O manicômio de Barbacena e o holocausto brasileiro

Já que 18 de maio é o Dia da Luta Antimanicomial, hoje eu trouxe para vocês a história do Hospital Colônia de Barbacena. Uma instituição psiquiátrica que dizimou sessenta mil internos, considerada um verdadeiro campo de concentração. E quero aproveitar a oportunidade para recomendar um ótimo livro sobre o tema: O Holocausto Brasileiro, da Daniela Arbex

Eu achei o livro pra baixar em PDF, e o documentário de mesmo nome, produzido pela jornalista, está disponível no Youtube.

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Pacientes do Colônia eram abandonados no pátio do hospital à mercê do frio, da fome e de doenças que prosperavam nas péssimas condições sanitárias

Também conhecido como manicômio de Barbacena, o Hospital Colônia foi inaugurado em 1903, com objetivo de fornecer tratamento aos pacientes com doenças mentais. Só que o lugar acabou virando um circo de horrores, onde os internos viviam em condições subumanas e eram diariamente submetidos a práticas análogas à tortura. Impossível não se revoltar com os relatos de sobreviventes e funcionários. Principalmente quando a gente percebe que eles se referem a um passado muito, muito recente.  

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As pessoas internadas – ou melhor, presasali dentro perdiam toda a sua dignidade. Passavam fome e frio. Chegavam a comer ratos e beber água do esgoto para sobreviver. Muitos usavam trapos ou andavam nus no terreno da instituição, mesmo nas noites geladas da região de Barbacena. Ao invés de cama, eles dormiam sobre punhados de capim largados no chão. Doenças se alastravam. A sujeira e as condições deploráveis de higiene atraíam baratas e moscas, que pousavam aos montes sobre os corpos prostrados dos doentes como se eles já estivessem mortos. Castigos físicos e espancamentos eram recorrentes. Os medicamentos eram distribuídos sem critério. Homens se misturavam às mulheres e crianças, com pouca ou nenhuma supervisão dos funcionários. O Colônia nunca foi um hospital, mas uma máquina de extermínio.

Sobre a alcunha de “holocausto brasileiro” e a comparação com os antigos campos de concentração do Nazismo, a jornalista Eliane Brum comentou:

“As palavras sofrem com a banalização. Holocausto é uma palavra assim. Em geral, soa como exagero quando aplicada a algo além do assassinato em massa dos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra. Neste livro, porém, seu uso é preciso. Terrivelmente preciso.”

Eliane Brum, que assina o prefácio
de O Holocausto Brasileiro

 

A superlotação sempre foi um problema no Colônia, mas durante a pior fase morreram dezesseis pacientes por dia. Uma realidade que só começou a mudar nos anos 80, após décadas de crueldade e várias denúncias sobre os abusos praticados ali dentro. O mais absurdo é que a primeira denúncia foi feita em 1961, quando o fotógrafo Luiz Alfredo publicou na revista O Cruzeiro imagens que mostravam a verdadeira cara do hospital psiquiátrico de Barbacena. No documentário, Luiz relembra a experiência, e fala sobre as seis horas que passou dentro do Colônia: “é como se fosse um pesadelo”. Segundo o fotógrafo, em toda a sua carreira, nada se compara ao horror que ele viu ali.

São essas imagens que ilustram o livro-reportagem de Daniela Arbex. Embora na época tenham causado indignação no público da revista, é doloroso pensar que não foram o bastante para acabar com o manicômio ainda na década de sessenta. Desde que eu li o livro, uma coisa que não me sai da cabeça é que essas fotos saíram em 1961, e o Colônia continuou funcionando. Por mais vinte anos.

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Entre seus internos, o manicômio de Barbacena abrigou também dezenas de crianças, que recebiam o mesmo tratamento cruel dos adultos

Em 1979 a situação desumana do hospital veio à tona outra vez, quando o manicômio abriu as suas portas para a imprensa. O jornalista Hiram Firmino escreveu uma série de reportagens sobre o local, sob o título Nos porões da loucura. Helvécio Ratton, então um cineasta iniciante, realizou o documentário Em nome da razão na mesma oportunidade. Ficava cada vez mais difícil para o governo e para a sociedade ignorarem os abusos que se desenrolavam por trás das grades do Colônia.

Naquele mesmo ano, o psiquiatra Franco Basaglia – pioneiro na luta antimanicomial –  visitou a instituição. Chocado, o italiano declarou que em nenhum lugar do mundo viu uma tragédia tão grande, e comparou o Colônia a um campo de concentração nazista. Suas declarações repercutiram na mídia brasileira e internacional, chamando a atenção para forma como Minas Gerais tratava seus “loucos”. Ambos os episódios influenciaram a extinção do manicômio de Barbacena, embora ela só tenha acontecido anos depois. Em 1996, o antigo prédio se tornou o Museu da Loucura.

