Sim, Mulher Maravilha é excelente, MAS…

Eu adorei o filme. Parecia uma criança no cinema, com a atenção fixa na tela, os olhos brilhando e a tiara da Diana – brinde do Cinemark – na cabeça. No que diz respeito à qualidade do entretenimento, Mulher Maravilha esmaga outros filmes de herói. Além de genuinamente divertido, é uma ode ao poder feminino e inclui comentários sobre diversidade. Por isso mesmo, o tratamento dado aos personagens com deficiência me decepcionou muito. Vamos analisar parte por parte, então?

As Amazonas, girl power e diversidade

Ann-Wolfe-as-Artemis-in-Wonder-Woman (1)Sem dúvida o ponto alto de Mulher Maravilha. Quem não se apaixonou pelas Amazonas? Mérito da diretora Patty Jenkins, que escolheu lutadoras mesmo, atletas olímpicas e até fazendeiras para compor o exército de Temiscira. A boxeadora americana Ann Wolfe (na foto), considerada a melhor lutadora do mundo, está incrível no papel de Artemis. Curti demais as cenas de luta das mulheres e achei o máximo terem sido feitas à luz do dia. A gente sabe que batalhas cheias de efeitos especiais e lasers coloridos ficam mais legais à noite, mas para mim as cenas da praia, no início do filme, são muito mais épicas. Inclusive aquelas em que as guerreiras estão “apenas” treinando. Espero que o próximo filme traga as Amazonas de novo, e com maior destaque. Eu adoraria assistir um épico que se passasse inteiramente na ilha.

Gostei da inversão daquele clichê onde a personagem feminina, em geral interesse romântico do mocinho, morre só pra alavancar o crescimento do herói. É um artifício machista e já batido (pense na Gwen Stacy de Homem-Aranha, Mary de Supernatural, entre tantas outras). Em Mulher Maravilha, é Steve Trevor (Chris Pine) quem faz esse sacrifício para que Diana (Gal Gadot) consiga despertar seu poder verdadeiro. Além disso, sempre que ele manda a heroína ficar pra trás por ser “perigoso” ela ignora e vai pra ação, pronta para salvar o dia. E sozinha, se for necessário. Outro detalhe que eu gostei é que no filme, o papel de usar seu charme para seduzir uma vilã cabe de novo a Steve. É mais uma subversão de um clichê machista, aquela ideia da femme fatale que usa sua aparência e sensualidade para conseguir o que quer.

O filme também não perde a oportunidade de inserir comentários sociais, usando os companheiros de Diana para isso. Como Charlie (Ewen Bremner), o ex-soldado que sofre de Transtorno do estresse pós-traumático por causa da participação na guerra. Em um desabafo, o indiano Sameer (Saïd Taghmaoui) fala quDCNqNaGXoAEbS4ze queria ser ator, mas não tem a cor de pele certa. Já o índio kainai apelidado de Chefe, conta a ela que os ingleses dizimaram seu povo e os expulsaram de suas terras. Chefe é interpretado por Eugene Brave Rock (com Gal Gadot na foto ao lado) que também faz parte dos kainai, e em sua primeira cena ele se apresenta à Diana no dialeto do seu povo. O ator Brave Rock pode escolher as roupas e acessórios que o personagem usaria, garantindo a representação fiel e respeitosa da Nação Kainai. Sem que Mulher Maravilha perca o ar descontraído, a própria Diana Prince critica abertamente o sexismo, a indústria da guerra e outros problemas sociais cada vez que esses assunto vêm à tona. 

Doutora Veneno e o estereótipo “vilão deficiente”

Embora Mulher Maravilha acerte em vários momentos, o filme erra feio ao retratar sempre os personagens com deficiências físicas visíveis como vilões. É outro estereótipo nocivo e, infelizmente, muito comum tanto no cinema quanto nos quadrinhos. O maior exemplo (mas não único) aqui é a Doutora Maru, ou Doutora Veneno (Doctor Poison em inglês).

