Deadpool: sexualidade, padrões de gênero e histórico de abuso

O Deadpool é um dos meus heróis favoritos, e eu já estou na contagem regressiva para a estreia do segundo filme! Até lá, decidi fazer um perfil sobre ele. Um Dossiê Deadpool, abordando pontos cruciais da sua caracterização: a sua sexualidade, a forma como ele desafia padrões de gênero e o histórico de abuso que o personagem enfrenta.

É um jeito legal de apresentar o mercenário pra quem não é familiarizado com as HQs, e assim a gente entende melhor porque tanta gente curte o Deadpool!

Origem

Wade Wilson, vulgo Deadpool, foi criado por Rob Liefeld e Fabian Nicieza pra Marvel em 1991. Ele é uma paródia do mercenário Slade Wilson, o Deathstroke da DC Comics, um vilão no universo do Batman e companhia. Conhecido como “mercenário tagarela”, Wade fez sucesso entre os fãs e ganhou uma revista própria, mas suas histórias nunca perderam o tom satírico e debochado tão característico do personagem.

deadpool_comicsNos quadrinhos, é normal que cada personagem tenha a sua história reescritas diversas vezes. Geralmente alguns pontos-chave são mantidos, e se tornam consenso entre os fãs como a sua “origem”. É o caso de Bruce Wayne, que teve os pais mortos durante um roubo e depois se tornou o Batman; e do Peter Parker, o Homem-Aranha, criado pela tia May e pelo tio Ben, que decide virar herói quando Ben é assassinado. Sobre Deadpool, algo que se mantém constante nas suas histórias é que ele cresceu em um lar abusivo, sofrendo maus tratos quando criança.  Na série original, intitulada Deadpool, Wade não conheceu o pai e a mãe era alcoólatra, violenta. Já em Cable & Deadpool, a mãe morreu de câncer e ele foi criado pelo pai, um ex-militar também abusivo. A infância traumática tem uma grande influência no caráter do mercenário tagarela.

Já adulto, Wade (que é canadense, feito o Logan) começou a atuar como mercenário e mais tarde entrou pro exército, onde foi diagnosticado com um câncer no cérebro. Sem nenhuma expectativa de sobrevivência, ele decidiu participar do projeto Arma X – uma iniciativa do governo cujo objetivo é criar a arma perfeita. No primeiro filme, essa parte é bem retratada, e fiel à narrativa dos quadrinhos.

Pra refrescar nossa memória, o programa Arma X induz mutação nos pacientes através de experiências cruéis, similares à tortura. Curiosamente, o X do nome não diz respeito aos mutantes nem aos X-Men, mas ao numeral 10 em algarismos romanos! Isso porque vários projetos semelhantes foram feitos ao longo dos anos, inclusive por instituições diferentes, mas sempre associados ao governo (seja dos EUA ou Canadá) e sempre com fins militares. O primeiro, Arma I, teria sido o Projeto Supersoldado, que deu origem ao Capitão América. Logan (o Wolverine Original) e Laura Kinney, conhecida como X-23, foram submetidos ao Arma X como o Deadpool. E o programa continua ativo.

Durante o experimento, Wade manifestou o fator de cura, uma mutação parecida com a do Wolverine. O problema é que o câncer não foi curado. As células cancerosas do seu corpo se reproduzem em alta velocidade, ao mesmo tempo que o poder de cura combate a doença. É por isso que o Deadpool tem o corpo inteiro cheio de cicatrizes: existe uma batalha constante entre o avanço do câncer e a regeneração de seus órgãos, incluindo a epiderme. Aliás, muita gente acha que por causa dos poderes o Deadpool não sente dor, o que não é verdade. Wade não apenas é capaz de sentir dor, mas sofre com terríveis dores crônicas por causa do câncer. Assim como a deformação da sua aparência, a dor incessante afeta muito a saúde mental do personagem.

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Deadpool mostra as suas cicatrizes em Deadpool #1, enquanto diz “sim, a vida é bela!” Aqui no Brasil, a história foi publicada em Meus queridos presidentes pela Panini

Do programa Arma X, Wade Wilson é levado pro hospício. Como no filme, ele adota o codinome Deadpool (a “loteria da morte”) por causa de uma aposta sobre quem iria morrer primeiro, embora na HQ ela seja feita entre médicos do hospital psiquiátrico. Ao escapar do hospício, Wade volta a trabalhar como mercenário até sua consciência falar mais alto, quando ele admite que sempre quis ser um herói.

