Raio Negro traz um herói negro e uma heroína lésbica

É muito bom ver que os super-heróis negros estão ganhando cada vez mais espaço nas telas. Além da série Luke CagePantera Negra, que estreia em fevereiro, tem o filme do Cyborg em 2020. E agora Jefferson Pierce, o Raio Negro da DC Comics, ganha a sua própria série de TV e se junta às grandes adaptações de quadrinhos.

Mais uma produção da Warner como Arrow, Flash e Supergirl, Raio Negro estreia hoje nos EUA e promete! Pra gente, vai sair na Netflix Brasil a partir do dia 23 de janeiro, (opa, já está no ar!) com um episódio novo por semana. Assistam o trailer aqui.

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Cress Williams como Raio Negro (Warner)

Jefferson é um herói aposentado que trabalha como diretor de escola. Seus poderes incluem manipulação de eletricidade e geração de campos eletromagnéticos, além das habilidades de luta. Pelo que vimos no trailer, a narrativa não foca só nos problemas encarados por ele, mas nos desafios da família: todos protagonistas negros. E o mais legal é que a diversidade não para por aí, não. Anissa, filha mais velha do Raio Negro, é lésbica e conhecida por lutar lado a lado com a sua namorada.

anissa_raio_negroInterpretada por Nafessa Williams, Anissa Pierce adota o codinome Tormenta – em inglês, Thunder. Enquanto a sua irmã caçula Jennifer (China Anne McClaintem poderes semelhantes aos do pai, a habilidade de Anissa é alterar a densidade do seu corpo sem mudar o volume. Isso deixa sua pele tão dura quanto o aço e praticamente invulnerável, até contra armas de fofo. É isso aí, gente: nós temos uma heroína lésbica que não pode morrer! Yay! As séries parecem ter “mania” de exterminar suas personagens lésbicas, então é um alívio saber que o nome da Anissa não vai aparecer em uma dessas listas. Além de tudo, Tormenta é uma personagem muito interessante nas HQs e tem um enorme potencial a ser explorado na história. Quando as habilidades dela se revelam, seus pais fazem com que Anissa prometa que vai estudar e se formar antes de virar uma super-heroína. Mais tarde, ela participa de uma equipe conhecida como Renegados.

A namorada dela, Grace Choi, será vivida por Chantal Thuy. Grace, que também fez parte dos Renegados, é descendente de uma linhagem de amazonas. Seus poderes são força e resistência sobre-humanas, e um elevado poder de cura. Ou seja, nós vamos ter um casal de mulheres lutando juntas na TV e nenhuma das duas pode morrer. Não sei vocês, mas pra mim Raio Negro já está começando bem. E não podemos esquecer que Chantal é uma atriz canadense de descendência vietnamita, o que acrescenta ainda mais representatividade à história.

Porque super-heróis negros são importantes

Não importa se é DC ou Marvel, dá pra contar nos dedos os heróis negros que a gente vê nas telas. Quando aparacem, eles ocupam lugar de coadjuvante. Por isso Pantera Negra é tão extraordinário: tem mais atores negros do que todos os últimos filmes da Marvel E da DC Comics juntos. Estamos falando sobre uma parte gigante do público que não consegue se ver representada nas histórias de super-heróis, como se essas narrativas não fossem feitas para eles. Isso é cruel. Ainda mais quando a gente pensa no apelo que esse tipo de programa tem para crianças, adolescentes e jovens adultos, que ainda estão formando a própria identidade. É algo que precisa mudar.

Em Raio Negro, os personagens principais são Jefferson e suas duas filhas. As garotas também tem superpoderes, então as personagens femininas vão ganhar destaque – o que é ótimo, já que as mulheres (principalmente mulheres negras) também costumam ficar para escanteio em adaptações de HQs. Isso é crucial pra que todos os fãs se vejam nos seus heróis, e não apenas os fãs homens e brancos (e heterossexuais, né).