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Era comum ver internos caídos no chão, em posições atrofiadas, sem que os funcionários fizessem nada para ajudar ou descobrir o motivo

O livro O Holocausto Brasileiro aponta, também, os interesses políticos e financeiros mascarados pelas atividades do hospital. Incluindo o extenso comércio de cadáveres para laboratórios de anatomia das faculdades brasileiras, como UFMG e UFJF. Apesar da prática ser ilegal, existem registros da venda de mais de 1800 corpos.

Além de tudo, 70% dos pacientes internados na instituição não foram diagnosticados com nenhum transtorno ou doença mental. Alguns tinham deficiências físicas ou eram epiléticos, e foram abandonados pela família. Outros, eram alcoólatras. Muitos apenas não se encaixavam nos padrões impostos pela sociedade: homossexuais, prostitutas, rebeldes. Adversários de gente poderosa. Moças de família desonradas, empregadas violentadas pelos patrões que acabaram engravidando, esposas que eram trancadas no hospício para que o marido pudesse ir morar com a amante. Mais uma prova de que o Colônia nunca foi um lugar para promover saúde mental. Pelo contrário, era como um depósito de gente, onde as autoridades prendiam os enjeitados sociais.

Nas palavras da jornalista Daniela Arbex, “os anos no Colônia consumiam os últimos vestígios de humanidade” dessas pessoas.

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E nós não podemos permitir que a história delas seja esquecida. Jamais. A gente precisa conhecer, e falar a respeito, e aprender, para não deixar que algo assim aconteça de novo. É por causa disso que hoje, no Dia Internacional da Luta Antimanicomial, quero pedir a vocês que leiam o livro. Vejam o documentário. É algo tão recente, e as gerações mais novas – a minha geração – sabem tão pouco a respeito. A gente ouve falar sobre os hospícios e manicômios, e parece coisa de outros séculos, quando o Colônia estava a pleno funcionamento poucas décadas atrás. A gente ainda estuda a Segunda Guerra e o Nazismo na escola, e fica horrizado com os campos de concentração de Hitler, sem se dar conta que algo tão parecido acontecia no nosso próprio país, sob as vistas de todo mundo.

Mais do que não esquecer a história do Hospital Colônia, a gente tem que entender que embora tenha sido o maior hospício do país, e talvez o mais cruel, ele não foi o único. A gente precisa compreender que instituições assim ainda existem, e continuam sendo um problema gravíssimo no Brasil. Principalmente porque tem gente que, mesmo hoje, acredita que isso seja uma solução.

 

Em tempo: Todas as fotos acima foram retiradas do livro O Holocausto Brasileiro.


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Deadpool: sexualidade, padrões de gênero e histórico de abuso

O Deadpool é um dos meus heróis favoritos, e eu já estou na contagem regressiva para a estreia do segundo filme! Até lá, decidi fazer um perfil sobre ele. Um Dossiê Deadpool, abordando pontos cruciais da sua caracterização: a sua sexualidade, a forma como ele desafia padrões de gênero e o histórico de abuso que o personagem enfrenta.

É um jeito legal de apresentar o mercenário pra quem não é familiarizado com as HQs, e assim a gente entende melhor porque tanta gente curte o Deadpool!

Origem

Wade Wilson, vulgo Deadpool, foi criado por Rob Liefeld e Fabian Nicieza pra Marvel em 1991. Ele é uma paródia do mercenário Slade Wilson, o Deathstroke da DC Comics, um vilão no universo do Batman e companhia. Conhecido como “mercenário tagarela”, Wade fez sucesso entre os fãs e ganhou uma revista própria, mas suas histórias nunca perderam o tom satírico e debochado tão característico do personagem.

deadpool_comicsNos quadrinhos, é normal que cada personagem tenha a sua história reescritas diversas vezes. Geralmente alguns pontos-chave são mantidos, e se tornam consenso entre os fãs como a sua “origem”. É o caso de Bruce Wayne, que teve os pais mortos durante um roubo e depois se tornou o Batman; e do Peter Parker, o Homem-Aranha, criado pela tia May e pelo tio Ben, que decide virar herói quando Ben é assassinado. Sobre Deadpool, algo que se mantém constante nas suas histórias é que ele cresceu em um lar abusivo, sofrendo maus tratos quando criança.  Na série original, intitulada Deadpool, Wade não conheceu o pai e a mãe era alcoólatra, violenta. Já em Cable & Deadpool, a mãe morreu de câncer e ele foi criado pelo pai, um ex-militar também abusivo. A infância traumática tem uma grande influência no caráter do mercenário tagarela.