Pansexualidade

Embora nas HQs o Deadpool ainda não tenha dito com todas as letras que é pan, ele já deixou isso bem claro em várias oportunidades. É um consenso entre os escritores que o Deadpool é queer, e se interessa por homens e mulheres.

Pansexual: Alguém que sente atração por todos os gêneros, incluindo homens, mulheres e as pessoas que não se identificam com o gênero binário (como gênero-fluido e agênero). O conceito de pansexualidade é muito parecido com o de bissexualidade, e a identificação com um ou com o outro é uma questão muito pessoal. Saiba mais!

 

Nos filmes, Deadpool também é pan. O diretor Tim Miller disse, quando questionado a respeito: “Pansexual! Eu quero isso como citação. Deadpool é pansexual”. E vocês já devem ter visto o Ryan Reynolds, ator que interpreta o Wade, expressando desejo de ver o mercenário com um namorado. Ainda que o primeiro filme apenas insinue que o herói também gosta de homens, Ryan e os demais profissionais envolvidos no trabalho reconhecem a sexualidade do personagem e respeitam isso. Na época do lançamento, a revista The Guide anunciou uma matéria sobre o Deadpool com a seguinte chamada: Ei, você quer ler um artigo sobre um assassino pansexual boca-suja? Pra quem quiser conferir, a capa está disponível aqui.

Já nas HQs, o Deadpool não consegue segurar a língua ao ver um cara que ele curte! Afinal, ele é o mercenário tagarela por um motivo, né?

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Deadpool para o Thor, nos quadrinhos: Eu realmente te acho muito atraente. Eu disse isso em voz alta? (originalmente publicado em Deadpool Team-Up)

Thor, JusticeiroHulking e Wiccano… O Deadpool não perde a oportunidade de flertar com outros heróis (e até vilões, na verdade). Ele sempre faz isso assim, meio em tom de piada, mas quem conhece bem o mercenário sabe que essas brincadeiras têm um fundo de verdade. Apesar de alguns leitores argumentarem que o Wade está só “zoando”, eu acredito que tem relação com o fato dele possuir uma auto-estima muito baixa, e se sentir mais confortável expressando os seus sentimentos através do humor. A “piada” oferece sempre uma saída segura para a rejeição. Além de tudo, nas cenas como essa mostrada acima, a graça não está na atração que ele sente pelo Thor, mas no fato do Deadpool falar sobre isso no momento mais inapropriado possível.

Outra coisa interessante é o namoro dele com Copycat, uma mutante que tem poderes parecidos com os da Mística e pode alterar a sua aparência. Embora sua forma original seja uma figura feminina de pele azulada, nos quadrinhos nós já vimos Copycat assumir formas masculinas, e o Wade não tem o menor problema com isso. Pelo contrário!

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Deadpool beijando Copycat em uma forma masculina, dizendo algo que pode ser traduzido como “eu já te falei que você é uma beleza…?”

Agora, o relacionamento mais emblemático do Wade com um homem é, sem dúvida, o Cable (que vai ser interpretado pelo Josh Brolin nos cinemas). Eles têm uma parceria duradora nas HQs, e os dois (além da própria Marvel) se referem à relação deles como um “casamento”, e à sua separação como um “divórcio”. O Deadpool costuma brincar que o Cable fica sempre “por cima” (nas palavras do Wade, porque ele era maior, e mais experiente), e insiste que os dois deveriam inverter os papéis. Em Deadpool & Cable: Split Second #2, Wade fala que os dois tiveram um “momento Brokeback Mountain”, quando Cable disse pra ele “eu queria saber como desistir de você” (ou I wish I knew how to quit you, a frase icônica de Jack para Ennis Del Mar no filme). Quando Wade é confrontado com a visão dos seus desejos mais obscuros em Cable & Deadpool #20, ele se vê na praia com Cable, passando filtro solar nas costas do mutante, ambos de sunga.

