Uma Mulher Fantástica e a visibilidade trans

Filmes com personagens transexuais (especialmente personagens que morrem de uma forma trágica no final) não são uma novidade. De Meninos não choram até Um amor na trincheira, passando por Albert Nobbs e A garota dinamarquesa – sempre atrizes e atores cis, e sempre uma tragédia. Agora, um filme onde é uma mulher trans que interpreta a protagonista, aí sim!

No chileno Uma Mulher Fantástica, que levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a bela e talentosa Daniela Vega interpreta Marina, uma mulher forte, decidida e disposta a lutar com tudo pelos sonhos. É a minha recomendação de hoje, mais um para a nossa lista de vencedores do Oscar em 2018. Foi mesmo o ano da América Latina, né?

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Marina em cena de Uma mulher fantástica (Fonte)

Por que é importante a atriz ser trans?

Pessoas LGBT em geral são pouco (e, muitas vezes, mal) representadas na mídia, mas pessoas trans são quase invisíveis! Ainda mais em grandes produções. Até na lista que eu fiz sobre filmes com personagens trans, a maioria deles traz pessoas cis no papel. E mesmo que um filme seja incrível, é sempre meio decepcionante ver que o personagem trans é feito por alguém cisgênero. Mais ainda quando é alguém do sexo “oposto”, como Lee Pace em Um amor na trincheira. O ideal é que mulheres trans fossem interpretadas por mulheres (sejam elas trans ou não).

Em tempo: Quando um homem cis interpreta uma mulher trans, por mais dedicado que seja o ator e por melhor que seja seu trabalho, isso passa a ideia de que a personagem ainda é um “homem vestido de mulher”, ou um “homem que quer ser mulher”. Por isso mesmo, é importante quando alguém do mesmo gênero faz o papel. Em Romeos, o Lucas é um garoto trans interpretado por Rick Okon, um ator cisgênero.

daniela_vegaTirando um ou outro nome de maior destaque, como Laverne CoxCandis Cane, nós não temos muitos exemplos de atrizes trans que ganham espaço em Hollywood. E isso reflete não ausência de talento, nem falta de atrizes, mas o preconceito enorme da indústria do cinema. Incluir pessoas trans na frente das câmeras é não só uma questão de representatividade, mas de visibilidade trans. É mostrar para os jovens queer que estão assistindo, sentados na poltrona do cinema ou no sofá de casa, que é possível ter um futuro sendo trans. É fazer uma garota trans se sentir linda hoje, bem consigo mesma, porque ela vê uma mulher como ela na tela do cinema. Aliás, vocês viram como a Daniela estava linda na cerimônia do Oscar? E que voz! Assim como Laverne e Cadis, Marina é talentosa e tem de tudo para inspirar garotas ao redor do mundo, e é legal ver uma atriz latina ganhando tanto destaque.

“Não viemos pedir autorização para sermos quem somos. Sejamos trans ou não, nós simplesmente somos como somos.”

Daniela Vega

 

Exibir diversidade na mídia é uma maneira de naturalizar essas diferenças, mostrar ao público que a sociedade é diversa mesmo, e tudo bem. Inclusive, toda a repercussão causada pela vitória de Uma mulher fantástica no Oscar impulsionou mudanças reais no Chile. Na terça-feira passada, a equipe responsável pelo filme – incluindo Daniela e o diretor Sebastián Lelio  foram convidados pela presidenta chinela Michelle Bachelet para visitar o Palácio de La Moneda e discutir os desafios enfrentados pela comunidade trans. O encontro acelerou a aprovação de um projeito de lei que garante o direito de alterar o nome de registro e o sexo nos documentos. Ou seja, uma conquista no tapete vermelho, e outra grande conquista para a comunidade LGBT no Chile!

Fica a dica pra vocês assistirem Uma mulher fantástica, com a linda Daniela Vega. Aqui tem o download, com legendas. Não deixem de conferir.


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My Mad Fat Diary: gordofobia, saúde mental e sororidade

Gordofobia é, em poucas palavras, o preconceito contra pessoas gordas. Ou seja, é o que leva grande parte da nossa sociedade a discriminar pessoas que não se encaixam no padrão de peso definido como ideal ou aceitável. Não é frescura, não é mimimi, não é vitimismo. É um problema sério que atrapalha a vida de muita gente todos os dias, e colabora para aumentar a incidência de transtornos alimentares. A primeira vista, a gordofobia pode não parecer tão nociva quanto outras formas de preconceito (como homofobia e racismo, por exemplo) mas gordofobia também mata. O pior é que essa noção de que ser gordo é algo errado está tão enraizada na sociedade que parece difícil a gente conseguir se livrar dela.

