!” Aqui no Brasil, a história foi publicada em Meus queridos presidentes pela Panini

Do programa Arma X, Wade Wilson é levado pro hospício. Como no filme, ele adota o codinome Deadpool (a “loteria da morte”) por causa de uma aposta sobre quem iria morrer primeiro, embora na HQ ela seja feita entre médicos do hospital psiquiátrico. Ao escapar do hospício, Wade volta a trabalhar como mercenário até sua consciência falar mais alto, quando ele admite que sempre quis ser um herói.

Pansexualidade

Embora nas HQs o Deadpool ainda não tenha dito com todas as letras que é pan, ele já deixou isso bem claro em várias oportunidades. É um consenso entre os escritores que o Deadpool é queer, e se interessa por homens e mulheres.

Pansexual: Alguém que sente atração por todos os gêneros, incluindo homens, mulheres e as pessoas que não se identificam com o gênero binário (como gênero-fluido e agênero). O conceito de pansexualidade é muito parecido com o de bissexualidade, e a identificação com um ou com o outro é uma questão muito pessoal. Saiba mais!

 

Nos filmes, Deadpool também é pan. O diretor Tim Miller disse, quando questionado a respeito: “Pansexual! Eu quero isso como citação. Deadpool é pansexual”. E vocês já devem ter visto o Ryan Reynolds, ator que interpreta o Wade, expressando desejo de ver o mercenário com um namorado. Ainda que o primeiro filme apenas insinue que o herói também gosta de homens, Ryan e os demais profissionais envolvidos no trabalho reconhecem a sexualidade do personagem e respeitam isso. Na época do lançamento, a revista The Guide anunciou uma matéria sobre o Deadpool com a seguinte chamada: Ei, você quer ler um artigo sobre um assassino pansexual boca-suja? Pra quem quiser conferir, a capa está disponível aqui.

Já nas HQs, o Deadpool não consegue segurar a língua ao ver um cara que ele curte! Afinal, ele é o mercenário tagarela por um motivo, né?

deadpoolthor

Deadpool para o Thor, nos quadrinhos: Eu realmente te acho muito atraente. Eu disse isso em voz alta? (originalmente publicado em Deadpool Team-Up)

Thor, JusticeiroHulking e Wiccano… O Deadpool não perde a oportunidade de flertar com outros heróis (e até vilões, na verdade). Ele sempre faz isso assim, meio em tom de piada, mas quem conhece bem o mercenário sabe que essas brincadeiras têm um fundo de verdade. Apesar de alguns leitores argumentarem que o Wade está só “zoando”, eu acredito que tem relação com o fato dele possuir uma auto-estima muito baixa, e se sentir mais confortável expressando os seus sentimentos através do humor. A “piada” oferece sempre uma saída segura para a rejeição. Além de tudo, nas cenas como essa mostrada acima, a graça não está na atração que ele sente pelo Thor, mas no fato do Deadpool falar sobre isso no momento mais inapropriado possível.

Outra coisa interessante é o namoro dele com Copycat, uma mutante que tem poderes parecidos com os da Mística e pode alterar a sua aparência. Embora sua forma original seja uma figura feminina de pele azulada, nos quadrinhos nós já vimos Copycat assumir formas masculinas, e o Wade não tem o menor problema com isso. Pelo contrário!

copycat

Deadpool beijando Copycat em uma forma masculina, dizendo algo que pode ser traduzido como “eu já te falei que você é uma beleza…?”

Agora, o relacionamento mais emblemático do Wade com um homem é, sem dúvida, o Cable (que vai ser interpretado pelo Josh Brolin nos cinemas). Eles têm uma parceria duradora nas HQs, e os dois (além da própria Marvel) se referem à relação deles como um “casamento”, e à sua separação como um “divórcio”. O Deadpool costuma brincar que o Cable fica sempre “por cima” (nas palavras do Wade, porque ele era maior, e mais experiente), e insiste que os dois deveriam inverter os papéis. Em Deadpool & Cable: Split Second #2, Wade fala que os dois tiveram um “momento Brokeback Mountain”, quando Cable disse pra ele “eu queria saber como desistir de você” (ou I wish I knew how to quit you, a frase icônica de Jack para Ennis Del Mar no filme). Quando Wade é confrontado com a visão dos seus desejos mais obscuros em Cable & Deadpool #20, ele se vê na praia com Cable, passando filtro solar nas costas do mutante, ambos de sunga.

Eu poderia continuar citando outros exemplos aqui, mas sejamos sinceros: isso parece uma amizade para vocês? Bem, talvez uma amizade colorida

cableanddeadpool

Armador sobre Cable: Wilson, o garoto dos seus sonhos acabou de acordar! Deadpool: Rob Lowe está aqui? …eu disse isso em voz alta? (originalmente publicado em Cable & Deadpool)

Em Cable & Deadpool #10, Deadpool disse, sobre sua relação com Cable: “nós temos uma política de não pergunte, não conte”. É uma referência ao Don’t ask, don’t tell do exército americano, um código de conduta que aceitava pessoas não-heterossexuais no serviço militar desde que elas não falassem abertamente sobre sua sexualidade. Essa regra também desencorajava os militares a reportarem casos de abuso e estupro, e ainda é considerada um dos fatores responsáveis pelo número absurdo de casos de violência sexual nas forças armadas americanas. Eu não acredito que a menção dessa política tenha sido “só piada”, e muito menos uma coincidência.