Eu poderia continuar citando outros exemplos aqui, mas sejamos sinceros: isso parece uma amizade para vocês? Bem, talvez uma amizade colorida

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Armador sobre Cable: Wilson, o garoto dos seus sonhos acabou de acordar! Deadpool: Rob Lowe está aqui? …eu disse isso em voz alta? (originalmente publicado em Cable & Deadpool)

Em Cable & Deadpool #10, Deadpool disse, sobre sua relação com Cable: “nós temos uma política de não pergunte, não conte”. É uma referência ao Don’t ask, don’t tell do exército americano, um código de conduta que aceitava pessoas não-heterossexuais no serviço militar desde que elas não falassem abertamente sobre sua sexualidade. Essa regra também desencorajava os militares a reportarem casos de abuso e estupro, e ainda é considerada um dos fatores responsáveis pelo número absurdo de casos de violência sexual nas forças armadas americanas. Eu não acredito que a menção dessa política tenha sido “só piada”, e muito menos uma coincidência.

Tanto a DC quanto a Marvel tem a “mania” de apenas insinuar a sexualidade de vários personagens que deveriam ser LGBT, de acordo com os próprios escritores. Eu já falei a respeito no segundo post sobre queer coding, citando como exemplo o Johnny Storm, o Constantine e o Deadpool. Para vários leitores (incluindo eu), quando o Wade se refere ao relacionamento dele com o Cable desse jeito, ele está fazendo uma crítica velada ao fato da Marvel, ainda manter certa ambiguidade sobre a relação deles, e sobre a sexualidade do Deadpool (e do Cable). Para as editoras tudo bem um herói dar pinta, desde que pareça apenas uma brincadeira.

E aí, nós concordamos que o Wade é pan? E que o Cable também não pode ser hétero? Ótimo. Vamos em frente, porque além do envolvimento com Cable, Deadpool também é obcecado pelo Homem-Aranha.

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Deadpool pergunta: Isso é… o Céu? Nós vamos nos beijar? ao que o Homem-Aranha responde, categórico: Nunca!

Ele chama o Aranha de baby boy, faz várias piadas de duplo sentido sobre os dois juntos e não esconde a sua… admiração pelo outro herói. Antes mesmo deles se conhecerem, o Wade usava uma cueca do Homem-Aranha, e isso se repete depois. Essa brincadeirinha sobre beijar o Peter é recorrente, e a Marvel já usou cenas de “quase beijo” entre os dois para ilustrar capas das revistas. Volta e meia, o Deadpool se refere a eles como amantes, ou casal. Só que ao contrário do Cable, essa atração parece unilateral, já que o Peter não corresponde os sentimentos dele (pelo menos até onde a gente sabe). Por outro lado, num acontecimento mais recente em Spiderman/Deadpool #1, um grupo de garotas faz um feitiço para invocar a alma-gêmea do Homem-Aranha… E advinha quem aparece? Isso mesmo, nosso mercenário tagarela, Deadpool!

O fato é que o Deadpool definitivamente não é hétero.

deadpool_rogueApesar dele ter demonstrado interesse e se relacionado com várias mulheres, como Copycat, Siryn, Shiklah (com quem o Wade se casou), Big Bertha e agora a Vampira em Uncanny Avengers (Gambit ficou mordido de ciúmes), ele também sente atração por homens. Hoje eu quis falar mais sobre o relacionamento dele com personagens masculinos porque todo mundo sabe que ele já namorou mulheres, só que alguns fãs insistem em dizer que ele é hétero e querer provas do contrário. A questão é que, no que diz respeito a atração e romance, Deadpool não liga pro gênero, não. Ou seja, nós podemos dizer com segurança que o mercenário tagarela é pansexual!

Desafiando padrões de gênero

Primeiro, é importante lembrar que a sexualidade não tem, necessariamente, relação com a forma como uma pessoa se apresenta para a sociedade. Mesmo que a gente se identifique com certos comportamentos ou peças de roupa, por exemplo, não é o jeito de vestir (ou o fato da gente gostar de maquiagem) que define nossa sexualidade.

Dito isso, Wade é um personagem que constantemente desafia padrões de gênero, em especial porque ele adora usar vestidos, saias… Roupas tidas como femininas. Em Meus queridos presidentes, Deadpool se fantasia de Marilyn Monroe enquanto luta com ex-presidentes americanos que viraram zumbis (é, sério).

deadpooldressO elemento cômico, de novo, costuma estar presente quando ele usa as roupas femininas. Porém, Wade não é forçado a se vestir desse jeito, e ele não se sente desconfortável. O Deadpool curte, e na maior parte das histórias (se não todas) é ele mesmo quem escolhe essas roupas. Às vezes, sem nenhum motivo além dele se sentir bonito. É diferente do tipo de humor que se resume a “haha, enfiamos esse cara num vestido e ele DETESTOU” (o mesmo acontece com Stanley no filme d’A Bela e a Fera). Wade é crossdresser (um homem que gosta de vestir roupas consideradas femininas) e ele também não tem nenhum problema com isso.