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Jefferson cumprimenta um dos seus alunos (Warner)

No trailer, Anissa diz que o pai acreditava ser capaz de que salvar mais crianças como diretor da escola do que como herói. Mais do que um vigilante de uniforme, Jefferson é um bom pai, e um bom homem. Ele acredita no valor da educação e está genuinamente tentando melhorar a sua comunidade. Mesmo assim, quando a situação nas ruas fica insustentável, o Raio Negro larga a “aposentaria”. Ele acredita na educação, mas sabe que é preciso ir à luta quando a resistência se faz necessária. Jefferson Pierce é um ótimo exemplo de representatividade: ao invés de ser coadjuvante ou um estereótipo, é um personagem bem desenvolvido, complexo, autêntico. Assim como Anissa, que decide lutar por justiça mesmo diante da relutância dos pais.

E embora questão raciais não sejam o ponto central, o simples fato de trazer para a tela heróis como o Raio Negro e Tormenta é revolucionário. Vale notar que a série foi criada por Salim Akil e Mara Brock Akil, também negros. Nas palavras do próprio Salim, isso faz diferença: “É incrível ver Mulher-Maravilha ser dirigido por uma mulher. Isso teve efeito na personagem, na narrativa e nas nuances do filme. É a mesma coisa que minha esposa Mara e eu estamos fazendo com Raio Negro“. Quando Luke Cage foi lançada,  eu vi uma entrevista que ficou na minha cabeça. Pensando no racismo da nossa sociedade, e nas reações cada vez mais fortes ao preconceito, um dos produtores da série disse que “o mundo está pronto para um homem negro à prova de balas“. Achei fantástico, e tão, tão pertinente! Heróis como Luke Cage, Pantera Negra, Raio Negro e Tormenta são mais necessários do que nunca.

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Anissa com a sua primeira namorada na série, Chenoa (Fonte)

Que tal a gente curtir a série juntos e demonstrar o nosso apoio? Dia 23 eu vou estar com a Netflix ligada assistindo a estreia de Raio Negro, e espero que vocês também! E me contem o que vocês acharam, viu?


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Fica a dica: Uma das novas adaptações da Marvel, Fugitivos (em inglês Runaways), também tem uma heroína lésbica! Karolina Dean (na imagem ao lado) tem superpoderes e gosta de mulheres tanto na HQ quanto na série de televisão, além de brilhar como um arco-íris – literalmente! Nos quadrinhos ela se interessa pela colega de equipe Nico Minoru e não é correspondida, só que pelo jeito na TV isso vai ser diferente. Eu ainda não vi, mas para quem adora esse clima divertido de aventura e curtiu outras séries como Supergirl e Gifted com certeza é uma excelente pedida. No Brasil, Fugitivos é exibido pela Sony. mas vocês também podem assistir online aqui.


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Liga da Justiça, quadrinhos de super-heróis e machismo

Pra alguém que adora quadrinhos, eu quase não assisto filmes de super-herói. Algumas adaptações me decepcionaram (olha o que Vingadores faz com o Gavião) e eu perdi o interesse, mas isso está mudando com lançamentos recentes. Amei Mulher Maravilha, Pantera Negra parece incrível, mal posso esperar o segundo Deadpool. E agora Liga da Justiça que, pra mim, foi um filme bacana.

Dessa vez a DC escolheu um vilão simples, que aparece só como pretexto para unir os heróis. Liga da Justiça é mais sobre a equipe do que sobre essa nova ameaça, então o enredo foca nos mocinhos. Isso evita que algum deles fique “sobrando”, o que é um dos problemas dos filmes da Marvel, especialmente Guerra Civil. Sim, eu sei que Guerra Civil tem mais personagens, mas por que colocar uma dúzia de super-heróis na tela se você não consegue retratar direito metade deles? Liga da Justiça apresenta Cyborg, Flash e Aquaman e traz um pouco sobre cada um dos três, incluindo suas motivações pessoais, abrindo caminho para produções solo. O legal é que todos têm relevância, não é tipo “Batman e seus amigos”. Pelo contrário, se alguém fica de lado é o próprio Bruce, que orquestra esse nascimento da Liga mas dá espaço para os outros membros agirem.  O Superman (Henry Cavillfaz um retorno triunfal, enquanto a Mulher Maravilha (Gal Gadot) assume a liderança no campo de batalha e fora dele.