Tanto a DC quanto a Marvel tem a “mania” de apenas insinuar a sexualidade de vários personagens que deveriam ser LGBT, de acordo com os próprios escritores. Eu já falei a respeito no segundo post sobre queer coding, citando como exemplo o Johnny Storm, o Constantine e o Deadpool. Para vários leitores (incluindo eu), quando o Wade se refere ao relacionamento dele com o Cable desse jeito, ele está fazendo uma crítica velada ao fato da Marvel, ainda manter certa ambiguidade sobre a relação deles, e sobre a sexualidade do Deadpool (e do Cable). Para as editoras tudo bem um herói dar pinta, desde que pareça apenas uma brincadeira.

E aí, nós concordamos que o Wade é pan? E que o Cable também não pode ser hétero? Ótimo. Vamos em frente, porque além do envolvimento com Cable, Deadpool também é obcecado pelo Homem-Aranha.

tumblr_inline_p7mjyr28Js1qeimwq_500

Deadpool pergunta: Isso é… o Céu? Nós vamos nos beijar? ao que o Homem-Aranha responde, categórico: Nunca!

Ele chama o Aranha de baby boy, faz várias piadas de duplo sentido sobre os dois juntos e não esconde a sua… admiração pelo outro herói. Antes mesmo deles se conhecerem, o Wade usava uma cueca do Homem-Aranha, e isso se repete depois. Essa brincadeirinha sobre beijar o Peter é recorrente, e a Marvel já usou cenas de “quase beijo” entre os dois para ilustrar capas das revistas. Volta e meia, o Deadpool se refere a eles como amantes, ou casal. Só que ao contrário do Cable, essa atração parece unilateral, já que o Peter não corresponde os sentimentos dele (pelo menos até onde a gente sabe). Por outro lado, num acontecimento mais recente em Spiderman/Deadpool #1, um grupo de garotas faz um feitiço para invocar a alma-gêmea do Homem-Aranha… E advinha quem aparece? Isso mesmo, nosso mercenário tagarela, Deadpool!

O fato é que o Deadpool definitivamente não é hétero.

deadpool_rogueApesar dele ter demonstrado interesse e se relacionado com várias mulheres, como Copycat, Siryn, Shiklah (com quem o Wade se casou), Big Bertha e agora a Vampira em Uncanny Avengers (Gambit ficou mordido de ciúmes), ele também sente atração por homens. Hoje eu quis falar mais sobre o relacionamento dele com personagens masculinos porque todo mundo sabe que ele já namorou mulheres, só que alguns fãs insistem em dizer que ele é hétero e querer provas do contrário. A questão é que, no que diz respeito a atração e romance, Deadpool não liga pro gênero, não. Ou seja, nós podemos dizer com segurança que o mercenário tagarela é pansexual!

Desafiando padrões de gênero

Primeiro, é importante lembrar que a sexualidade não tem, necessariamente, relação com a forma como uma pessoa se apresenta para a sociedade. Mesmo que a gente se identifique com certos comportamentos ou peças de roupa, por exemplo, não é o jeito de vestir (ou o fato da gente gostar de maquiagem) que define nossa sexualidade.

Dito isso, Wade é um personagem que constantemente desafia padrões de gênero, em especial porque ele adora usar vestidos, saias… Roupas tidas como femininas. Em Meus queridos presidentes, Deadpool se fantasia de Marilyn Monroe enquanto luta com ex-presidentes americanos que viraram zumbis (é, sério).

deadpooldressO elemento cômico, de novo, costuma estar presente quando ele usa as roupas femininas. Porém, Wade não é forçado a se vestir desse jeito, e ele não se sente desconfortável. O Deadpool curte, e na maior parte das histórias (se não todas) é ele mesmo quem escolhe essas roupas. Às vezes, sem nenhum motivo além dele se sentir bonito. É diferente do tipo de humor que se resume a “haha, enfiamos esse cara num vestido e ele DETESTOU” (o mesmo acontece com Stanley no filme d’A Bela e a Fera). Wade é crossdresser (um homem que gosta de vestir roupas consideradas femininas) e ele também não tem nenhum problema com isso.

Só que essa não é a única maneira como o mercenário desafia estereótipos de gênero. Entrando num tema complicado, em uma das histórias o Wade foi estuprado por uma personagem feminina, a Mary Tyfoid. Infelizmente, o assunto nem sempre é tratado com respeito nos quadrinhos, que é um universo muito machista.