Só que essa não é a única maneira como o mercenário desafia estereótipos de gênero. Entrando num tema complicado, em uma das histórias o Wade foi estuprado por uma personagem feminina, a Mary Tyfoid. Infelizmente, o assunto nem sempre é tratado com respeito nos quadrinhos, que é um universo muito machista.

Esse tipo de caso é levado mais a sério quando a agressão é cometida por outro homem (vide Authority, onde a questão é tratada com seriedade). Quando é uma mulher que força um personagem masculino a fazer sexo contra vontade, na maioria das vezes isso é minimizado pelos leitores e pelos escritores (a exemplo do episódio entre Dick Grayson e a Tarântula na série Nightwing, sobre o qual a autora Devin Grayson falou: “eu nunca usei a palavra estupro, eu só disse que foi sem o consentimento [dele!]” – embora Devin já tenha se desculpado por isso).  É um reflexo da vida real, onde homens que são vítima de abuso e violência também não são levados a sério.

Voltando ao Deadpool, Mary Tyfoid é uma mercenária e conhecida vilã dos quadrinhos, com quem o Wade estava trabalhando na série Deadpool publicada nos anos 90. Eles lutam juntos contra o Demolidor, mas no fim das contas Deadpool quer ser um herói e a Mary quer continuar como uma vilã. Quando as desavenças entre os dois chegam ao limite, Wade procura Siryn, uma heroína por quem ele foi apaixonado e a quem acima de tudo ele admirava. Mary Tyfoid usa um indutor de imagem para assumir a forma da Siryn e transar com o Deadpool, sem ele saber. Na manhã seguinte, ela debocha dele de uma forma bem cruel. Wade fica devastado e deixa claro que não quis aquilo.

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“Eu sei que você é um palhaço, mas ela… Ela… estuprou você? Isso é horrível!”

Em 2015, na saga nova também intitulada Deadpool, Wade relembrou o abuso. Quando questionado “então ela estuprou você?” ele respondeu que sim, e ainda disse “foi uma das piores experiências da minha vida, e isso é muita coisa“. Não encontrei referências em português, mas aqui tem a conversa entre eles e um artigo, em inglês, explicando como Mary violentou o Wade. É legal ver um personagem masculino falar abertamente sobre isso, e ver o caso ser tratado com respeito e empatia nos quadrinhos. Pra outros homens que passaram por situações similares, é o reconhecimento e a validação da experiência deles. É uma declaração de que o que aconteceu com eles não foi certo, e de que eles não estão sozinhos nisso.

Sério, gente, quadrinhos são um reduto do machismo. E, muitas vezes, contribuem sim pra manter a cultura do estupro na nossa sociedade. Ver um personagem como o Wade fazer o oposto é muito, muito bom.

Histórico de abuso

O episódio com a Mary Tyfoid nos traz ao próximo tópico: o Deadpool tem um histórico de abuso tanto físico quanto psicológico além desse estupro, que começou na infância e persiste durante a vida adulta.

Como eu mencionei lá em cima, não importa quantas vezes a sua história seja reescrita, Wade sempre é fruto de um lar extremamente abusivo – em algumas histórias, com menções de abuso sexual. Às vezes ele faz piadas com isso, como um mecanismo de defesa. Lembram daquela cena no filme em que ele e a Vanessa estão “disputando” para ver quem teve a infância mais difícil? É esse tipo de piada que ele faz, e de repente você percebe que todas elas tem um fundo de verdade e são apenas uma maneira de lidar com o trauma. Não por acaso, o Deadpool se mostra particularmente cruel com gente que abusa de crianças, e com estupradores.

Isso é um dos motivos pelos quais eu amo o Deadpool: toda a merda que ele já passou na vida, não fez dele um monstro. Claro, ele pode ter problemas e ser auto-destrutivo, mas no fundo ele é uma boa pessoa. Eu tenho um fraco por personagens assim.

Na vida adulta, outra forma de abuso que Wade enfrenta é o preconceito por causa da sua aparência. As pessoas olham pra ele com desprezo, com nojo, e falam na cara que ele é horrível. Quando não com as palavras, com atitudes e expressões que dizem tudo. Qual é, nas HQs tem gente que vomita quando vê o rosto do Deadpool. Quando ele vai em restaurantes, pedem pra ele sair porque ele assusta os clientes!

