Kingsman: por que vilões sempre usam prótese?

Baseado em HQs de Mark Millar e Dave Gibbons, Kingsman é uma reinterpretação mais divertida dos clássicos filmes de agente secreto. Quem é 007 perto de Harry Hart! Apesar do primeiro ser fantástico (na minha humilde opinião) o segundo, Kingsman: O Círculo Dourado, não superou as expectativas. Eu me diverti porque adoro a franquia toda, mas acho que o enredo poderia ter sido melhor.

Mesmo assim, o post de hoje não é exatamente uma crítica. É uma reflexão sobre algo que acontece tanto em Kingsman quanto na sua sequência: os vilões – ou ainda, os capangas – são sempre personagens com uma deficiência física. Mulher Maravilha faz a mesma coisa. Talvez você esteja se perguntando porque isso é um problema. A questão é a seguinte: “vilão deficiente” é um clichê recorrente em histórias de ação e aventura. De Capitão Gancho a Darth Vader, é mais comum você ver o “cara mau” com um braço faltando do que o mocinho. O que contribui para criar uma visão estigmatizada dessas pessoas na vida real, além de estabelecer a deficiência (no caso, a falta de um membro, que pode ser congênita ou por amputação) como característica negativa, ao associá-la somente aos antagonistas.

Gazelle

Sofia Boutella como Gazelle em Kigsman: Serviço Secreto (Fox)

Não estou dizendo que Gazelle, por exemplo, não seja legal pra caramba. Ela é fodona, ela é implacável, e um dos destaques do primeiro filme. Só que ela continua sendo uma vilã. Ela morre como vilã – de forma gráfica, após perder a luta pro herói – e torcer por ela seria torcer pela dominação mundial. O mesmo acontece com Charlie em O Círculo Dourado. Vocês entenderam aonde eu quero chegar? Por mais que Gazelle seja uma personagem interessante, não muda o fato de que temos poucos personagens como ela entre os mocinhos, enquanto o “vilão deficiente” é um estereótipo extremamente comum. Para comparar, nesse post eu já falei um pouquinho sobre deficiências nos quadrinhos dos X-Men.

Alguns filmes subvertem o clichê. Em Mad Max nós temos vilões com e sem deficiência física, enquanto Furiosa, a grande heroína da história, não tem parte do braço e usa a prótese mecânica. Em Star Wars, Luke perdeu uma mão, assim como Darth Vader teve membros amputados. Essa inversão do estereótipo equilibra a representação entre os personagens, indo contra aquela ideia batida de que o cara com a mão de gancho ou com uma bengala é sempre o vilão. Por que não o herói? Por que não uma heroína que usa uma cadeira de rodas, ou próteses nos membros inferiores? É fácil não ligar para representatividade quando ela não diz respeito à gente, mas da mesma forma que eu cobro mais personagens LGBT na cultura pop, eu também quero ver mais diversidade de corpos: incluindo, claro, personagens com deficiências físicas.

charlie_kingsmanOutro ponto importante: filmes de ficção parecem adorar vilões que usam prótese só porque elas podem ser transformadas em armas mirabolantes –  como o braço de Charlie em Kingsman 2, que até se move sozinho. Ou Bucky Barnes da Marvel, cujo braço metálico confere superforça. Só que isso levanta uma questão diferente: seja vilão ou herói, às vezes é difícil considerar esse tipo de personagem como representatividade, porque parecem mais robôs que pessoas de verdade. Eu sei que é estranho falar em pessoas de verdade quando tem tanta coisa impossível acontecendo na tela (como os cachorros-robôs),  porém, eu me refiro a personagens em quem o público consegue se enxergar, com quem as pessoas são capazes de se identificar, e se emocionar, e torcer junto. Porque é isso que é representatividade.

Fica aqui essa reflexão – especialmente válida para quem cria conteúdo, os escritores e desenhistas. Por que será que é tão comum a gente ver vilões com deficiências físicas, ao invés de heróis? E por que não desafiar esse estereótipo na próxima vez, ao invés de continuar alimentando esse clichê tão preconceituoso?