Já adulto, Wade (que é canadense, feito o Logan) começou a atuar como mercenário e mais tarde entrou pro exército, onde foi diagnosticado com um câncer no cérebro. Sem nenhuma expectativa de sobrevivência, ele decidiu participar do projeto Arma X – uma iniciativa do governo cujo objetivo é criar a arma perfeita. No primeiro filme, essa parte é bem retratada, e fiel à narrativa dos quadrinhos.

Pra refrescar nossa memória, o programa Arma X induz mutação nos pacientes através de experiências cruéis, similares à tortura. Curiosamente, o X do nome não diz respeito aos mutantes nem aos X-Men, mas ao numeral 10 em algarismos romanos! Isso porque vários projetos semelhantes foram feitos ao longo dos anos, inclusive por instituições diferentes, mas sempre associados ao governo (seja dos EUA ou Canadá) e sempre com fins militares. O primeiro, Arma I, teria sido o Projeto Supersoldado, que deu origem ao Capitão América. Logan (o Wolverine Original) e Laura Kinney, conhecida como X-23, foram submetidos ao Arma X como o Deadpool. E o programa continua ativo.

Durante o experimento, Wade manifestou o fator de cura, uma mutação parecida com a do Wolverine. O problema é que o câncer não foi curado. As células cancerosas do seu corpo se reproduzem em alta velocidade, ao mesmo tempo que o poder de cura combate a doença. É por isso que o Deadpool tem o corpo inteiro cheio de cicatrizes: existe uma batalha constante entre o avanço do câncer e a regeneração de seus órgãos, incluindo a epiderme. Aliás, muita gente acha que por causa dos poderes o Deadpool não sente dor, o que não é verdade. Wade não apenas é capaz de sentir dor, mas sofre com terríveis dores crônicas por causa do câncer. Assim como a deformação da sua aparência, a dor incessante afeta muito a saúde mental do personagem.

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Deadpool mostra as suas cicatrizes em Deadpool #1, enquanto diz “sim, a vida é bela!” Aqui no Brasil, a história foi publicada em Meus queridos presidentes pela Panini

Do programa Arma X, Wade Wilson é levado pro hospício. Como no filme, ele adota o codinome Deadpool (a “loteria da morte”) por causa de uma aposta sobre quem iria morrer primeiro, embora na HQ ela seja feita entre médicos do hospital psiquiátrico. Ao escapar do hospício, Wade volta a trabalhar como mercenário até sua consciência falar mais alto, quando ele admite que sempre quis ser um herói.

Pansexualidade

Embora nas HQs o Deadpool ainda não tenha dito com todas as letras que é pan, ele já deixou isso bem claro em várias oportunidades. É um consenso entre os escritores que o Deadpool é queer, e se interessa por homens e mulheres.

Pansexual: Alguém que sente atração por todos os gêneros, incluindo homens, mulheres e as pessoas que não se identificam com o gênero binário (como gênero-fluido e agênero). O conceito de pansexualidade é muito parecido com o de bissexualidade, e a identificação com um ou com o outro é uma questão muito pessoal. Saiba mais!

 

Nos filmes, Deadpool também é pan. O diretor Tim Miller disse, quando questionado a respeito: “Pansexual! Eu quero isso como citação. Deadpool é pansexual”. E vocês já devem ter visto o Ryan Reynolds, ator que interpreta o Wade, expressando desejo de ver o mercenário com um namorado. Ainda que o primeiro filme apenas insinue que o herói também gosta de homens, Ryan e os demais profissionais envolvidos no trabalho reconhecem a sexualidade do personagem e respeitam isso. Na época do lançamento, a revista The Guide anunciou uma matéria sobre o Deadpool com a seguinte chamada: Ei, você quer ler um artigo sobre um assassino pansexual boca-suja? Pra quem quiser conferir, a capa está disponível aqui.

Já nas HQs, o Deadpool não consegue segurar a língua ao ver um cara que ele curte! Afinal, ele é o mercenário tagarela por um motivo, né?

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Deadpool para o Thor, nos quadrinhos: Eu realmente te acho muito atraente. Eu disse isso em voz alta? (originalmente publicado em Deadpool Team-Up)

Thor, JusticeiroHulking e Wiccano… O Deadpool não perde a oportunidade de flertar com outros heróis (e até vilões, na verdade). Ele sempre faz isso assim, meio em tom de piada, mas quem conhece bem o mercenário sabe que essas brincadeiras têm um fundo de verdade. Apesar de alguns leitores argumentarem que o Wade está só “zoando”, eu acredito que tem relação com o fato dele possuir uma auto-estima muito baixa, e se sentir mais confortável expressando os seus sentimentos através do humor. A “piada” oferece sempre uma saída segura para a rejeição. Além de tudo, nas cenas como essa mostrada acima, a graça não está na atração que ele sente pelo Thor, mas no fato do Deadpool falar sobre isso no momento mais inapropriado possível.