Por isso, séries com uma protagonista gorda como a Rae Earl de My mad fat diary são tão revolucionárias quanto raras de encontrar (menção honrosa para Drop Dead Diva, que eu adoro). Ainda mais quando o foco da história não é fazer piadas com o peso da personagem, nem forçá-la a emagrecer ou mudar sua aparência pra se encaixar melhor em um ideal de beleza tóxico e discriminatório.

Então, My mad fat diary não é exatamente uma novidade, já que a série foi lançada em 2013. O bom é que ela está completa e os episódios estão disponíveis no Youtube! A primeira temporada começa aqui, é só seguir a lista. Depois tem este link pra segunda temporada, e este aqui para a terceira.

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Sharon Rooney como Rachel Earl, a nossa Rae (Fonte)

Rae enfrenta todos os problemas que qualquer adolescente conhece bem: insatisfação com o próprio corpo, insegurança, brigas com os pais… E, além disso, outros problemas nem tão comuns assim.

No começo da primeira temporada de My mad fat diary, Rae é liberada de um hospital psiquiátrico onde passou alguns meses internada após uma tentativa de suicídio. Com a ajuda do psicólogo Kester (Ian Hart) ela tenta voltar à rotina, sem deixar de cuidar da saúde mental e física. Rae se reaproxima de Chloe (Jodie Comer), uma antiga amiga de infância, e conhece a turma dela: Izzy, Chop, Archie e Finn (Nico Mirallegro). Rachel tenta se encaixar no grupo, mas ao mesmo tempo não quer perder as amizades que fez no hospital, como Danny (Darren Evans) e Tix (Sophie Wright). Isso fica complicado quando ela decide não contar para os novos amigos sobre a sua internação, ou sobre os seus desafios com a saúde mental. 

No meio de tudo, Rae Earl descobre novos amores, e a importância da amizade.

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Finn e Rae em My mad fat diary (Fonte)

A série é maravilhosa, apesar de abordar assuntos difíceis, como depressão, suicídio, transtornos alimentares, auto-mutilação e aborto. Vale a pena assistir. É um retrato muito honesto de como é lidar com ansiedade, com pensamentos intrusivos e ideação suicida, com a baixa auto-estima e o pavor de comer na frente das outras pessoas. Rae, apesar de tudo isso, é uma garota incrível, e a gente se apaixona pela personagem enquanto assiste a própria Rae aprender a gostar de si mesma. E tem como não torcer por um dos casais mais fofos da telinha?

My mad fat diary também traz lições importantes sobre sororidade, amizade e apoio entre mulheres. É bacana ver esse sentimento nas relações entre Rae e a melhor amiga Chloe, e entre protagonista e sua mãe. Não que não aconteçam disputas e brigas entre as personagens femininas (principalmente Rae e Chloe) mas os momentos de conflito servem para fortalecer a relação delas, das mulheres, e não apenas como mecanismo para impulsionar a parte romântica do enredo. É sempre legal quando a série ou filme foge dos estereótipos e traz personagens femininas que são complexas e bem escritas, e se parecem com pessoas reais, humanas.

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Rae e Chloe (Fonte)

Já recomendei a série para vários amigos e vou recomendar para vocês também. Em especial porque, mesmo tocando nesses temas complicados, a história tem uma atitude empoderadora e otimista, encoraja a gente a se amar mais, e a acreditar que a gente também merece ser feliz. Assim como a Rae!

A série ainda se passa nos anos 90, então tem aquela clima gostoso de nostalgia para a nossa geração. Eu adoro, e acho que vocês também vão curtir.


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O humor agridoce de Lady Bird

– Eu só queria que você gostasse de mim.
 É claro que eu te amo.
– Mas você gosta de mim?

 

Este ano resolvi assistir todos os indicados ao Oscar, começando por A forma da água. O trecho acima é do segundo que eu vi,  Lady Bird, um diálogo entre a protagonista e a mãe dela. O filme recebeu um título engraçado em português, meio brega (Lady Bird: A hora de voar), mas não deixe isso te desencorajar! É uma excelente comédia dramática, muito gostosa de assistir. Veja o trailer aqui.