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Essa é literalmente a cara que a Kate Bishop faz quando o Clint Barton diz que o rosto do Deadpool é assim mesmo, ele não está usando uma máscara de Halloween. (originalmente publicado em Hawkeye vs. Deadpool)

Eu adoro a Kate (que assume o manto de Gaviã Arqueira depois do Clint) mas a forma como ela trata o Wade nessa história (e em outras!) é imperdoável. Será que ela pensa que só porque ela virou de costas, o Deadpool não percebeu? Hein?

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Na mesma história, a reação do Wade: “Merda…” (originalmente publicado em Hawkeye vs. Deadpool)

A infância repleta de abuso e negligência, junto com a discriminação que o Deadpool enfrenta, fazem com que o mercenário tenha baixa auto-estima e se torne propenso a relações disfuncionais e, de novo, abusivas. Aquela fachada divertida, o deboche e as piadas, na verdade escondem um sofrimento enorme.

Deficiência e transtornos mentais

Alterações faciais como as que o Wade tem podem configurar uma deficiência física, se elas interferirem na sua capacidade de existir em sociedade, criando barreiras para o seu relacionamento interpessoal, prejudicando o seu direito de ir e vir, entre outros problemas. As cicatrizes do Deadpool promovem tudo isso, já que as outras pessoas o isolam por causa da sua aparência. É um motivo pelo qual o Wade é considerado um personagem com deficiência física. Outro motivo são as dores crônicas, geradas pela atividade do câncer.

Não por acaso, o Clint Barton, que é surdo, é um dos personagens que trata o Deadpool de um jeito mais decente. E o Wade retribui a cortesia. Por exemplo, quando eles estão trabalhando juntos, o Deadpool mantém sua máscara levantada acima da boca, para que o Gavião Arqueiro consiga ler seus lábios, e às vezes se comunica por linguagem de sinais. São atitudes simples, que a maioria dos outros heróis nem pensa em tomar (tem gente que simplesmente vira de costas enquanto o Clint fica ali sussurrando “…eu preciso ler seus lábios”). O Deadpool faz porque ele sabe o que é ter uma limitação, e ainda por cima ter que lidar com gente que não faz o mínimo esforço para te ajudar, mesmo que isso não custe nada. Ah, se vocês querem ler essa parceria do Deadpool e do Gavião Arqueiro (incluindo o incidente do Dia das Bruxas com a Kate), a história foi publicada no Brasil pela Panini como Deadpool Extra #1. Eu recomendo!

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Em Hawkeye vs. Deadpool a gente vê o Wade usando a linguagem de sinais e mantendo os lábios visíveis para se comunicar com o Clint

A Al, que por sua vez é cega (e vocês com certeza se lembram dela no filme), é outra pessoa em quem o Deadpool encontra empatia e conforto, com quem ele consegue ter uma amizade. O que acontece justamente porque eles compartilham a experiência de existir à margem da sociedade, embora suas deficiências sejam diferentes.

Pensando na questão da representatividade, o Deadpool é um personagem incrível. Ele mostra esse lado feio da deficiência física: os olhares atravessados na rua, a repulsa de terceiros, a discriminação, além dos sentimentos de raiva, frustração e impotência de quem é obrigado a aguentar isso na pele. Eu diria que Deadpool é um veículo catártico para os leitores que compartilham vivências parecidas (o mesmo vale para as situações de abuso e violência já citadas). Até por isso, não é todo mundo que tem estômago para ler os seus quadrinhos.

Além da deficiência física, Wade tem transtornos psicológicos, e mais de uma vez foi internado (contra sua vontade) no hospício. De novo, podemos traçar um paralelo com o “mundo real”: quantas vezes pessoas com deficiências ou problemas mentais, ou até limitações físicas, não são privadas da sua própria autonomia?