Outra coisa interessante é o namoro dele com Copycat, uma mutante que tem poderes parecidos com os da Mística e pode alterar a sua aparência. Embora sua forma original seja uma figura feminina de pele azulada, nos quadrinhos nós já vimos Copycat assumir formas masculinas, e o Wade não tem o menor problema com isso. Pelo contrário!

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Deadpool beijando Copycat em uma forma masculina, dizendo algo que pode ser traduzido como “eu já te falei que você é uma beleza…?”

Agora, o relacionamento mais emblemático do Wade com um homem é, sem dúvida, o Cable (que vai ser interpretado pelo Josh Brolin nos cinemas). Eles têm uma parceria duradora nas HQs, e os dois (além da própria Marvel) se referem à relação deles como um “casamento”, e à sua separação como um “divórcio”. O Deadpool costuma brincar que o Cable fica sempre “por cima” (nas palavras do Wade, porque ele era maior, e mais experiente), e insiste que os dois deveriam inverter os papéis. Em Deadpool & Cable: Split Second #2, Wade fala que os dois tiveram um “momento Brokeback Mountain”, quando Cable disse pra ele “eu queria saber como desistir de você” (ou I wish I knew how to quit you, a frase icônica de Jack para Ennis Del Mar no filme). Quando Wade é confrontado com a visão dos seus desejos mais obscuros em Cable & Deadpool #20, ele se vê na praia com Cable, passando filtro solar nas costas do mutante, ambos de sunga.

Eu poderia continuar citando outros exemplos aqui, mas sejamos sinceros: isso parece uma amizade para vocês? Bem, talvez uma amizade colorida

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Armador sobre Cable: Wilson, o garoto dos seus sonhos acabou de acordar! Deadpool: Rob Lowe está aqui? …eu disse isso em voz alta? (originalmente publicado em Cable & Deadpool)

Em Cable & Deadpool #10, Deadpool disse, sobre sua relação com Cable: “nós temos uma política de não pergunte, não conte”. É uma referência ao Don’t ask, don’t tell do exército americano, um código de conduta que aceitava pessoas não-heterossexuais no serviço militar desde que elas não falassem abertamente sobre sua sexualidade. Essa regra também desencorajava os militares a reportarem casos de abuso e estupro, e ainda é considerada um dos fatores responsáveis pelo número absurdo de casos de violência sexual nas forças armadas americanas. Eu não acredito que a menção dessa política tenha sido “só piada”, e muito menos uma coincidência.

Tanto a DC quanto a Marvel tem a “mania” de apenas insinuar a sexualidade de vários personagens que deveriam ser LGBT, de acordo com os próprios escritores. Eu já falei a respeito no segundo post sobre queer coding, citando como exemplo o Johnny Storm, o Constantine e o Deadpool. Para vários leitores (incluindo eu), quando o Wade se refere ao relacionamento dele com o Cable desse jeito, ele está fazendo uma crítica velada ao fato da Marvel, ainda manter certa ambiguidade sobre a relação deles, e sobre a sexualidade do Deadpool (e do Cable). Para as editoras tudo bem um herói dar pinta, desde que pareça apenas uma brincadeira.

E aí, nós concordamos que o Wade é pan? E que o Cable também não pode ser hétero? Ótimo. Vamos em frente, porque além do envolvimento com Cable, Deadpool também é obcecado pelo Homem-Aranha.

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Deadpool pergunta: Isso é… o Céu? Nós vamos nos beijar? ao que o Homem-Aranha responde, categórico: Nunca!

Ele chama o Aranha de baby boy, faz várias piadas de duplo sentido sobre os dois juntos e não esconde a sua… admiração pelo outro herói. Antes mesmo deles se conhecerem, o Wade usava uma cueca do Homem-Aranha, e isso se repete depois. Essa brincadeirinha sobre beijar o Peter é recorrente, e a Marvel já usou cenas de “quase beijo” entre os dois para ilustrar capas das revistas. Volta e meia, o Deadpool se refere a eles como amantes, ou casal. Só que ao contrário do Cable, essa atração parece unilateral, já que o Peter não corresponde os sentimentos dele (pelo menos até onde a gente sabe). Por outro lado, num acontecimento mais recente em Spiderman/Deadpool #1, um grupo de garotas faz um feitiço para invocar a alma-gêmea do Homem-Aranha… E advinha quem aparece? Isso mesmo, nosso mercenário tagarela, Deadpool!