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Sim, Mulher Maravilha é excelente, MAS…

Eu adorei o filme. Parecia uma criança no cinema, com a atenção fixa na tela, os olhos brilhando e a tiara da Diana – brinde do Cinemark – na cabeça. No que diz respeito à qualidade do entretenimento, Mulher Maravilha esmaga outros filmes de herói. Além de genuinamente divertido, é uma ode ao poder feminino e inclui comentários sobre diversidade. Por isso mesmo, o tratamento dado aos personagens com deficiência me decepcionou muito. Vamos analisar parte por parte, então?

As Amazonas, girl power e diversidade

Ann-Wolfe-as-Artemis-in-Wonder-Woman (1)Sem dúvida o ponto alto de Mulher Maravilha. Quem não se apaixonou pelas Amazonas? Mérito da diretora Patty Jenkins, que escolheu lutadoras mesmo, atletas olímpicas e até fazendeiras para compor o exército de Temiscira. A boxeadora americana Ann Wolfe (na foto), considerada a melhor lutadora do mundo, está incrível no papel de Artemis. Curti demais as cenas de luta das mulheres e achei o máximo terem sido feitas à luz do dia. A gente sabe que batalhas cheias de efeitos especiais e lasers coloridos ficam mais legais à noite, mas para mim as cenas da praia, no início do filme, são muito mais épicas. Inclusive aquelas em que as guerreiras estão “apenas” treinando. Espero que o próximo filme traga as Amazonas de novo, e com maior destaque. Eu adoraria assistir um épico que se passasse inteiramente na ilha.

Gostei da inversão daquele clichê onde a personagem feminina, em geral interesse romântico do mocinho, morre só pra alavancar o crescimento do herói. É um artifício machista e já batido (pense na Gwen Stacy de Homem-Aranha, Mary de Supernatural, entre tantas outras). Em Mulher Maravilha, é Steve Trevor (Chris Pine) quem faz esse sacrifício para que Diana (Gal Gadot) consiga despertar seu poder verdadeiro. Além disso, sempre que ele manda a heroína ficar pra trás por ser “perigoso” ela ignora e vai pra ação, pronta para salvar o dia. E sozinha, se for necessário. Outro detalhe que eu gostei é que no filme, o papel de usar seu charme para seduzir uma vilã cabe de novo a Steve. É mais uma subversão de um clichê machista, aquela ideia da femme fatale que usa sua aparência e sensualidade para conseguir o que quer.

O filme também não perde a oportunidade de inserir comentários sociais, usando os companheiros de Diana para isso. Como Charlie (Ewen Bremner), o ex-soldado que sofre de Transtorno do estresse pós-traumático por causa da participação na guerra. Em um desabafo, o indiano Sameer (Saïd Taghmaoui) fala quDCNqNaGXoAEbS4ze queria ser ator, mas não tem a cor de pele certa. Já o índio kainai apelidado de Chefe, conta a ela que os ingleses dizimaram seu povo e os expulsaram de suas terras. Chefe é interpretado por Eugene Brave Rock (com Gal Gadot na foto ao lado) que também faz parte dos kainai, e em sua primeira cena ele se apresenta à Diana no dialeto do seu povo. O ator Brave Rock pode escolher as roupas e acessórios que o personagem usaria, garantindo a representação fiel e respeitosa da Nação Kainai. Sem que Mulher Maravilha perca o ar descontraído, a própria Diana Prince critica abertamente o sexismo, a indústria da guerra e outros problemas sociais cada vez que esses assunto vêm à tona. 

Doutora Veneno e o estereótipo “vilão deficiente”

Embora Mulher Maravilha acerte em vários momentos, o filme erra feio ao retratar sempre os personagens com deficiências físicas visíveis como vilões. É outro estereótipo nocivo e, infelizmente, muito comum tanto no cinema quanto nos quadrinhos. O maior exemplo (mas não único) aqui é a Doutora Maru, ou Doutora Veneno (Doctor Poison em inglês).