Esse tipo de caso é levado mais a sério quando a agressão é cometida por outro homem (vide Authority, onde a questão é tratada com seriedade). Quando é uma mulher que força um personagem masculino a fazer sexo contra vontade, na maioria das vezes isso é minimizado pelos leitores e pelos escritores (a exemplo do episódio entre Dick Grayson e a Tarântula na série Nightwing, sobre o qual a autora Devin Grayson falou: “eu nunca usei a palavra estupro, eu só disse que foi sem o consentimento [dele!]” – embora Devin já tenha se desculpado por isso).  É um reflexo da vida real, onde homens que são vítima de abuso e violência também não são levados a sério.

Voltando ao Deadpool, Mary Tyfoid é uma mercenária e conhecida vilã dos quadrinhos, com quem o Wade estava trabalhando na série Deadpool publicada nos anos 90. Eles lutam juntos contra o Demolidor, mas no fim das contas Deadpool quer ser um herói e a Mary quer continuar como uma vilã. Quando as desavenças entre os dois chegam ao limite, Wade procura Siryn, uma heroína por quem ele foi apaixonado e a quem acima de tudo ele admirava. Mary Tyfoid usa um indutor de imagem para assumir a forma da Siryn e transar com o Deadpool, sem ele saber. Na manhã seguinte, ela debocha dele de uma forma bem cruel. Wade fica devastado e deixa claro que não quis aquilo.

poolmary3

“Eu sei que você é um palhaço, mas ela… Ela… estuprou você? Isso é horrível!”

Em 2015, na saga nova também intitulada Deadpool, Wade relembrou o abuso. Quando questionado “então ela estuprou você?” ele respondeu que sim, e ainda disse “foi uma das piores experiências da minha vida, e isso é muita coisa“. Não encontrei referências em português, mas aqui tem a conversa entre eles e um artigo, em inglês, explicando como Mary violentou o Wade. É legal ver um personagem masculino falar abertamente sobre isso, e ver o caso ser tratado com respeito e empatia nos quadrinhos. Pra outros homens que passaram por situações similares, é o reconhecimento e a validação da experiência deles. É uma declaração de que o que aconteceu com eles não foi certo, e de que eles não estão sozinhos nisso.

Sério, gente, quadrinhos são um reduto do machismo. E, muitas vezes, contribuem sim pra manter a cultura do estupro na nossa sociedade. Ver um personagem como o Wade fazer o oposto é muito, muito bom.

Histórico de abuso

O episódio com a Mary Tyfoid nos traz ao próximo tópico: o Deadpool tem um histórico de abuso tanto físico quanto psicológico além desse estupro, que começou na infância e persiste durante a vida adulta.

Como eu mencionei lá em cima, não importa quantas vezes a sua história seja reescrita, Wade sempre é fruto de um lar extremamente abusivo – em algumas histórias, com menções de abuso sexual. Às vezes ele faz piadas com isso, como um mecanismo de defesa. Lembram daquela cena no filme em que ele e a Vanessa estão “disputando” para ver quem teve a infância mais difícil? É esse tipo de piada que ele faz, e de repente você percebe que todas elas tem um fundo de verdade e são apenas uma maneira de lidar com o trauma. Não por acaso, o Deadpool se mostra particularmente cruel com gente que abusa de crianças, e com estupradores.

Isso é um dos motivos pelos quais eu amo o Deadpool: toda a merda que ele já passou na vida, não fez dele um monstro. Claro, ele pode ter problemas e ser auto-destrutivo, mas no fundo ele é uma boa pessoa. Eu tenho um fraco por personagens assim.

Na vida adulta, outra forma de abuso que Wade enfrenta é o preconceito por causa da sua aparência. As pessoas olham pra ele com desprezo, com nojo, e falam na cara que ele é horrível. Quando não com as palavras, com atitudes e expressões que dizem tudo. Qual é, nas HQs tem gente que vomita quando vê o rosto do Deadpool. Quando ele vai em restaurantes, pedem pra ele sair porque ele assusta os clientes!

halloween

Essa é literalmente a cara que a Kate Bishop faz quando o Clint Barton diz que o rosto do Deadpool é assim mesmo, ele não está usando uma máscara de Halloween. (originalmente publicado em Hawkeye vs. Deadpool)

Eu adoro a Kate (que assume o manto de Gaviã Arqueira depois do Clint) mas a forma como ela trata o Wade nessa história (e em outras!) é imperdoável. Será que ela pensa que só porque ela virou de costas, o Deadpool não percebeu? Hein?

deadpool

Na mesma história, a reação do Wade: “Merda…” (originalmente publicado em Hawkeye vs. Deadpool)

A infância repleta de abuso e negligência, junto com a discriminação que o Deadpool enfrenta, fazem com que o mercenário tenha baixa auto-estima e se torne propenso a relações disfuncionais e, de novo, abusivas. Aquela fachada divertida, o deboche e as piadas, na verdade escondem um sofrimento enorme.

Deficiência e transtornos mentais

Alterações faciais como as que o Wade tem podem configurar uma deficiência física, se elas interferirem na sua capacidade de existir em sociedade, criando barreiras para o seu relacionamento interpessoal, prejudicando o seu direito de ir e vir, entre outros problemas. As cicatrizes do Deadpool promovem tudo isso, já que as outras pessoas o isolam por causa da sua aparência. É um motivo pelo qual o Wade é considerado um personagem com deficiência física. Outro motivo são as dores crônicas, geradas pela atividade do câncer.