O fato é que o Deadpool definitivamente não é hétero.

deadpool_rogueApesar dele ter demonstrado interesse e se relacionado com várias mulheres, como Copycat, Siryn, Shiklah (com quem o Wade se casou), Big Bertha e agora a Vampira em Uncanny Avengers (Gambit ficou mordido de ciúmes), ele também sente atração por homens. Hoje eu quis falar mais sobre o relacionamento dele com personagens masculinos porque todo mundo sabe que ele já namorou mulheres, só que alguns fãs insistem em dizer que ele é hétero e querer provas do contrário. A questão é que, no que diz respeito a atração e romance, Deadpool não liga pro gênero, não. Ou seja, nós podemos dizer com segurança que o mercenário tagarela é pansexual!

Desafiando padrões de gênero

Primeiro, é importante lembrar que a sexualidade não tem, necessariamente, relação com a forma como uma pessoa se apresenta para a sociedade. Mesmo que a gente se identifique com certos comportamentos ou peças de roupa, por exemplo, não é o jeito de vestir (ou o fato da gente gostar de maquiagem) que define nossa sexualidade.

Dito isso, Wade é um personagem que constantemente desafia padrões de gênero, em especial porque ele adora usar vestidos, saias… Roupas tidas como femininas. Em Meus queridos presidentes, Deadpool se fantasia de Marilyn Monroe enquanto luta com ex-presidentes americanos que viraram zumbis (é, sério).

deadpooldressO elemento cômico, de novo, costuma estar presente quando ele usa as roupas femininas. Porém, Wade não é forçado a se vestir desse jeito, e ele não se sente desconfortável. O Deadpool curte, e na maior parte das histórias (se não todas) é ele mesmo quem escolhe essas roupas. Às vezes, sem nenhum motivo além dele se sentir bonito. É diferente do tipo de humor que se resume a “haha, enfiamos esse cara num vestido e ele DETESTOU” (o mesmo acontece com Stanley no filme d’A Bela e a Fera). Wade é crossdresser (um homem que gosta de vestir roupas consideradas femininas) e ele também não tem nenhum problema com isso.

Só que essa não é a única maneira como o mercenário desafia estereótipos de gênero. Entrando num tema complicado, em uma das histórias o Wade foi estuprado por uma personagem feminina, a Mary Tyfoid. Infelizmente, o assunto nem sempre é tratado com respeito nos quadrinhos, que é um universo muito machista.

Esse tipo de caso é levado mais a sério quando a agressão é cometida por outro homem (vide Authority, onde a questão é tratada com seriedade). Quando é uma mulher que força um personagem masculino a fazer sexo contra vontade, na maioria das vezes isso é minimizado pelos leitores e pelos escritores (a exemplo do episódio entre Dick Grayson e a Tarântula na série Nightwing, sobre o qual a autora Devin Grayson falou: “eu nunca usei a palavra estupro, eu só disse que foi sem o consentimento [dele!]” – embora Devin já tenha se desculpado por isso).  É um reflexo da vida real, onde homens que são vítima de abuso e violência também não são levados a sério.

Voltando ao Deadpool, Mary Tyfoid é uma mercenária e conhecida vilã dos quadrinhos, com quem o Wade estava trabalhando na série Deadpool publicada nos anos 90. Eles lutam juntos contra o Demolidor, mas no fim das contas Deadpool quer ser um herói e a Mary quer continuar como uma vilã. Quando as desavenças entre os dois chegam ao limite, Wade procura Siryn, uma heroína por quem ele foi apaixonado e a quem acima de tudo ele admirava. Mary Tyfoid usa um indutor de imagem para assumir a forma da Siryn e transar com o Deadpool, sem ele saber. Na manhã seguinte, ela debocha dele de uma forma bem cruel. Wade fica devastado e deixa claro que não quis aquilo.

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“Eu sei que você é um palhaço, mas ela… Ela… estuprou você? Isso é horrível!”

Em 2015, na saga nova também intitulada Deadpool, Wade relembrou o abuso. Quando questionado “então ela estuprou você?” ele respondeu que sim, e ainda disse “foi uma das piores experiências da minha vida, e isso é muita coisa“. Não encontrei referências em português, mas aqui tem a conversa entre eles e um artigo, em inglês, explicando como Mary violentou o Wade. É legal ver um personagem masculino falar abertamente sobre isso, e ver o caso ser tratado com respeito e empatia nos quadrinhos. Pra outros homens que passaram por situações similares, é o reconhecimento e a validação da experiência deles. É uma declaração de que o que aconteceu com eles não foi certo, e de que eles não estão sozinhos nisso.