Como fã das HQs eu curti o clima de quadrinhos, as referências aqui e ali. A formação original da Liga – lá da década de 60 – está quase completa, e embora o Lanterna Verde ainda não tenha dado as caras, a gente sabe que ele vai aparecer. Mas isso não significa que Liga da Justiça não tenha problemas… Incluindo a roupa das amazonas.

Machismo no universo dos super-heróis

O universo dos quadrinhos ainda é muito machista, como outros setores considerados redutos geek. O machismo e a misoginia são recorrentes em histórias de super-heróis, persistindo nas adaptações pro cinema. Um dos problemas mais óbvios é a escassez de personagens femininas: o time de poderosos conta sempre com uma única mulher (ou duas, três já é demais). As editoras se defendem alegando que “garotas não curtem quadrinhos”, o que é uma falácia e contribui pra desestimular mulheres que são fãs do gênero. Daí a importância de filmes como Mulher MaravilhaMad Max: Fury Road e o inédito Pantera Negra, que traz um elenco feminino de peso.

Felizmente essa visão ultrapassada está ficando pra trás, e mulheres ganham cada vez mais destaque tanto nas HQs quanto no cinema. Lois Lane (Amy Adams) tem um papel importante aqui e Mera, a futura rainha de Atlântida (Amber Heard), também aparece em Liga da Justiça. Entretanto, ambas continuam sendo personagens secundárias,  que existem pra preencher o lugar de interesse romântico do protagonista. Um ponto legal sobre a Mulher Maravilha é que ela foge desse padrão. Apesar de ser a única mulher da Liga, Diana não se torna alvo dos sentimentos amorosos dos colegas, nem motivo de disputa, como costuma acontecer. Tirando um comentário de Alfred sobre Bruce estar interessado na herdeira de Temiscira, a atmosfera entre ela e a equipe é de respeito e camaradagem. Isso é importante porque as mulheres não existem para ser objeto do desejo masculino, e não devem ser tratadas como tal, mesmo na ficção.

A DC está se esforçando para incluir mais diversidade nas produções – um exemplo é o elenco de Esquadrão Suicida, ou a escolha do Cyborg pra Liga da Justiça. Interpretado por Ray Fisher (ator negro, como na HQ), Victor Stone não fez parte da primeira versão da Liga nas HQs. Além disso, Gal Gadot é israelense e judia, Jason Momoa nativo havaiano (polinésio) e Ezra Miller é abertamente queer (Ezra se identifica como não-binário e não sente necessidade de definir sua sexualidade).

Mulher Maravilha X Liga da Justiça

Apesar de tudo, Liga da Justiça tem sim cenas machistas. O uniforme de Diana é o mais “pelado” do grupo (herança das HQs) e durante uma luta, o Flash cai em cima dos seios dela – será que era pra ser engraçado? Essa “piada” só não é mais desagradável pela interpretação dos próprios atores: o Flash fica mais desconfortável do que Diana, e não se aproveita nem se diverte com o “acidente”. Ainda bem, né?

Não por acaso, o filme da Mulher Maravilha foi dirigido por Patty Jenkins, enquanto a Liga conta com diretores homens. Esse olhar masculino (conhecido por “male gaze”) faz diferença na forma como personagens femininas são retratas na tela. Basta reparar nas armaduras que as amazonas vestem em ambos os filmes.