Não por acaso, o Clint Barton, que é surdo, é um dos personagens que trata o Deadpool de um jeito mais decente. E o Wade retribui a cortesia. Por exemplo, quando eles estão trabalhando juntos, o Deadpool mantém sua máscara levantada acima da boca, para que o Gavião Arqueiro consiga ler seus lábios, e às vezes se comunica por linguagem de sinais. São atitudes simples, que a maioria dos outros heróis nem pensa em tomar (tem gente que simplesmente vira de costas enquanto o Clint fica ali sussurrando “…eu preciso ler seus lábios”). O Deadpool faz porque ele sabe o que é ter uma limitação, e ainda por cima ter que lidar com gente que não faz o mínimo esforço para te ajudar, mesmo que isso não custe nada. Ah, se vocês querem ler essa parceria do Deadpool e do Gavião Arqueiro (incluindo o incidente do Dia das Bruxas com a Kate), a história foi publicada no Brasil pela Panini como Deadpool Extra #1. Eu recomendo!

8c1798a1fd3839b4049b3628bda8d6d7

Em Hawkeye vs. Deadpool a gente vê o Wade usando a linguagem de sinais e mantendo os lábios visíveis para se comunicar com o Clint

A Al, que por sua vez é cega (e vocês com certeza se lembram dela no filme), é outra pessoa em quem o Deadpool encontra empatia e conforto, com quem ele consegue ter uma amizade. O que acontece justamente porque eles compartilham a experiência de existir à margem da sociedade, embora suas deficiências sejam diferentes.

Pensando na questão da representatividade, o Deadpool é um personagem incrível. Ele mostra esse lado feio da deficiência física: os olhares atravessados na rua, a repulsa de terceiros, a discriminação, além dos sentimentos de raiva, frustração e impotência de quem é obrigado a aguentar isso na pele. Eu diria que Deadpool é um veículo catártico para os leitores que compartilham vivências parecidas (o mesmo vale para as situações de abuso e violência já citadas). Até por isso, não é todo mundo que tem estômago para ler os seus quadrinhos.

Além da deficiência física, Wade tem transtornos psicológicos, e mais de uma vez foi internado (contra sua vontade) no hospício. De novo, podemos traçar um paralelo com o “mundo real”: quantas vezes pessoas com deficiências ou problemas mentais, ou até limitações físicas, não são privadas da sua própria autonomia?

É interessante a gente notar também o impacto que as experiências traumáticas (além do câncer) têm sobre o estado mental do personagem. A infância problemática talvez seja a raiz mais profunda dos transtornos, seguida de perto pela tortura do projeto Arma X, mas não podemos esquecer que a rejeição da sociedade graças à sua aparência é um fator decisivo pra deterioração da saúde mental do Wade. Apesar de exibir uma série de sintomas, Deadpool nunca recebeu um diagnóstico apropriado. A gente sabe que ele tem problemas com abandono e auto-aceitação, e alguns fãs sugerem que ele tenha esquizofrenia ou transtorno dissociativo de identidade (TDI). A única coisa que a gente tem certeza é que ele é neurodivergente, e também enfrenta discriminação por causa disso. Inclusive, os maus tratos na mão de familiares, a ameça de abuso e o exílio social são uma realidade que muitas pessoas neurodivergentes ou com deficiências físicas vivenciam com frequência, pois ambos os grupos se encontram em uma situação de maior vulnerabilidade.

deathGraças a essas questões, e por conviver sempre com uma dor física agoniante, Wade já considerou o suicídio várias vezes. Na verdade, a única coisa que o impede é o próprio poder de cura. Esse dilema é usado como motivação para as histórias, como quando o Deadpool resolve acabar com todo o universo Marvel. Inclusive, em uma das HQs, Wade convence uma garota a não pular de um prédio, como uma campanha para estimular a prevenção ao suicídio. O curioso é que numa dessas tentativas, o personagem acaba se apaixonando pela Morte personificada. Ela se torna o grande amor da vida dele (e sempre o rejeita), embora a gente não saiba se isso é real ou uma criação da sua mente perturbada.

 

Vocês notaram que eu gosto é do lado mais vulnerável, mais doloroso, do mercenário, não é? Eu acho que isso torna o Deadpool mais humano. Como eu falei, depois de tudo no final do dia o cara ainda ‘tá lá, tentando fazer a coisa certa – mesmo que do jeito errado. Querendo salvar o mundo, batendo a cabeça na parede pra descobrir como ser alguém melhor. É isso o que me fascina no personagem! Muito mais do que as piadas, do que o lado divertido dos seus quadrinhos (que, convenhamos, às vezes é hilário).

Espero que vocês tenham curtido o post hoje, e se juntem à minha contagem regressiva pro lançamento de Deadpool 2.

deadpool


Devido crédito à Christy, que posta no Tumblr várias informações sobre o Deadpool e foi a minha principal referência na hora de escrever esse artigo.


Curta a nossa página no Facebook e não perca mais as atualizações do blog!