Sério, gente, quadrinhos são um reduto do machismo. E, muitas vezes, contribuem sim pra manter a cultura do estupro na nossa sociedade. Ver um personagem como o Wade fazer o oposto é muito, muito bom.

Histórico de abuso

O episódio com a Mary Tyfoid nos traz ao próximo tópico: o Deadpool tem um histórico de abuso tanto físico quanto psicológico além desse estupro, que começou na infância e persiste durante a vida adulta.

Como eu mencionei lá em cima, não importa quantas vezes a sua história seja reescrita, Wade sempre é fruto de um lar extremamente abusivo – em algumas histórias, com menções de abuso sexual. Às vezes ele faz piadas com isso, como um mecanismo de defesa. Lembram daquela cena no filme em que ele e a Vanessa estão “disputando” para ver quem teve a infância mais difícil? É esse tipo de piada que ele faz, e de repente você percebe que todas elas tem um fundo de verdade e são apenas uma maneira de lidar com o trauma. Não por acaso, o Deadpool se mostra particularmente cruel com gente que abusa de crianças, e com estupradores.

Isso é um dos motivos pelos quais eu amo o Deadpool: toda a merda que ele já passou na vida, não fez dele um monstro. Claro, ele pode ter problemas e ser auto-destrutivo, mas no fundo ele é uma boa pessoa. Eu tenho um fraco por personagens assim.

Na vida adulta, outra forma de abuso que Wade enfrenta é o preconceito por causa da sua aparência. As pessoas olham pra ele com desprezo, com nojo, e falam na cara que ele é horrível. Quando não com as palavras, com atitudes e expressões que dizem tudo. Qual é, nas HQs tem gente que vomita quando vê o rosto do Deadpool. Quando ele vai em restaurantes, pedem pra ele sair porque ele assusta os clientes!

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Essa é literalmente a cara que a Kate Bishop faz quando o Clint Barton diz que o rosto do Deadpool é assim mesmo, ele não está usando uma máscara de Halloween. (originalmente publicado em Hawkeye vs. Deadpool)

Eu adoro a Kate (que assume o manto de Gaviã Arqueira depois do Clint) mas a forma como ela trata o Wade nessa história (e em outras!) é imperdoável. Será que ela pensa que só porque ela virou de costas, o Deadpool não percebeu? Hein?

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Na mesma história, a reação do Wade: “Merda…” (originalmente publicado em Hawkeye vs. Deadpool)

A infância repleta de abuso e negligência, junto com a discriminação que o Deadpool enfrenta, fazem com que o mercenário tenha baixa auto-estima e se torne propenso a relações disfuncionais e, de novo, abusivas. Aquela fachada divertida, o deboche e as piadas, na verdade escondem um sofrimento enorme.

Deficiência e transtornos mentais

Alterações faciais como as que o Wade tem podem configurar uma deficiência física, se elas interferirem na sua capacidade de existir em sociedade, criando barreiras para o seu relacionamento interpessoal, prejudicando o seu direito de ir e vir, entre outros problemas. As cicatrizes do Deadpool promovem tudo isso, já que as outras pessoas o isolam por causa da sua aparência. É um motivo pelo qual o Wade é considerado um personagem com deficiência física. Outro motivo são as dores crônicas, geradas pela atividade do câncer.

Não por acaso, o Clint Barton, que é surdo, é um dos personagens que trata o Deadpool de um jeito mais decente. E o Wade retribui a cortesia. Por exemplo, quando eles estão trabalhando juntos, o Deadpool mantém sua máscara levantada acima da boca, para que o Gavião Arqueiro consiga ler seus lábios, e às vezes se comunica por linguagem de sinais. São atitudes simples, que a maioria dos outros heróis nem pensa em tomar (tem gente que simplesmente vira de costas enquanto o Clint fica ali sussurrando “…eu preciso ler seus lábios”). O Deadpool faz porque ele sabe o que é ter uma limitação, e ainda por cima ter que lidar com gente que não faz o mínimo esforço para te ajudar, mesmo que isso não custe nada. Ah, se vocês querem ler essa parceria do Deadpool e do Gavião Arqueiro (incluindo o incidente do Dia das Bruxas com a Kate), a história foi publicada no Brasil pela Panini como Deadpool Extra #1. Eu recomendo!