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Amazonas em Mulher Maravilha (Fonte) e em Liga da Justiça (Fonte)

A troca de figurino causou revolta entre os fãs, que reclamam das novas vestimentas deixarem partes vitais do corpo das guerreiras desprotegidas. É uma crítica comum em jogos, onde as armaduras das personagens femininas costumam ser muito sexualizadas e nem um pouco úteis. E não para por aí, não. O penteado solto e esvoaçante pode ser mais “sexy”, mas as tranças firmes e os fios presos com certeza funcionam melhor em uma batalha. Afinal, as amazonas são guerreiras!

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Brooke Ence em Liga da Justiça e em Mulher Maravilha (Fonte)

Em Mulher Maravilha as amazonas até são mostradas com trajes mais reveladores, mas como roupa de treino, confortável. Durante a luta, elas usam armaduras adequadas pra guerra. A figurinista Amanda Weaver fez uma excelente análise no Twitter, que depois virou post no We So Nerdy, analisando as inspirações para as guerreiras de Temiscira e comparando com peças históricas, usadas por guerreiros reais. Como esse fragmento de uma armadura romana, feita por grossas tiras de couro sobrepostas:

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Museu de Arqueologia, Universidade de Michigan

E aqui a armadura da General Antíope (Robin Wright), em Mulher Maravilha, que segue o mesmo padrão:

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General Antíope (Warner)

A diferença é que o figurino da batalha em Mulher Maravilha foi baseado em armaduras de verdade, feito pra parecer coerente ao invés de sexy. O post da Amanda é bem legal e eu recomendo dar uma olhada (apesar de estar em inglês, tem várias imagens e dá para entender o que ela mostra). Outro detalhe interessante é essa placa no peitoral, que se estende até as laterais e protege órgãos internos como o coração.

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Em destaque, Anne Wolfe em Mulher Maravilha

Comparando com as roupas vestimentas pelas amazonas em Liga da Justiça, dá pra ver qual delas apela para sexualização, para satisfazer o olhar masculino. Outra coisa que a gente percebe no filme da Liga é a atitude mais invasiva da câmera. Não acho que eles tenham diminuído a saia da Diana, mas a posição em que algumas cenas são filmadas mostram “por baixo” da roupa dela, o que não acontece em Mulher Maravilha (poxa, tem uma hora que ela desce do jato e a gente vê a bunda da Gal). É o tipo de cena que acontece quando os homens por trás das câmeras (diretores, roteiristas e produtores) não conseguem deixar de enxergar as mulheres como objeto. A título de curiosidade, um exemplo que tem o posicionamento de câmera ainda melhor que Mulher Maravilha é Mad Max: Fury Road (e talvez eu faça um post só sobre isso em breve).

Se tem uma coisa que eu admito é que em Liga da Justiça os heróis masculinos também apelam pra sexualidade. E como! O Superman está sem camisa metade do tempo (povo dizendo que o bigode dele foi removido por tecnologia digital e ficou estranho, quando eu nem reparei porque não estava olhando pra cara dele), para não falar do Aquaman, de novo, sem camisa. Não que isso resolva o problema da sexualização das mulheres nas HQs. Existe um padrão duplo na nossa sociedade, objetificação masculina não é a mesma coisa que objetificação feminina, e a falta de protagonismo das mulheres em filmes de super-herói continua sendo uma falha grave. Mas, pelo menos, essa é uma inversão interessante do clichê machista.

 


Uau, esse foi um textão! Resumindo: a DC está incluindo mais diversidade nos filmes, mas precisa fazer melhor se quiser agradar um público que não se restringe a “caras brancos e héteros”. E eu espero que faça mesmo, porque eu adoro os personagens da editora! Então por hoje é só, pessoal.