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Elena Anaya como Doutora Maru (Fonte)

O problema é que a deficiência vira um dos aspectos que fazem aquele personagem cruel e degenerado. Muitas vezes ele se torna o vilão em busca da cura (como o Dr. Connors, o Lagarto de Homem-Aranha) ou é rancoroso, movido pela vingança e quer punir as pessoas “normais”, feito o Capitão Gancho de Peter Pan. Além disso, vilões como Maru reforçam ideias preconceituosas que a sociedade tem – por exemplo, encarar a deficiência como uma punição para pessoas ruins. Algo que deveria ser uma simples característica física se torna sinônimo de problemas morais: falta de empatia, sadismo, inclinação pro mal. Esse artifício é usado à exaustão para caracterizar um personagem como repulsivo e o vilão como assustador, a ponto de dar origem a todo um sub-gênero do terror. É só a gente lembrar de Freddy Krueger, Jason e Leatherface, e até mesmo Erik no clássico O Fantasma da Ópera.

A raiz desse clichê, o “vilão deficiente”, é a crença eugenista de que as pessoas com deficiência têm predisposição para loucura, criminalidade e violência, entre outros comportamentos perigosos. Basicamente, representa todos os preconceitos que a sociedade tem contra essas pessoas, ao mesmo tempo que os alimenta. Isso não só promove a exclusão, como coloca essas pessoas em risco e serve como pretexto para justificar maus tratos. O que é ainda mais prejudicial porque a gente já não vê muitos heróis com deficiência na ficção – e, quando vê, eles costumam ser apagados ou mal representados.

Em Mulher Maravilha, a Dra. Veneno com sua face desfigurada representa o que há de pior na humanidade. Suas cicatrizes são resultado das experiências que a cientista realiza, deixando a mensagem subjetiva de que “ela mereceu” isso. De certa forma, essas cicatrizes que fazem com que ela seja considerada “feia” ou “estranha”, são culpa dela mesma. É mais uma variação do estereótipo “vilão deficiente” (nos quadrinhos, levado ao extremo com Herr Starr de Preacher) e, de novo, promove um conceito nocivo sobre um grupo de pessoas já marginalizado. Eu percebi que o filme tentou subverter o clichê: a cena que Maru tira a máscara e revela o rosto desfigurado é justamente o momento em que Diana a reconhece como ser humano e resolve não matá-la, numa tentativa de humanizar e personagem. Legion faz algo semelhante com um vilão gay, mas não acho que Mulher Maravilha conseguiu o mesmo efeito que a série. Principalmente porque no filme todos os vilões tem alguma deficiência física (na forma Ares humana manca e usa bengala, Ludendorff tem um problema que afeta a capacidade física), ao passo que nenhum dos heróis apresenta essa característica.

Em tempo: deformações faciais e cicatrizes como as da Dra. Veneno são consideradas deficiências quando prejudicam a vida pessoal e atrapalham a forma como alguém se relaciona em sociedade. Um exemplo é o Deadpool, outro herói dos quadrinhos que é constantemente hostilizado pela sua aparência, e por isso desenvolveu problemas graves de auto-imagem e fobia social.

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Por um lado, considero Maru uma vilã bem interessante. Ela foi retirada dos quadrinhos, com sua primeira aparição no começo da década de 40, e é uma ótima escolha para antagonista. Gostei muito da decisão em manter o ar “cartunesco” tanto no visual quanto na interpretação, o que combina com o clima divertido do filme e é uma bela homenagem aos clássicos. Em determinado momento a Dra. Veneno até usa um par de luvas igual na HQ. Só gostaria que eles não tivessem usado um clichê tão negativo para construir a personagem, promovendo uma representação tão mal informada e prejudicial sobre pessoas com deficiência.


Para escrever esse post, eu consultei o TV Tropes e o excelente artigo Doctor Poison and Disability in Wonder Woman. Recomendo a leitura!

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Legion, um thriller psicológico da melhor qualidade

Legion é baseado em um personagem da Marvel, mas traz uma proposta original

Eu adoro os X-Men desde a primeira vez que vi aquele desenho na década de 90, mas já faz algum tempo que eu não acompanho os filmes com a mesma empolgação (uhum, desde que eles costuraram a boca do Deadpool em 2009). Nem assisti Logan ainda. Aí veio Legion e pronto: me ganhou de novo.