É interessante a gente notar também o impacto que as experiências traumáticas (além do câncer) têm sobre o estado mental do personagem. A infância problemática talvez seja a raiz mais profunda dos transtornos, seguida de perto pela tortura do projeto Arma X, mas não podemos esquecer que a rejeição da sociedade graças à sua aparência é um fator decisivo pra deterioração da saúde mental do Wade. Apesar de exibir uma série de sintomas, Deadpool nunca recebeu um diagnóstico apropriado. A gente sabe que ele tem problemas com abandono e auto-aceitação, e alguns fãs sugerem que ele tenha esquizofrenia ou transtorno dissociativo de identidade (TDI). A única coisa que a gente tem certeza é que ele é neurodivergente, e também enfrenta discriminação por causa disso. Inclusive, os maus tratos na mão de familiares, a ameça de abuso e o exílio social são uma realidade que muitas pessoas neurodivergentes ou com deficiências físicas vivenciam com frequência, pois ambos os grupos se encontram em uma situação de maior vulnerabilidade.

deathGraças a essas questões, e por conviver sempre com uma dor física agoniante, Wade já considerou o suicídio várias vezes. Na verdade, a única coisa que o impede é o próprio poder de cura. Esse dilema é usado como motivação para as histórias, como quando o Deadpool resolve acabar com todo o universo Marvel. Inclusive, em uma das HQs, Wade convence uma garota a não pular de um prédio, como uma campanha para estimular a prevenção ao suicídio. O curioso é que numa dessas tentativas, o personagem acaba se apaixonando pela Morte personificada. Ela se torna o grande amor da vida dele (e sempre o rejeita), embora a gente não saiba se isso é real ou uma criação da sua mente perturbada.

 

Vocês notaram que eu gosto é do lado mais vulnerável, mais doloroso, do mercenário, não é? Eu acho que isso torna o Deadpool mais humano. Como eu falei, depois de tudo no final do dia o cara ainda ‘tá lá, tentando fazer a coisa certa – mesmo que do jeito errado. Querendo salvar o mundo, batendo a cabeça na parede pra descobrir como ser alguém melhor. É isso o que me fascina no personagem! Muito mais do que as piadas, do que o lado divertido dos seus quadrinhos (que, convenhamos, às vezes é hilário).

Espero que vocês tenham curtido o post hoje, e se juntem à minha contagem regressiva pro lançamento de Deadpool 2.

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Devido crédito à Christy, que posta no Tumblr várias informações sobre o Deadpool e foi a minha principal referência na hora de escrever esse artigo.


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Diversidade não vende: mito derrubado por filmes como Pantera Negra

Existe uma ideia – equivocada – de que “diversidade não vende”, de que o público não quer mais personagens negros, latinos e asiáticos, mais mulheres como protagonistas, heróis gays e personagens transexuais. É a desculpa que muitos executivos usam para justificar a ausência de diversidade nas suas produções. Ano passado, ao encarar uma queda nas vendas de quadrinhos, a própria Marvel usou esse argumento.

Pantera Negra e séries como Brooklyn 99, Sense8 e Orange is the new black estão aí para provar o contrário. A grande première do filme aconteceu nessa segunda-feira, embora ele vá ser lançado no Brasil no dia 15 de fevereiro. E mesmo antes da estreia já mostrou um desempenho impressionante nas bilheterias, superando o Guerra Cívil e vendendo mais ingressos que qualquer outro filme da Marvel durante a pré-venda. A previsão é que na semana de abertura os números sejam ainda maiores, ultrapassando Deadpool e se tornando a maior estreia de fevereiro.

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Michael B. Jordan como Killmonger e  Chadwick Boseman como T’Challa (Fonte)

O sucesso de Pantera Negra é justificado. Ele é o primeiro filme da Marvel com um herói negro como protagonista, e uma parte enorme do público espera ansiosamente por esse tipo de representatividade. Quem insiste em dizer que “a diversidade não dá ibope” deve ter se esquecido disso. Os espectadores querem se ver nas telas, sim! E se o público é tão diverso, assim como a sociedade é tão diversa, o mais lógico é que os heróis também sejam. Até porque você não precisa ser negro pra apreciar um trabalho tão bem feito. Tenho certeza que eu falo por muitos fãs quando digo que nós estamos de saco cheio de ver as mesmas histórias sobre os mesmos caras brancos e loiros, e de olhos azuis, e chamados Chris com superpoderes. Passou da hora de mudar isso, não é? Bom saber que, dessa vez, a Marvel acertou.

Acima de tudo, a história é uma ode à cultura negra. Wakanda, a nação a que pertence T’Challa (o nome “civil” do herói que dá título ao longa) é um país fictício localizado no leste da África, e Pantera Negra foi largamente influenciado pelas tradições africanas. Dá pra notar isso pela caracterização dos personagens, pelos costumes e estilos de luta retratados em várias cenas. E além de se inspirar na cultura africana, a produção tomou o cuidado de tratá-la com o devido respeito.