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Em Hawkeye vs. Deadpool a gente vê o Wade usando a linguagem de sinais e mantendo os lábios visíveis para se comunicar com o Clint

A Al, que por sua vez é cega (e vocês com certeza se lembram dela no filme), é outra pessoa em quem o Deadpool encontra empatia e conforto, com quem ele consegue ter uma amizade. O que acontece justamente porque eles compartilham a experiência de existir à margem da sociedade, embora suas deficiências sejam diferentes.

Pensando na questão da representatividade, o Deadpool é um personagem incrível. Ele mostra esse lado feio da deficiência física: os olhares atravessados na rua, a repulsa de terceiros, a discriminação, além dos sentimentos de raiva, frustração e impotência de quem é obrigado a aguentar isso na pele. Eu diria que Deadpool é um veículo catártico para os leitores que compartilham vivências parecidas (o mesmo vale para as situações de abuso e violência já citadas). Até por isso, não é todo mundo que tem estômago para ler os seus quadrinhos.

Além da deficiência física, Wade tem transtornos psicológicos, e mais de uma vez foi internado (contra sua vontade) no hospício. De novo, podemos traçar um paralelo com o “mundo real”: quantas vezes pessoas com deficiências ou problemas mentais, ou até limitações físicas, não são privadas da sua própria autonomia?

É interessante a gente notar também o impacto que as experiências traumáticas (além do câncer) têm sobre o estado mental do personagem. A infância problemática talvez seja a raiz mais profunda dos transtornos, seguida de perto pela tortura do projeto Arma X, mas não podemos esquecer que a rejeição da sociedade graças à sua aparência é um fator decisivo pra deterioração da saúde mental do Wade. Apesar de exibir uma série de sintomas, Deadpool nunca recebeu um diagnóstico apropriado. A gente sabe que ele tem problemas com abandono e auto-aceitação, e alguns fãs sugerem que ele tenha esquizofrenia ou transtorno dissociativo de identidade (TDI). A única coisa que a gente tem certeza é que ele é neurodivergente, e também enfrenta discriminação por causa disso. Inclusive, os maus tratos na mão de familiares, a ameça de abuso e o exílio social são uma realidade que muitas pessoas neurodivergentes ou com deficiências físicas vivenciam com frequência, pois ambos os grupos se encontram em uma situação de maior vulnerabilidade.

deathGraças a essas questões, e por conviver sempre com uma dor física agoniante, Wade já considerou o suicídio várias vezes. Na verdade, a única coisa que o impede é o próprio poder de cura. Esse dilema é usado como motivação para as histórias, como quando o Deadpool resolve acabar com todo o universo Marvel. Inclusive, em uma das HQs, Wade convence uma garota a não pular de um prédio, como uma campanha para estimular a prevenção ao suicídio. O curioso é que numa dessas tentativas, o personagem acaba se apaixonando pela Morte personificada. Ela se torna o grande amor da vida dele (e sempre o rejeita), embora a gente não saiba se isso é real ou uma criação da sua mente perturbada.

 

Vocês notaram que eu gosto é do lado mais vulnerável, mais doloroso, do mercenário, não é? Eu acho que isso torna o Deadpool mais humano. Como eu falei, depois de tudo no final do dia o cara ainda ‘tá lá, tentando fazer a coisa certa – mesmo que do jeito errado. Querendo salvar o mundo, batendo a cabeça na parede pra descobrir como ser alguém melhor. É isso o que me fascina no personagem! Muito mais do que as piadas, do que o lado divertido dos seus quadrinhos (que, convenhamos, às vezes é hilário).

Espero que vocês tenham curtido o post hoje, e se juntem à minha contagem regressiva pro lançamento de Deadpool 2.

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Devido crédito à Christy, que posta no Tumblr várias informações sobre o Deadpool e foi a minha principal referência na hora de escrever esse artigo.


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Verónica: o filme mais assustador da Netflix, sério?!

Depois de ver por aí váááários artigos falando que o espanhol Verónica é o filme mais assustador da internet (até da história), resolvi topar o desafio e assistir. E aprendi duas coisas: primeiro, essa comoção toda não passa de uma bela campanha de marketing. O filme não é tudo isso. Segundo, muitas histórias de terror ainda são escritas em cima dos mesmos estereótipos preconceituosos, usando deficiências físicas e personagens neurodivergentes como subterfúgio para chocar o público.

Vocês conhecem o clichê! Os protagonistas vão parar num antigo hospital psiquiátrico e, no final de um corredor sombrio, tem lá uma cadeira de rodas abandonada. Ou eles encontram uma velha misteriosa com olhos brancos, vazios, que causam arrepios. Ou um vilão medonho, com deformações no rosto. A gente está tão acostumado a ver esse tipo de coisa em filme de terror que não percebe como isso é problemático.