A série nos apresenta David Haller, que nas HQs adota o codinome Legião. David é considerado um dos mutantes mais poderosos do planeta e suas habilidades incluem telepatia e telecinese. No jargão Marvel, ele é um mutante nível ômega. Embora a essência tenha sido preservada, a série optou por não seguir completamente a história dos quadrinhos e tirando David (Dan Stevens), a maior parte dos personagens foi criada pra TV. O que funciona muito bem nessa produção da Fox.

Dan Stevens como David Haller em Legion

Dan Stevens, de A Bela e a Fera, interpreta Legião (Fonte)

Legion vem com a proposta de ser um thriller psicológico, ao contrário dos filmes de ação onde estamos acostumados a ver os X-Men. O interessante é que os poderes dos mutantes que a gente conhece na série são menos “eu posso atirar bolas de fogo dos meus olhos” e mais “eu consigo navegar pelas memórias das outras pessoas”. Não se preocupe: ainda tem cenas de luta, tem gente explodindo, só não é esse o foco da história. Não sei vocês, mas eu adoro um bom suspense psicológico. E estou curtindo demais o que Legion têm acrescentado ao gênero.

A narrativa segue o ponto de vista de David e por isso mesmo é fragmentada, confusa. Cada episódio deixa mais perguntas que respostas e embora a gente vá entendendo aos poucos, algumas dúvidas permanecem. A maioria das produções que adotam a mesma linha tem uma estética sombria, cenas com pouca iluminação (amo Hannibal da NBC, mas chega na última temporada você precisa de uma lanterna) enquanto Legion é… Colorido. Vibrante. Às vezes, os personagens dançam. E tudo isso só acrescenta ao clima intrigante da história.

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Katie Aselton e Dan Stevens (Fox)

Tem ainda os anacronismos propositais. A ambientação da série, assim como algumas escolhas de cabelo e vestuário, apontam para um período durante as décadas de 60 e 70. Os monitores de TV definitivamente são ultrapassados. Por outro lado, as armas e os veículos parecem contemporâneos! E aí? Será que isso acontece porque nós vemos as cenas da forma como David as vê, ou Legion se passa em um universo paralelo, similar ao nosso, onde a tecnologia evoluiu de maneira diferente? Ah, eu tenho tantas perguntas. Queria que a segunda temporada começasse hoje. Sério.

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Aubrey Plazza

Outro ponto forte é a atuação de Aubrey Plaza, que interpreta Lenny Busker, mais uma das pacientes no hospital psiquiátrico onde David foi internado. Sem spoilers, vou dizer apenas que eu acho maravilhoso a série permitir que uma atriz faça esse tipo de trabalho – o tipo de papel que em geral é reservado a atores, homens. Não vou entrar em detalhes aqui, mas juro que vocês vão entender quando assistirem. Aubrey surpreende o público com uma performance intensa, por vezes perturbadora. Ela está incrível no papel e eu sinceramente não consigo imaginar alguém melhor para dar vida à personagem!

Por último, um detalhe importante: a série tem um vilão que é gay e, aleluia!, não cai naquele veeeelho estereótipo. Se você não sabe por que isso seria um problema, que tal começar por esse artigo legal do Lado Bi? O fato é que a homossexualidade (ou bissexualidade) é usada com frequência em filmes, séries e desenhos animados para identificar um personagem como ameaçador, perverso ou anormal – ou seja, é mais uma das características que fazem dele o vilão. Já em Legion acontece justamente o contrário. A gente fica sabendo que o personagem é gay no primeiro episódio em que ele demonstra traços de humanidade (empatia, bondade, carinho, até medo). É bem interessante a forma como a série constrói isso e estabelece uma relação oposta entre as atitudes controversas do personagem e a sua forma de amar, sua sexualidade.

Ainda nessa linha, vale lembrar que boa parte da história – ao menos durante essa primeira temporada – se passa em uma instituição psiquiátrica, onde David já está internado há alguns anos. A série consegue abordar o tema com sutileza, sem recorrer ao clichê (tão comum no suspense e no terror) de demonizar a doença mental ou mesmo os pacientes psiquiátricos. É mais um entre os “detalhes” que não apenas tornam o enredo mais inteligente, como conferem originalidade à produção.

Legion tem uma proposta original e realmente traz algo novo pros shows de super-heróis. E para quem ficou curioso sobre a relação de David Haller com os X-Men, tudo indica que eles vão explorar isso na segunda temporada. Vale a pena acompanhar!