Anúncios

Será que “queer coding” pode ser algo positivo?

Semana passada falei sobre o que é queer coding, e porque isso é problemático. Hoje a gente vai analisar o outro lado dessa moeda: quando o queer coding pode ser positivo. E eu fiquei muito feliz por alguns de vocês se manifestarem dizendo que preferem os personagens queer coded, porque isso nos traz direto ao primeiro exemplo! Às vezes, a gente gosta mais dos vilões do que dos heróis.

Vamos entender por que isso acontece?

scar

Scar, sem dúvida um dos meus favoritos! (Disney)

Quando a gente se identifica com os vilões

Não é uma escolha consciente. Você não entra no cinema, coloca a pipoca no colo e diz “bem, é hora de torcer pros caras maus dominarem o mundo”. Mesmo assim, tem horas que o vilão acaba virando o seu personagem favorito. A gente pensa que isso acontece só porque ele é mais engraçado, ou mais legal, mais interessante… É verdade, mas tem outro fator importantíssimo que faz diferença: às vezes, a gente se identifica mais com os antagonistas. Não porque eles são ruins, mas porque em muitos casos eles são mais humanos que os mocinhos.

Em regra, heróis são escritos para representar o que há de bom no mundo – qualidades como coragem, integridade, empatia. Só que a maioria das histórias equipara essas qualidades ao padrão que a sociedade (cheia de preconceitos) define como correto e adequado. Não por acaso, a maioria dos protagonistas entra no estereótipo “branco, heterossexual, dentro dos padrões de beleza”. Os heróis são másculos, e as heroínas, sempre belas e sensuais.

Para as pessoas que são LGBT, isso significa que muitos heróis representam um ideal heteronormativo e machista que não inclui, jamais vai incluir, a gente. Vamos pegar como exemplo o Thor e o Loki, que inicialmente apareceu como vilão.

thor_loki

Thor e Loki, personagens da Marvel (Fonte)

Thor, o mocinho, é essencialmente tudo aquilo que o Loki não é. Ele é maior, mais forte, mais macho. Vários “fãs” (entre aspas, sim) do Thor dizem que o Loki “parece gay”. Essa oposição, o herói másculo contra um vilão que não se encaixa no mesmo padrão, é um clichê, e eu sei que vocês conseguem pensar em outros exemplos parecidos. Como eu disse no texto anterior, essa caracterização é proposital. Só que de repente, o Loki tem uma legião de fãs. Um monte de gente gosta mais dele que do Thor, as pessoas querem um filme solo do Loki! Isso é o máximo.

Claro, talvez algumas pessoas curtam o Loki por sua tendência a aprontar, mas muitos fãs conseguem se ver mais nele que no deus do trovão. E as características que fazem Loki “parecer queer” são uma parte importante disso (ainda mais porque na HQ o Loki não é hétero e nem cis). Reconhecer essas características que a gente também possui em um personagem e gostar delas (mesmo que apenas nos personagens) já é um degrau a mais na escada do amor-próprio e da auto-aceitação.

adrianVocês devem se lembrar daquele filme terrível do Adam Sandler, Um diabo diferente. E quando eu digo terrível, eu quero dizer mais do que de costume, repleto de piadinhas de mau gosto. Não é um filme bom. Não mesmo, mas eu assistia no SBT e ADORAVA o Adrian (imagem ao lado). Juro, eu torcia pra ele. E olha que o Adrian é outro vilão que leva a ideia de “demonizar personagens queer” ao pé da letra. Apesar disso, ele era meu preferido (e, na real, a única coisa que eu gosto nesse filme). Talvez porque ele me inspirasse a mesma sensação que o Frank de Rocky Horror – ele é fabuloso e claramente não está nem aí pro que os outros acham disso. Hoje, quando eu olho para trás, percebo que todos os meus personagens favoritos da infância e da adolescência eram queer coded, ou pelo menos desafiavam estereótipos de gênero. E hoje, isso faz muito sentido pra mim.

Porém, quando a gente fala sobre se identificar com esse tipo de personagem, isso não inclui apenas vilões. Talvez seja uma visão muito pessoal, mas é curioso como muitas das minhas amigas que são lésbicas dizem que, das meninas superpoderosas, sempre preferiram a Docinho!

docinho

Docinho (Cartoon Network)

A Docinho é uma criança e não é queer coded, mas ela não se encaixa naquele padrão machista e heteronormativo do que é ser uma garota. Ela é a menos delicada, menos “feminina” das três (até o corte de cabelo, curtinho e “pra cima”, foge do clichê). Tenho certeza que várias garotas heterossexuais que também não se encaixam nesse padrão se identificavam com ela, mas de qualquer forma é interessante perceber que garotas queer se viam, de certa forma, representadas pela Docinho. Mesmo que essas garotas tenham crescido e se tornado mulheres bastante femininas, que gostam de maquiagem e tudo (como várias das minhas amigas), elas ainda se enxergavam na personagem que desafiava o conceito preconceituoso do que é ser uma garota.