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Elena Anaya como Doutora Maru (Fonte)

O problema é que a deficiência vira um dos aspectos que fazem aquele personagem cruel e degenerado. Muitas vezes ele se torna o vilão em busca da cura (como o Dr. Connors, o Lagarto de Homem-Aranha) ou é rancoroso, movido pela vingança e quer punir as pessoas “normais”, feito o Capitão Gancho de Peter Pan. Além disso, vilões como Maru reforçam ideias preconceituosas que a sociedade tem – por exemplo, encarar a deficiência como uma punição para pessoas ruins. Algo que deveria ser uma simples característica física se torna sinônimo de problemas morais: falta de empatia, sadismo, inclinação pro mal. Esse artifício é usado à exaustão para caracterizar um personagem como repulsivo e o vilão como assustador, a ponto de dar origem a todo um sub-gênero do terror. É só a gente lembrar de Freddy Krueger, Jason e Leatherface, e até mesmo Erik no clássico O Fantasma da Ópera.

A raiz desse clichê, o “vilão deficiente”, é a crença eugenista de que as pessoas com deficiência têm predisposição para loucura, criminalidade e violência, entre outros comportamentos perigosos. Basicamente, representa todos os preconceitos que a sociedade tem contra essas pessoas, ao mesmo tempo que os alimenta. Isso não só promove a exclusão, como coloca essas pessoas em risco e serve como pretexto para justificar maus tratos. O que é ainda mais prejudicial porque a gente já não vê muitos heróis com deficiência na ficção – e, quando vê, eles costumam ser apagados ou mal representados.

Em Mulher Maravilha, a Dra. Veneno com sua face desfigurada representa o que há de pior na humanidade. Suas cicatrizes são resultado das experiências que a cientista realiza, deixando a mensagem subjetiva de que “ela mereceu” isso. De certa forma, essas cicatrizes que fazem com que ela seja considerada “feia” ou “estranha”, são culpa dela mesma. É mais uma variação do estereótipo “vilão deficiente” (nos quadrinhos, levado ao extremo com Herr Starr de Preacher) e, de novo, promove um conceito nocivo sobre um grupo de pessoas já marginalizado. Eu percebi que o filme tentou subverter o clichê: a cena que Maru tira a máscara e revela o rosto desfigurado é justamente o momento em que Diana a reconhece como ser humano e resolve não matá-la, numa tentativa de humanizar e personagem. Legion faz algo semelhante com um vilão gay, mas não acho que Mulher Maravilha conseguiu o mesmo efeito que a série. Principalmente porque no filme todos os vilões tem alguma deficiência física (na forma Ares humana manca e usa bengala, Ludendorff tem um problema que afeta a capacidade física), ao passo que nenhum dos heróis apresenta essa característica.

Em tempo: deformações faciais e cicatrizes como as da Dra. Veneno são consideradas deficiências quando prejudicam a vida pessoal e atrapalham a forma como alguém se relaciona em sociedade. Um exemplo é o Deadpool, outro herói dos quadrinhos que é constantemente hostilizado pela sua aparência, e por isso desenvolveu problemas graves de auto-imagem e fobia social.

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Por um lado, considero Maru uma vilã bem interessante. Ela foi retirada dos quadrinhos, com sua primeira aparição no começo da década de 40, e é uma ótima escolha para antagonista. Gostei muito da decisão em manter o ar “cartunesco” tanto no visual quanto na interpretação, o que combina com o clima divertido do filme e é uma bela homenagem aos clássicos. Em determinado momento a Dra. Veneno até usa um par de luvas igual na HQ. Só gostaria que eles não tivessem usado um clichê tão negativo para construir a personagem, promovendo uma representação tão mal informada e prejudicial sobre pessoas com deficiência.


Para escrever esse post, eu consultei o TV Tropes e o excelente artigo Doctor Poison and Disability in Wonder Woman. Recomendo a leitura!

Sobre os X-Men e super-heróis com deficiência

Já que eu recomendei Legion (série inspirada em um personagem da Marvel), resolvi falar sobre outros mutantes que ainda não ganharam as telas, mas eu estou torcendo pra eles aparecem logo nos filmes. Olha que depois de Logan, que eu acabei de ver, e Deadpool, minhas expectativas são altas!