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Sim, Mulher Maravilha é excelente, MAS…

Eu adorei o filme. Parecia uma criança no cinema, com a atenção fixa na tela, os olhos brilhando e a tiara da Diana – brinde do Cinemark – na cabeça. No que diz respeito à qualidade do entretenimento, Mulher Maravilha esmaga outros filmes de herói. Além de genuinamente divertido, é uma ode ao poder feminino e inclui comentários sobre diversidade. Por isso mesmo, o tratamento dado aos personagens com deficiência me decepcionou muito. Vamos analisar parte por parte, então?

As Amazonas, girl power e diversidade

Ann-Wolfe-as-Artemis-in-Wonder-Woman (1)Sem dúvida o ponto alto de Mulher Maravilha. Quem não se apaixonou pelas Amazonas? Mérito da diretora Patty Jenkins, que escolheu lutadoras mesmo, atletas olímpicas e até fazendeiras para compor o exército de Temiscira. A boxeadora americana Ann Wolfe (na foto), considerada a melhor lutadora do mundo, está incrível no papel de Artemis. Curti demais as cenas de luta das mulheres e achei o máximo terem sido feitas à luz do dia. A gente sabe que batalhas cheias de efeitos especiais e lasers coloridos ficam mais legais à noite, mas para mim as cenas da praia, no início do filme, são muito mais épicas. Inclusive aquelas em que as guerreiras estão “apenas” treinando. Espero que o próximo filme traga as Amazonas de novo, e com maior destaque. Eu adoraria assistir um épico que se passasse inteiramente na ilha (também analisei as amazonas em Liga da Justiça, fazendo uma comparação com Mulher Maravilha).

Gostei da inversão daquele clichê onde a personagem feminina, em geral interesse romântico do mocinho, morre só pra alavancar o crescimento do herói. É um artifício machista e já batido (pense na Gwen Stacy de Homem-Aranha, Mary de Supernatural, entre tantas outras). Em Mulher Maravilha, é Steve Trevor (Chris Pine) quem faz esse sacrifício para que Diana (Gal Gadot) consiga despertar seu poder verdadeiro. Além disso, sempre que ele manda a heroína ficar pra trás por ser “perigoso” ela ignora e vai pra ação, pronta para salvar o dia. E sozinha, se for necessário. Outro detalhe que eu gostei é que no filme, o papel de usar seu charme para seduzir uma vilã cabe de novo a Steve. É mais uma subversão de um clichê machista, aquela ideia da femme fatale que usa sua aparência e sensualidade para conseguir o que quer.

O filme também não perde a oportunidade de inserir comentários sociais, usando os companheiros de Diana para isso. Como Charlie (Ewen Bremner), o ex-soldado que sofre de Transtorno do estresse pós-traumático por causa da participação na guerra. Em um desabafo, o indiano Sameer (Saïd Taghmaoui) fala quDCNqNaGXoAEbS4ze queria ser ator, mas não tem a cor de pele certa. Já o índio kainai apelidado de Chefe, conta a ela que os ingleses dizimaram seu povo e os expulsaram de suas terras. Chefe é interpretado por Eugene Brave Rock (com Gal Gadot na foto ao lado) que também faz parte dos kainai, e em sua primeira cena ele se apresenta à Diana no dialeto do seu povo. O ator Brave Rock pode escolher as roupas e acessórios que o personagem usaria, garantindo a representação fiel e respeitosa da Nação Kainai. Sem que Mulher Maravilha perca o ar descontraído, a própria Diana Prince critica abertamente o sexismo, a indústria da guerra e outros problemas sociais cada vez que esses assunto vêm à tona. 

Doutora Veneno e o estereótipo “vilão deficiente”

Embora Mulher Maravilha acerte em vários momentos, o filme erra feio ao retratar sempre os personagens com deficiências físicas visíveis como vilões. É outro estereótipo nocivo e, infelizmente, muito comum tanto no cinema quanto nos quadrinhos. O maior exemplo (mas não único) aqui é a Doutora Maru, ou Doutora Veneno (Doctor Poison em inglês).