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Saoirse e Laurie Metcalf, como mãe e filha (Fonte)

Christine McPherson (Saoirse Ronaninsiste em ser chamada de Lady Bird até pela sua família. Ela estuda numa escola católica em Sacramento, e detesta tudo isso: a cidade sem graça, o colégio antiquado, ter que arrumar o quarto todos os dias e, mais ainda, ter que obedecer a sua mãe. No fundo, ela não é assim tão diferente de qualquer outro adolescente, mesmo que se esforce tanto pra ser.

E essa é a sacada genial do filme.

Lady Bird não é uma história de amor, não tem nenhum grande drama. Não é nem uma grande aventura. É só um filme sobre o cotidiano. Lady Bird se apaixona por um garoto, depois por outro, e se decepciona e tem o seu coração partido  como acontece nessa idade. Às vezes, ela conta uma mentira pra impressionar um paquera, ou aquela colega da sala. Ela briga com a mãe e com o irmão mais velho, e briga até com a melhor amiga Julie, como qualquer garota. E depois faz as pazes. Mesmo o seu grande sonho – como acontece com tantos grandes sonhos  no final das contas, não é isso tudo.

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Julie (Beanie Feldsteine Christine (Fonte)

O que torna o filme incrível é justamente a forma que ele conta essa história banal, tão comum. Parece um conjunto de momentos familiares, situações que poderiam muito bem ter acontecido comigo, ou com a menina que sentava na cadeira ao lado no ensino médio. Algumas cenas são leves e divertidas, faz a gente rir junto com os personagens. Outras deixam um gosto incômodo na boca. O diálogo acima, que confronta o amor da mãe com a necessidade de aprovação da filha, é uma delas.

A história soa real, seus personagens parecem feitos de carne e osso. Especialmente as mulheres. Isso porque nenhuma delas é reduzida a um estereótipo, como a gente está acostumado a ver no cinema. Nenhuma delas é apenas “a patricinha” ou “a mãe chata”, mesmo quando a personagem se encaixa no papel. Jenna, a garota popular que estuda com Lady Bird, pode até ser meio egoísta e superficial, mas também é capaz de ter uma atitude legal (porque ela é um ser humano, não um clichê que ganhou vida). E por mais que Marion pegue no pé de Chistine, tem horas que a gente percebe que é a mãe quem está com a razão.

O olhar sensível da diretora e roteirista Greta Gerwig faz toda a diferença. Ela também estudou em um colégio religioso e, embora a Marion McPherson não seja baseada na sua própria mãe, ela expressa muito bem o choque presente em toda relação familiar. É difícil não se identificar com isso, pelo menos em alguns momentos.

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Danny (Lucas Hedges) e Christine (Fonte)

Sobre diversidade, algumas escolhas do roteiro chamaram minha atenção. A despeito de tanto os pais quanto a protagonista serem brancos, o irmão de Christine, Miguel, é latino. Algo que não é mencionado até acontecer uma discussão entre eles e, mesmo assim, sempre tratado com naturalidade. Não fica explícito (e nem precisa), mas a gente sabe que ele provavelmente foi adotado por Marion e Larry. Já Shelly, a namorada de Miguel que mora na casa dos McPherson, é negra.

Isso desmonta aquele mito de que quando um protagonista é branco, não tem como o autor mostrar diversidade na família dele. É claro que tem! E, de novo, esse é um dos pequenos detalhes que fazem a narrativa parecer tão próxima da realidade.

Para concluir, eu gostei bastante do filme. Comédia dramática, quando bem feito, é o meu gênero favorito. Não me canso de assistir Shortbus, Os excêntricos TenenbaumsComendo os ricos. Lady Bird é sem dúvida bem mais sutil que esses três (ou seja, menos perverso), mas seu humor agridoce me conquistou do mesmo jeito.


Em tempo: Levei um susto quando não vi Pantera Negra indicado a nenhuma categoria (qual é, nem figurino? Que a gente SABE que está no papo?). Aí eu lembrei que o Oscar premia filmes lançados no ano anterior, e embora A forma da água e Lady Bird tenham estreado aqui no Brasil junto com Pantera Negra, eles foram lançados nos EUA ainda em 2017. Agora sim, está tudo explicado.


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