Os X-Men sempre me despertaram um certo fascínio. Quando criança, eu achava que eles eram os super-heróis mais incríveis de todos os tempos. Com o passar dos anos, entendi que além disso é a metáfora perfeita para explicar como as minorias políticas são tratadas pela sociedade. A história se baseia no fato dos mutantes serem vistos como uma ameaça apenas por serem diferentes das pessoas ditas normais. Essa diferença é usada por pessoas como Dr. Trask (em Dias de um Futuro Esquecido) para instigar o ódio contra eles. Por causa disso, mutantes têm direitos básicos negados, são perseguidos pelo governo, expulsos de casa, atacados na rua. Claro, os X-Men lutam contra vilões malvados e inimigos mortais – como qualquer bom super-herói – mas também lutam pelo simples direito de existir nessa sociedade opressora. É uma mensagem muito poderosa. No universo dos quadrinhos da Marvel, a “raça mutante” é inclusive equiparada a uma etnia – ou seja, nesse mundo das HQs, o preconceito contra eles também é considerado uma forma de racismo.

Uma analogia que fica ainda mais interessante quando os mesmos personagens fazem parte de outros grupos marginalizados, como o próprio Legião, a Tempestade, que é mulher e negra, o Homem de Gelo, que é gay, ou Daken, que é bissexual, além da sua etnia nipo-americana. A franquia dos X-Men tem abordado essa interseccionalidade de uma maneira muito pertinente, tanto nos quadrinhos quanto nas telas do cinema e da TV. Por isso hoje eu decidi apresentar para vocês outros personagens interessantes, que eu espero ver logo logo nas telas. Representatividade importa!

Karma (Xi’an Coy Manh)

marvel_karmaXi’an Coy Manh (também conhecida como Shan) é uma garota vietnamita que chega aos EUA como refugiada, fugindo dos horrores da guerra junto com a família. Seus pais morrem no caminho e ela vira a responsável por um irmão e uma irmã mais novos. A convite do Professor Xavier, Shan se torna a primeira integrante e líder dos Novos Mutantes, adotando o codinome Karma. Seus poderes são psíquicos, incluindo controle mental, possessão e telepatia. Shan tem uma perna amputada após ser atingida em uma missão, e passa a usar uma prótese mecânica. Ela ainda é lésbica. Desde que Novos Mutantes foi previsto pra 2018, estou só esperando anunciarem quem vai interpretá-la no cinema. Vai ser uma decepção se ela não aparecer! Karma tem uma história fascinante e pode ser um gancho entre Legion e os filmes, já que além dos seus poderes se encaixarem na série, ela e David enfrentam um vilão em comum nas HQs.

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Karma em Astonishing X-Men, por Marjorie Liu (Marvel)

Uma coisa legal é que sua prótese não atira mísseis, não é mágica, nem parece ter saído da ficção científica. Na verdade, ela parece um membro artificial comum, não muito distante dos que a gente tem hoje. As HQs mostram Shan retirando a prótese no dia a dia, seja pra descansar ou realizar pequenos reparos. Karma tem um mini kit de ferramentas para ajudá-la com isso.


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Silhouette-New-Warriors-Marvel-ComicsEmbora Silhouette faça parte dos Novos Guerreiros, não dos X-Men, ela também é mutante. Não vou negar que me desapontou saber que a Marvel está produzindo uma nova série sobre o grupo e não pretende incluir a personagem mesmo que ela tenha integrado a equipe, além da sua relação com Dwayne Taylor. Silhouette combatia o crime junto com ele quando foi atingida por um policial. O tiro a deixou paraplégica e é por isso que ela as usa muletas para se movimentar. O interessante é que Silhouette tem o poder de se fundir às sombras, e pode se teletransportar através delas! Nas histórias de super-heróis muitas vezes os poderes são usados para apagar completamente a deficiência do personagem. Enquanto isso…

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Silhoutte usando seus poderes nos quadrinhos

Não é o que acontece no caso dela. Silhouette não encontra uma cura mágica (aham, estou falando de Barbara Gordon, da DC Comics). Ela continua usando as muletas e isso não a impede de ser uma heroína. Mesmo que tenha Silhouette desenvolvido e adaptado suas habilidades de luta, a Marvel não optou pelo caminho preguiçoso de ignorar sua deficiência. Vale ressaltar que ela é uma mulher negra, o que só deixa a história mais significativa.