No que diz respeito às personagens femininas, o queer coding costuma ser muito menos explícito (outro reflexo de uma cultura que tende a invisibilizar as mulheres queer, mesmo quando critica os homens queer). Por isso é mais comum a gente ver apenas personagens que não se conformam com o ideal de feminilidade (como a Spinelli, de A hora do recreio) ou vilãs que detestam os homens, obcecadas pela protagonista (Shego de Kim Possible). Ainda assim, muitas garotas lésbicas, bi ou pansexuais se identificam com as personagens justamente por esses motivos, e isso também é válido.

shego_kim_possible

Shego, que parece ter uma relação de amor e ódio com a protagonista Kim Possible (Disney)

Eu citei todos esses exemplos pra dizer que, se você se identifica e curte o personagem porque ele é queer coded, isso é ÓTIMO. Quando você olha pra alguém que foi escrito pra “parecer gay”, mesmo que ele seja o vilão, mesmo que seja uma piada, e diz “olha, esse personagem se parece comigo, e eu o adoro” – isso é incrível. É revolucionário.

O queer coding em ambientes machistas

Outro exemplo positivo é quando o queer coding aparece como uma saída pros próprios escritores conseguirem mostrar que um personagem é LGBT em ambientes que ainda são extremamente machistas. Acontece demais nos quadrinhos!

Em HQs, isso é comum com os heróis. Às vezes, escritores e desenhistas envolvidos no projeto querem mostrar que um personagem é LGBT, mas as editoras (*cof cof* DC e Marvel) nem sempre permitem, por medo da reação dos fãs. Meu exemplo favorito é o Johnny Storm, o Tocha Humana do Quarteto Fantástico. Ele tem pinta de playboy e mulherengo, mas quem lê as HQs sabe que ele é sensível e meio (muito!) inseguro. Nas histórias, a gente encontra várias dicas de que ele não é hétero e muitos fãs (inclusive eu) argumentam que parte da sua insegurança vêm disso mesmo, e que a imagem de “pegador” que o Johnny se esforça tanto para manter é uma fachada.

johnny_daken

Johnny Storm e Daken em Daken: Dark Wolverine (Marvel)

Até que em Daken: Dark Wolverine, lançada em 2010, a gente vê o filho do Wolverine, Daken (que é abertamente bissexual) flertar com ele. A revista deixa bem implícito que os dois se envolveram e que Johnny se apegou emocionalmente ao Daken. A gente não chega a ver a cena, o que com certeza foi uma decisão executiva da Marvel, já que a intenção dos autores era deixar explícito. Quando perguntaram à escritora Marjorie Liu se Daken e Johnny estavam mesmo dormindo juntos, ela confirmou dizendo “olha, eu espero que sim, já que nós nos esforçamos tanto para criar essa tensão sexual entre eles”. É óbvio que, nesse caso, os escritores têm deixado a sexualidade dele tão clara quanto possível, no limite do que a editora permite que eles façam (ei, Marvel, seria ótimo se vocês deixassem o Tocha Humana sair do armário logo).

Algo parecido aconteceu com Deadpool e John Constantine. Ainda bem que hoje a DC reconhece que o Constantine é bi, mas no começo isso era meio ambíguo. Embora o próprio John tenha mencionado que gosta de homens em um dos números inciais de Hellblazer (décadas atrás), a sexualidade do personagem por muitos anos foi algo mais implícito do que concreto, o que permaneceu nas adaptações pra TV e pro cinema. No filme Constantine, de 2005, algumas cenas tem um tom “homoerótico” (que, aliás, está presente nas HQs), mas não passa disso. Na série de TV, mais recente, a gente também não chegou a ver o John expressar sua (bi)sexualidade, apesar do ator Matt Ryan estar claramente disposto a fazer justiça ao personagem.

O bom é que agora Matt Ryan está em Legends of Tomorrow como Constantine, e dessa vez a bissexualidade dele é explícita!

johnny_boy

“E aí, qual é a sua história, gato?” apenas John Constantine flertando com Leo Snart em Legends of Tomorrow (Fonte)

Deadpool é a mesma coisa. O “mercenário tagarela” é oficialmente pansexual nas HQs e nos filmes, mas durante muito tempo isso foi só insinuado nos quadrinhos (mesmo que o Wade tenha sido totalmente casado com Nathan Summers, o mutante conhecido como  Cable). Até hoje, muitas vezes é mostrado de um jeito sutil, ou com um toque de humor, como se isso pudesse “disfarçar” a sexualidade do personagem. O que é compreensível, porque infelizmente ainda existe homofobia demais entre fãs de HQs. A boa notícia é que a produção dos filmes respeita a pansexualidade dele, e eu espero que o Ryan Reynolds consiga mesmo colocar um namorado para o Wade na telona, como ele já disse que pretende fazer.

Nesses exemplos das HQs os personagens são queer, mas em certos momentos isso fica apenas implícito (assim como no queer coding) porque eles pertencem a um meio ainda muito machista. Para a felicidade geral da nação isso está mudando, porque os quadrinhos estão se tornando cada vez mais diversos!