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Elena Anaya como Doutora Maru (Fonte)

O problema é que a deficiência vira um dos aspectos que fazem aquele personagem cruel e degenerado. Muitas vezes ele se torna o vilão em busca da cura (como o Dr. Connors, o Lagarto de Homem-Aranha) ou é rancoroso, movido pela vingança e quer punir as pessoas “normais”, feito o Capitão Gancho de Peter Pan. Além disso, vilões como Maru reforçam ideias preconceituosas que a sociedade tem – por exemplo, encarar a deficiência como uma punição para pessoas ruins. Algo que deveria ser uma simples característica física se torna sinônimo de problemas morais: falta de empatia, sadismo, inclinação pro mal. Esse artifício é usado à exaustão para caracterizar um personagem como repulsivo e o vilão como assustador, a ponto de dar origem a todo um sub-gênero do terror. É só a gente lembrar de Freddy Krueger, Jason e Leatherface, e até mesmo Erik no clássico O Fantasma da Ópera.

A raiz desse clichê, o “vilão deficiente”, é a crença eugenista de que as pessoas com deficiência têm predisposição para loucura, criminalidade e violência, entre outros comportamentos perigosos. Basicamente, representa todos os preconceitos que a sociedade tem contra essas pessoas, ao mesmo tempo que os alimenta. Isso não só promove a exclusão, como coloca essas pessoas em risco e serve como pretexto para justificar maus tratos. O que é ainda mais prejudicial porque a gente já não vê muitos heróis com deficiência na ficção – e, quando vê, eles costumam ser apagados ou mal representados.

Em Mulher Maravilha, a Dra. Veneno com sua face desfigurada representa o que há de pior na humanidade. Suas cicatrizes são resultado das experiências que a cientista realiza, deixando a mensagem subjetiva de que “ela mereceu” isso. De certa forma, essas cicatrizes que fazem com que ela seja considerada “feia” ou “estranha”, são culpa dela mesma. É mais uma variação do estereótipo “vilão deficiente” (nos quadrinhos, levado ao extremo com Herr Starr de Preacher) e, de novo, promove um conceito nocivo sobre um grupo de pessoas já marginalizado. Eu percebi que o filme tentou subverter o clichê: a cena que Maru tira a máscara e revela o rosto desfigurado é justamente o momento em que Diana a reconhece como ser humano e resolve não matá-la, numa tentativa de humanizar e personagem. Legion faz algo semelhante com um vilão gay, mas não acho que Mulher Maravilha conseguiu o mesmo efeito que a série. Principalmente porque no filme todos os vilões tem alguma deficiência física (na forma Ares humana manca e usa bengala, Ludendorff tem um problema que afeta a capacidade física), ao passo que nenhum dos heróis apresenta essa característica.

Em tempo: deformações faciais e cicatrizes como as da Dra. Veneno são consideradas deficiências quando prejudicam a vida pessoal e atrapalham a forma como alguém se relaciona em sociedade. Um exemplo é o Deadpool, outro herói dos quadrinhos que é constantemente hostilizado pela sua aparência, e por isso desenvolveu problemas graves de auto-imagem e fobia social.

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Por um lado, considero Maru uma vilã bem interessante. Ela foi retirada dos quadrinhos, com sua primeira aparição no começo da década de 40, e é uma ótima escolha para antagonista. Gostei muito da decisão em manter o ar “cartunesco” tanto no visual quanto na interpretação, o que combina com o clima divertido do filme e é uma bela homenagem aos clássicos. Em determinado momento a Dra. Veneno até usa um par de luvas igual na HQ. Só gostaria que eles não tivessem usado um clichê tão negativo para construir a personagem, promovendo uma representação tão mal informada e prejudicial sobre pessoas com deficiência.


Para escrever esse post, eu consultei o TV Tropes e o excelente artigo Doctor Poison and Disability in Wonder Woman. Recomendo a leitura!


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