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As Dora Milaje, a guarda real de Wakanda (Fonte)

Por exemplo, o rival de T’Challa, M’Baku, inicialmente foi retratado nas HQs como um “homem-macaco” – uma ideia repleta de conotações racistas, mesmo que não seja essa a intenção. Para a versão cinematográfica, o personagem foi readaptado. A sua relação espiritual com os gorilas foi mantida (da mesma forma que T’Challa é ligado à pantera), sem que ele se vista feito o animal. O produtor Nate Moore disse que essa decisão foi tomada justamente porque “ter um personagem negro vestido como um macaco traz várias implicações raciais que não funcionam”. É legal saber que esses detalhes foram levados em conta na hora de construir a narrativa.

E diversidade não se resume à cor da pele! Contrariando a “mania” de incluir uma única mulher no time de heróis, o longa-metragem reúne um elenco de atrizes poderosas em papéis de destaque. Entre elas, Danai Gurira como Okoye, líder da segurança nacional, Lupita Nyong’oAngela Basset interpretando Ramonda, a antiga rainha e mãe adotiva de T’Challa. A própria guarda real de Wakanda é formada por mulheres guerreiras, as Dora Milaje que vocês podem ver acima. 

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Lupita como NakiaLetitia Wright como Shuri (Fonte)

Resumindo, Pantera Negra não apenas traz mais diversidade para o cinema, mas faz isso direito. Com muito respeito, com pesquisa, e principalmente incluindo na produção gente que tem propriedade para falar sobre o assunto – pessoas negras. O resultado é, além do filme incrível, um estrondoso sucesso de bilheteria. Alguém aí tem dúvidas de que diversidade é popular? Não sei vocês, mas esse filme da Marvel eu vou assistir no fim de semana de estreia.


E pra quem ainda não viu Raio Negro: o que vocês estão esperando? Três episódios já estão disponíveis na Netflix e a série é INCRÍVEL. Logo de cara, o capítulo de estreia abre com um comentário poderosíssimo sobre racismo e brutalidade policial. Eu estou acompanhando e mal posso esperar o próximo episódio.


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Raio Negro traz um herói negro e uma heroína lésbica

É muito bom ver que os super-heróis negros estão ganhando cada vez mais espaço nas telas. Além da série Luke CagePantera Negra, que estreia em fevereiro, tem o filme do Cyborg em 2020. E agora Jefferson Pierce, o Raio Negro da DC Comics, ganha a sua própria série de TV e se junta às grandes adaptações de quadrinhos.

Mais uma produção da Warner como Arrow, Flash e Supergirl, Raio Negro estreia hoje nos EUA e promete! Pra gente, vai sair na Netflix Brasil a partir do dia 23 de janeiro, (opa, já está no ar!) com um episódio novo por semana. Assistam o trailer aqui.

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Cress Williams como Raio Negro (Warner)

Jefferson é um herói aposentado que trabalha como diretor de escola. Seus poderes incluem manipulação de eletricidade e geração de campos eletromagnéticos, além das habilidades de luta. Pelo que vimos no trailer, a narrativa não foca só nos problemas encarados por ele, mas nos desafios da família: todos protagonistas negros. E o mais legal é que a diversidade não para por aí, não. Anissa, filha mais velha do Raio Negro, é lésbica e conhecida por lutar lado a lado com a sua namorada.

anissa_raio_negroInterpretada por Nafessa Williams, Anissa Pierce adota o codinome Tormenta – em inglês, Thunder. Enquanto a sua irmã caçula Jennifer (China Anne McClaintem poderes semelhantes aos do pai, a habilidade de Anissa é alterar a densidade do seu corpo sem mudar o volume. Isso deixa sua pele tão dura quanto o aço e praticamente invulnerável, até contra armas de fofo. É isso aí, gente: nós temos uma heroína lésbica que não pode morrer! Yay! As séries parecem ter “mania” de exterminar suas personagens lésbicas, então é um alívio saber que o nome da Anissa não vai aparecer em uma dessas listas. Além de tudo, Tormenta é uma personagem muito interessante nas HQs e tem um enorme potencial a ser explorado na história. Quando as habilidades dela se revelam, seus pais fazem com que Anissa prometa que vai estudar e se formar antes de virar uma super-heroína. Mais tarde, ela participa de uma equipe conhecida como Renegados.