Vocês não acham que ela seria incrível nas telas? Esse efeito do teletransporte pode ser executado de forma tão legal. Sério, imagina as possibilidades!


Forge

Forge é um personagem que já foi reimaginado várias vezes nas histórias da Marvel, inclusive nos desenhos animados. O que permanece consistente é sua descendência nativo-americana (índios cheyenne) e sua habilidade de construir tudo que ele imaginar. Tudo mesmo. Seu poder mutante é a engenharia intuitiva – ele entende naturalmente como qualquer tecnologia funciona, sendo capaz de inventar e recriar qualquer máquina ou aparelho eletrônico. Por que o Tony Stark nunca contratou esse homem eu até hoje não entendi. Além disso, Forge é extremamente inteligente, foi treinado pra ser o xamã (guia espiritual) da sua tribo e possui um vasto conhecimento sobre magia nativo-americana. Forge acaba perdendo a mão e parte da perna durante um combate, quando passa a usar próteses mecânicas que ele mesmo constrói.

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Forge em diferentes momentos nos quadrinhos, sempre com a perna mecânica

Apesar de ser um ex-soldado e fazer parte dos X-Men, ele é mais um inventor do que um guerreiro. Como o próprio Forge já disse, o seu poder é a sua mente, não a força física. Por isso mesmo, em várias versões seus membros artificiais lembram próteses regulares, ao invés de fazerem dele um ciborgue (híbrido de homem e máquina) como a gente costuma ver em HQs ou filmes de ficção científica.


Vocês perceberam o que os três tem em comum, né? Escolhi personagens com alguma deficiência porque esse tema é recorrente nos quadrinhos, mas na maior parte do tempo é usado como pretexto para justificar as habilidades do herói ou um aspecto que desaparece por completo quando ele usa seus poderes. Ou ainda pra transformar o personagem em um vilão, como fez Mulher Maravilha.

Matt Murdock, o Demolidor, que apesar de ser cego praticamente “enxerga” através de outros sentidos, é um caso emblemático de um herói que tem sua deficiência apagada com frequência. Bárbara Gordon, a Batgirl, durante muito tempo usou uma cadeira de rodas após ficar paraplégica. Até a DC decidir recomeçar a história dela, ignorando um ponto tão importante na sua caracterização, e excluindo paralisia da sua trajetória. O professor Xavier é outro que mesmo sendo conhecido pela sua cadeira de rodas, volta e meia recebe uma “cura mágica” e volta a andar, tanto no cinema quanto na HQ. A deficiência dele às vezes é tratada como um acessório, quase “descartável” quando convém ao enredo, e não um traço fundamental do personagem. Por outro lado, temos a Karma, uma heroína com poderes superlegais, uma história excelente e um enorme potencial – quero ela na telona, sim! Quero que mais heróis como ela sejam feitos direito. Karma, Forge e Silhoutte são exemplos de personagens cuja deficiência não é apagada pelos seus poderes, como acontece com o Demolidor. Ao invés disso, é uma característica que torna cada herói mais interessante, mais humano. É esse o tipo de representação que faz a diferença.

clint_hearingaidsAté hoje eu não perdoo o que os filmes da Marvel fazem com um dos meus heróis preferidos: Clint Barton, o Gavião Arqueiro. A franquia ignora que ele é surdo, apesar desse ser um aspecto fundamental do Gavião. Na HQ Clint usa aparelhos auditivos, faz leitura labial e se comunica com outros personagens através da linguagem de sinais. Além disso, não é o fato dele ter perdido a audição que o torna magicamente um herói (como o Demolidor, de novo), embora a gente possa argumentar que a perda da audição faça com que ele recorra a outros sentidos. Mas aqui isso é trabalhado de forma realista – Clint usa sua visão tanto para atirar quanto para a leitura labial, como muitas pessoas surdas fazem no dia a dia. É o tipo de herói em que as pessoas podem se ver, e é por isso que representatividade importa tanto. Existem vários super-heróis com deficiência e eles não podem ser ignorados desse jeito.

 


Em tempo: a ideia do post surgiu por causa do The Discourse, um tumblr que debate muito deficiência e acessibilidade. Também usei a Marvel Database e esse post sobre a Karma como fontes.