 

Eu sei que mesmo quando o resultado é positivo, queer coding ainda é algo complicado. A gente quer representatividade de verdade, nada implícito ou “disfarçado”. Além do mais, em muitas situações queer coding ainda é usado de uma forma depreciativa, pra demonizar ou caçoar dos personagens. Por isso é legal pensar a respeito, e criticar sim quando perceber que um livro, série ou filme está fazendo isso. Só não significa que a gente não possa amar esses personagens, pelo contrário. Não esqueça, gostar desses personagens porque a gente se vê neles é revolucionário, e muito válido!

E se você não viu o primeiro post, explicando o que é queer coding e quais os problemas que isso acarreta, não deixe de conferir ainda hoje.


Não quer perder nenhum post do blog? Curta a nossa página do Facebook e receba as nossas atualizações!

O que é “queer coding” e porque isso é um problema

No texto sobre a bissexualidade da Rosa em Brooklyn 99 eu falei sobre queerbaiting –quando uma série, filme ou livro dá a entender que um personagem é LGBT mas nunca confirma isso. É uma forma de chamar atenção do público sem incluir diversidade, e no outro post vocês podem ler mais a respeito.

Hoje eu resolvi trazer outro termo para discussão, o queer coding. A ideia é montar aos poucos um glossário aqui no Estanteante, trabalhando alguns conceitos relacionados a cultura, entretenimento e diversidade (já falamos também sobre bullying) e usando os produtos de mídia como exemplo. Então, vamos lá!

O que é queer coding?

Queer coding acontece quando um livro, filme ou série atribui “características gays” a certos personagens. Eles são chamados de queer coded (em português, codificados ou caracterizados como queer). Para quem não conhece a palavra, queer é um termo amplo usando para se referir às pessoas LGBT – vocês se lembram da série Queer as folk, né? Simplificando, queer quer dizer não-hétero e/ou não-cisgênero. Agora que a gente sabe o que significa, vamos entender porque queer coding é problemático.

Primeiro, é importante dizer que não existe característica gay – por isso as aspas ali em cima. O jeito como uma pessoa conversa, as roupas que ela usa, as coisas que ela gosta, as músicas que ela escuta… Nada disso define a sua sexualidade. Só que existem certos estereótipos ligados a pessoas LGBT que a mídia repete o tempo inteiro, e são esses os aspectos usados quando uma produção quer dar a entender que um personagem é gay. Um exemplo conhecido é o Ryan Evans de High School Musical, interpretado por Lucas Grabeel (que fez Danny Nicoletta em Milk: A voz da igualdade, drama biográfico sobre o político Harvey Milk). Ryan adora música, teatro e moda, dança, usa rosa e tem trejeitos “femininos”. Isso não é nenhuma prova de que ele seja gay, mas a gente sabe muito bem que quando o personagem é escrito dessa forma, as pessoas assumem que ele é, sim. A sua caracterização é intencional.

tumblr_inline_mp0u1e8va21qz4rgp

Lucas Grabeel em High School Musical (Fonte)

Queer coding é muito usado de duas maneiras, a primeira pra fazer chacota. É um clichê recorrente em programas de humor como Zorra Total e Casseta & Planeta, ou filmes de comédia. Mais uma vez, não há nada de errado com pessoas que, na vida real, têm qualquer uma dessas características. O problema é quando isso é transformado em uma caricatura na ficção. The big bang theory vive insinuando que Raj não é hétero toda vez que ele tem uma atitude tida como feminina, seja falar sobre seus sentimentos ou fazer artesanato. Ou seja, o fato dele ser gay, e até parecer gay, vira motivo de piada na série. A função desse tipo de personagem é fazer o público rir às suas custas.

O estereótipo do “vilão gay”

Outro caso é quando o personagem que parece queer surge no papel do vilão, algo que acontece demais em HQs e produções voltadas para o público infantil. A Disney é uma campeã nesse quesito: a maior parte dos seus antagonistas se encaixa no estereótipo. Gaston em A Bela e a Fera, Scar n’O Rei Leão, Hades em Hércules e Jafar em Aladdin (só para citar alguns) são todos representados com traços que fazem o público “questionar sua sexualidade”. É uma tentativa de estabelecer oposição ao herói, que é mais forte, mais digno, mais másculo. O clichê vem justo dessa ideia machista a respeito do que é ser homem de verdade. A maioria desses vilões também são vaidosos, obcecados com a aparência, pois a sociedade associa tais qualidades ao gênero feminino e considera algo negativo, principalmente em um homem. Tenho certeza que vocês já lembraram outros exemplos, mas vou acrescentar alguns à lista: Xerxes de 300, Príncipe Edward de Coração Valente, Vega do clássico jogo Street Figther.