A namorada dela, Grace Choi, será vivida por Chantal Thuy. Grace, que também fez parte dos Renegados, é descendente de uma linhagem de amazonas. Seus poderes são força e resistência sobre-humanas, e um elevado poder de cura. Ou seja, nós vamos ter um casal de mulheres lutando juntas na TV e nenhuma das duas pode morrer. Não sei vocês, mas pra mim Raio Negro já está começando bem. E não podemos esquecer que Chantal é uma atriz canadense de descendência vietnamita, o que acrescenta ainda mais representatividade à história.

Porque super-heróis negros são importantes

Não importa se é DC ou Marvel, dá pra contar nos dedos os heróis negros que a gente vê nas telas. Quando aparacem, eles ocupam lugar de coadjuvante. Por isso Pantera Negra é tão extraordinário: tem mais atores negros do que todos os últimos filmes da Marvel E da DC Comics juntos. Estamos falando sobre uma parte gigante do público que não consegue se ver representada nas histórias de super-heróis, como se essas narrativas não fossem feitas para eles. Isso é cruel. Ainda mais quando a gente pensa no apelo que esse tipo de programa tem para crianças, adolescentes e jovens adultos, que ainda estão formando a própria identidade. É algo que precisa mudar.

Em Raio Negro, os personagens principais são Jefferson e suas duas filhas. As garotas também tem superpoderes, então as personagens femininas vão ganhar destaque – o que é ótimo, já que as mulheres (principalmente mulheres negras) também costumam ficar para escanteio em adaptações de HQs. Isso é crucial pra que todos os fãs se vejam nos seus heróis, e não apenas os fãs homens e brancos (e heterossexuais, né).

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Jefferson cumprimenta um dos seus alunos (Warner)

No trailer, Anissa diz que o pai acreditava ser capaz de que salvar mais crianças como diretor da escola do que como herói. Mais do que um vigilante de uniforme, Jefferson é um bom pai, e um bom homem. Ele acredita no valor da educação e está genuinamente tentando melhorar a sua comunidade. Mesmo assim, quando a situação nas ruas fica insustentável, o Raio Negro larga a “aposentaria”. Ele acredita na educação, mas sabe que é preciso ir à luta quando a resistência se faz necessária. Jefferson Pierce é um ótimo exemplo de representatividade: ao invés de ser coadjuvante ou um estereótipo, é um personagem bem desenvolvido, complexo, autêntico. Assim como Anissa, que decide lutar por justiça mesmo diante da relutância dos pais.

E embora questão raciais não sejam o ponto central, o simples fato de trazer para a tela heróis como o Raio Negro e Tormenta é revolucionário. Vale notar que a série foi criada por Salim Akil e Mara Brock Akil, também negros. Nas palavras do próprio Salim, isso faz diferença: “É incrível ver Mulher-Maravilha ser dirigido por uma mulher. Isso teve efeito na personagem, na narrativa e nas nuances do filme. É a mesma coisa que minha esposa Mara e eu estamos fazendo com Raio Negro“. Quando Luke Cage foi lançada,  eu vi uma entrevista que ficou na minha cabeça. Pensando no racismo da nossa sociedade, e nas reações cada vez mais fortes ao preconceito, um dos produtores da série disse que “o mundo está pronto para um homem negro à prova de balas“. Achei fantástico, e tão, tão pertinente! Heróis como Luke Cage, Pantera Negra, Raio Negro e Tormenta são mais necessários do que nunca.

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Anissa com a sua primeira namorada na série, Chenoa (Fonte)

Que tal a gente curtir a série juntos e demonstrar o nosso apoio? Dia 23 eu vou estar com a Netflix ligada assistindo a estreia de Raio Negro, e espero que vocês também! E me contem o que vocês acharam, viu?


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Fica a dica: Uma das novas adaptações da Marvel, Fugitivos (em inglês Runaways), também tem uma heroína lésbica! Karolina Dean (na imagem ao lado) tem superpoderes e gosta de mulheres tanto na HQ quanto na série de televisão, além de brilhar como um arco-íris – literalmente! Nos quadrinhos ela se interessa pela colega de equipe Nico Minoru e não é correspondida, só que pelo jeito na TV isso vai ser diferente. Eu ainda não vi, mas para quem adora esse clima divertido de aventura e curtiu outras séries como Supergirl e Gifted com certeza é uma excelente pedida. No Brasil, Fugitivos é exibido pela Sony. mas vocês também podem assistir online aqui.


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