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Verónica usa uma freira cega para fazer suspense  (Fonte)

É preciso refletir, e se perguntar, por que essas imagens geram desconforto? Por que a gente fica tão incomodado com as cenas que eu mencionei?

Claro, esse tipo de cena é feito para assustar, com efeitos sonoros, ângulos de câmera e iluminação que criam uma tensão proposital. Acontece que esse artifício só funciona porque nossa sociedade ainda vê deficiência física como algo estranhoanormal. Se você olhar para a freira em Verónica e pensar que ela é apenas uma mulher cega, e os olhos dela são assim, grande parte do apelo “assustador” da personagem desaparece. Ainda por cima, isso não acrescenta uma diversidade real à narrativa. Por mais que Hermana Muerte (Irmã Morte em português) seja cega, e a gente não tenha muitos personagens com deficiência nas telas, ela é usada como um objeto de cena. Seu propósito na história é alimentar o suspense (ao contrário de Elisa em A forma da água, que é a protagonista) e “pregar um susto” nos espectadores.

Apesar de usar Verónica como exemplo, esse clichê não é uma exclusividade do filme espanhol. Várias produções de terror e suspense fazem algo parecido, incluindo séries como Supernatural, e até jogos do mesmo gênero. Já passou da hora disso mudar.

Assombração ou doença mental?

Outro aspecto que me incomoda é o paralelo que o filme estabelece entre transtornos psicológicos e elementos sobrenaturais. De novo, é algo bastante popular em filmes de terror. Vocês lembram que eu já critiquei essa mania de demonizar doenças mentais e pessoas neurodivergentes no texto sobre Fragmentado.

Neurodivergente é alguém que tem um funcionamento neurológico diferente do que é considerado o padrão (ou seja, o neurotípico) pela sociedade, como por exemplo as pessoas autistas ou que tem algum transtorno de identidade.

 

veronicaEm Verónica, a personagem-título (foto) é uma adolescente sobrecarregada com a tarefa de cuidar dos seus três irmãos mais novos praticamente sozinha. Além disso, a garota sofre com a perda do pai, mas não parece ter tempo, oportunidade e nem o apoio necessário para vivenciar o seu luto – o que a leva a comprar um tabuleiro ouija para tentar se comunicar com os mortos. Quando coisas estranhas passam a acontecer na casa e ela fica apavorada, a mãe neglicencia seu pedido de socorro. Até sua melhor amiga a abandona quando ela mais precisa de ajuda. A narrativa então “brinca” com aquela ideia: será que isso tudo está acontecendo de verdade, ou é coisa da cabeça dela? Será que Verónica é louca? Ela é perigosa?

Muitos roteiristas acham que é inteligente usar isso como um trunfo, uma reviravolta no enredo. Eu não acho. Ao invés de ficar com medo, só me peguei pensando que essa menina enfrenta a maior barra, e ninguém percebe. Ninguém ajuda. Nenhum adulto, nenhum colega, presta atenção nela.

Quando um filme ou livro decide abordar tanto problemas psicológicos e saúde mental quanto temas sobrenaturais, eu acho que isso precisa ser feito com muito respeito, e muito cuidado. Senão ele acaba apenas contribuindo para aumentar o estigma que as pessoas neurodivergentes e doenças como a depressão já enfrentam hoje. Quando Verónica escolhe deixar no ar o que, ou quem, de fato era aquela “assombração”, para mim falta esse cuidado.

Baseado em fatos reais

Teve algumas coisas que eu curti, como o trabalho da jovem pela atriz Sandra Escacena, que interpreta a personagem-título, e algumas cenas bem trabalhadas. A imagem que eu escolhi para a capa do texto foi uma delas. Mesmo assim, achei Verónica previsível, muito “mais do mesmo”. Ainda mais depois de toda essa divulgação.

No fundo, o que impressiona as pessoas é o “baseado em fatos reais”, não é? Então, vale lembrar que apesar do filme ter sido inspirado em um caso verdadeiro, os relatos sobre ele não são conclusivos. A garota que supostamente estava possuída teve episódios de paranoia e convulsões, o que também são sintomas de problemas neurológicos. Eu não sou exatamente uma pessoa cética (pelo contrário, adoro esses “casos reais”), mas acho importante a gente olhar os fatos de uma forma objetiva, ainda mais quando a história “verdadeira” envolve a morte de uma adolescente.

Na real, filmes como Verónica e Fragmentado acabam sendo muito mais tristes do que assustadores para mim.

 

Vou deixar um puxão de orelha pra Netflix: não adianta investir tanto em propaganda se a qualidade do conteúdo não atender as expectativas, viu?


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