Vocês devem ter reparado que até o momento eu só citei personagens homens, porque o clichê em geral é aplicado a vilões do sexo masculino. Não por acaso, um dos maiores exemplos sobre a presença da masculinidade tóxica na ficção.

disney_villains

À esquerda, Hades, e à direita o contraste entre Ariel e Úrsula (Disney)

Porém, não quer dizer que não acontece com as vilãs. Só que aqui o paralelo se inverte: enquanto a heroína é delicada e feminina, sempre dentro dos padrões de beleza, a vilã tem jeito bruto e não se encaixa num ideal de feminilidade (Úrsula em A pequena sereia). Não estou dizendo que lésbicas não podem ser femininas, mas a Úrsula é o tipo de personagem que a gente aprende logo a chamar de “sapatão” do jeito mais pejorativo possível. Quando queer coding é aplicado às mulheres, a narrativa apresenta uma vilã “butch” (uma mulher que tem um jeito tradicionalmente considerado masculino) ou ela expressa um enorme desprezo por homens, mesmo quando se relaciona com eles (aqui a gente pode incluir Jennifer de Garota infernal e a Malévola, de novo, da Disney).

Também é comum a gente encontrar vilões que desafiam o padrão de gênero, ou não se encaixam no modelo de gênero binário. O principal exemplo, como vocês devem estar imaginando, é o Ele de As meninas superpoderosas – que leva aquele conceito de “demonizar” personagens LGBT ao pé da letra. Ainda podemos citar outros: o Coringa do Batman e Buffalo Bill de Silêncio dos inocentes, assim como Frank-N-Furter em Rocky Horror. Frank tem um agravante: além de ser o antagonista, ele é um predador sexual, que faz investidas agressivas e indesejadas contra os protagonistas (infelizmente, mais uma característica associada a vilões gays).

joker_queer_coding

Coringa em uma história em quadrinhos (à esquerda) aplicando o batom que ele mesmo trouxe (Fonte), e à direita o personagem no desenho animado (Fonte)

Queer coding é problemático porque além de propagar um estereótipo, estabelece a sexualidade (ou gênero) do personagem de forma negativa. Quando apenas vilões são retratados como LGBT, parece que ser não-hétero ou não-cis é mais um aspecto que torna o vilão degenerado, cruel, repulsivo e predatório. Essa imagem é usada todos os dias por gente preconceituosa para discriminar, e muitas vezes agredir, pessoas LGBT. Quando mostrados como alvo de chacota, parece que a própria existência de gays, lésbicas, bissexuais (enfim, qualquer pessoa que não seja hétero) ou de pessoas trans é considerada só isso: uma piada. Esse tipo de mentalidade coloca as pessoas em risco,  e contribui para aumentar as taxas de suicídio e agressões contra LGBT. A série Legion, por outro lado, é um bom exemplo de narrativa que consegue evitar o clichê, mesmo tendo um vilão gay.

Com frequência, vilões também são retratados como neurodivergentes ou com algum distúrbio psicológico. Isso já é um problema por si só, porque ter transtorno ou doença mental não faz de ninguém uma pessoa ruim e seria ótimo se Hollywood parasse de vilanizar quem é neurodivergente. Além do mais, equiparar sexualidade e identidade de gênero a transtorno mental é um equívoco, que contribui para disseminar mais preconceito. Não vamos esquecer que homossexualidade deixou de ser considerada doença mental apenas na década de 90, e a transsexualidade ainda é, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (embora a ciência discorde).

Por que queer coding é diferente de personagem LGBT?

Em regra, a intenção do queer coding não é acrescentar mais diversidade à história. Eles não têm intenção de escrever um personagem com quem o público possa se identificar, ou que seja algo além de uma caricatura grosseira. A ideia é criar um personagem com uma imagem negativa, que os autores possam demonizar ou usar como fonte das piadas de mal gosto. Muitas vezes nem fica claro que o personagem é queer! Gaston tenta forçar Bela a se casar com ele, Jafar faz o mesmo com a Jasmine. Em High School Musical, Kelsie foi transformada no par romântico de Ryan (apesar dos fãs expressarem desejo de ver o personagem se assumir gay, e do ator estar aberto à possibilidade). Ou seja, queer coding não é representatividade!

Representatividade é o que tem em Brooklyn 99Raio NegroCrazy Ex-girlfriend e Legion, onde o vilão é gay mas não é uma caricatura. Representatividade é quando Orange is the new black traz Sophia, mulher trans interpretada pela Laverne Cox, uma atriz que também é trans, e mostra os problemas que ela encara no sistema carcerário. Quando  a Cara gente branca tem um personagem que é negro e gay, e discute como ele tenta equilibrar essas duas partes da sua identidade. Até na nova versão de A Bela e a Fera, quando a Disney mostra que LeFou é gay e desenvolve melhor sua caracterização. Isso sim é representatividade.

Repitam comigo: queer coding não é representação, não é diversidade. Principalmente quando só apresenta vilões e personagens que são uma piada.

valenciabeth

Em Crazy ex-girlfriend Valencia, antiga rival de Rebecca, agora tem uma namorada! (Fonte)

Imagino que alguns de vocês estão pensando: “ei, não é só porque um personagem é o vilão que ele é ruim” e dizendo pra tela do computador “mas o Scar era o meu favorito!” E sabe de uma coisa? Eu concordo! Só que o post de hoje já está grande demais, por isso vamos continuar essa discussão na parte dois: será que queer coding também pode ser algo positivo? Não perca!


Curta a nossa página no Facebook e confira todas as atualizações do blog!